minha conta a revista fazer logout faça seu login assinaturas a revista
piauí jogos

    ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2008

esquina

Assim caminha a humanidade

De maneira trôpega, claudicante e bocó de tudo

Vanessa Barbara | Edição 19, Abril 2008

A+ A- A

Não se sabe ao certo quem deu o primeiro passo tolo da história. Sabe-se, no entanto, que em 1970 o grupo britânico Monty Python apresentou um esquete sobre o Ministério das Caminhadas Tolas, no qual o comediante John Cleese, de terno e chapéu, estendia a perna em 90 graus e ia saltitando rumo ao trabalho, onde recebia em seu gabinete um cidadão que buscava apoio da Coroa para desenvolver uma silly walk – ou seja, uma andada bocó – de sua própria autoria. Há quem diga que a gênese da silly walk (em francês, marche futile; em alemão, sinnlos Gehen; em italiano, passeggiata cretina; em espanhol, paseo estúpido; em latim, passus stultus) remonta a Ricardo III, rei coxo e corcunda que fazia os cães latirem quando passava. Ou ao Corcunda de Notre-Dame, a Chaplin e a Groucho Marx, notáveis criadores de passadas ridículas.

Se a origem é controversa, uma coisa é certa: o Brasil sempre esteve na vanguarda da história. Desde há muito, tem se destacado no setor, com Curupira, Saci-Pererê, Jânio Quadros e Garrincha, entre muitos silly walkers proeminentes. Uma nova prova da expertise pátria foi dada depois do último Carnaval. Quando todos já andavam em linha reta, a nação escreveu em São Paulo um capítulo inovador sobre o tema: promoveu uma caminhada tola organizada – a primeira do mundo.

Foi num domingo, às quatro da tarde, no vão livre do Museu de Arte de São Paulo, o Masp, na avenida Paulista, que os militantes se concentraram para o aquecimento idiota. Inspirados no comediante do Monty Python, os participantes da 1a Silly Walk Brasil usavam chapéus e traziam guarda-chuvas exagerados. Alguns pretendiam apenas imitar John Cleese, embora aperfeiçoando o giro aéreo da perna esquerda, que, para os mais críticos, não parecia suficientemente tolo. Outros apresentariam criações particulares, como o Homem Descendo a Escada, que exige muito das coxas, e a Cavalgada sem Cavalo, inspirada no filme Monty Python em Busca do Cálice Sagrado, de 1975. A estudante Elisa Mafra, de 20 anos, declarou que iria fazer um medley de estilos, sem, no entanto, desprezar os grandes clássicos. Pensou numa silly walk lateral, mas “com certeza eu iria cair”.

Como tudo ali era de uma rematada tolice, o percurso da passeata foi entregue, deliberadamente, ao deus-dará. “Para onde a gente for, a gente vai”, declarou o organizador, Tiago Lima de Andrade, de 21 anos. “Vai ter sempre um andarilho mané caminhando em círculo”, previu um participante, justificando a impossibilidade de predefinir trajetos.

O aquecimento demorou mais de vinte minutos. O atleta bobo mais promissor é Marcelo Silva, o “Sunshine”, de 15 anos. Ele deu piques extremamente imbecis no meio da multidão, indo e vindo feito um pateta pela calçada, tropeçando de vez em quando e, de súbito, se escondendo atrás do guarda-chuva, em pose misteriosa. Marcelo tem os cabelos compridos, encaracolados, e usa uma cartola por cima do capuz. Para ele, o evento é uma oportunidade de exibir a cartola sem que o fato configure um “insulto à moralidade pública”.

Um dos participantes sugeriu uma silly walk dentro do próprio museu. “Dependendo da sala, a gente grita: ‘Todo mundo fazendo silly walk cubista! Agora, expressionista!'” Com erudição invejável, arrematou: “Natureza morta é tipo zombie walk“, referindo-se ao evento fúnebre-peripatético de origem canadense e várias edições no Brasil, no qual centenas de mortos-vivos se fantasiam de zumbis e avançam pelas ruas aos gritos de Cérebro!, Miolos!

 

A instantes da largada, um tocador de realejo arregalou os olhos e apurou os ouvidos. O organizador Tiago abriu o guarda-chuva e gritou: “É chegado o momento!” – e disparou na frente. Atrás dele, a massa de aproximadamente vinte silly walkers vai atrás, a andar tolamente pelas calçadas da avenida Paulista. Os destaques foram a revolucionária caminhada lateral (ou de banda) de Elisa Mafra, que optou pela glória e pelo reconhecimento de seus pares em detrimento da própria segurança, e a silly walk altamente flexível (abaixa, levanta, acelera, pára, se esconde com grande mistério) de Marcelo Sunshine, um verdadeiro fundista que liderou a marcha do início ao fim.

Na avenida, os transeuntes andavam de forma pouco tola e fingiam ignorar a massa de gente saltitando, trotando e fazendo força para se comportar como rematados basbaques. Já no primeiro quarteirão, a turma mais militante parou para se abanar, pois, segundo a opinião geral, andar tolamente é muito cansativo. Ainda mais para os seguidores do movimento nerd, cujo único movimento real costuma ser da geladeira para o computador, do computador para a geladeira, conforme os próprios. “Eu às vezes vou para a sala também”, comentou Tiago, ao que Elisa, aventureira, acrescentou: “A sala entra nos meus planos porque o DVD está lá.”

O cansaço foi maior para Joel Dias, de 16 anos, criador da pitoresca silly running (corrida tola), que, embora tenha lhe servido apenas para atravessar o sinal, arrancou aplausos dos que corriam atrás. Mais dois quarteirões e os adeptos da bobajada ambulante estavam acabados. A turma enfim se concentrou em frente ao prédio da Gazeta, onde uma fileira de guardas sérios recusou-se a lhes dar um mínimo de atenção, mantendo o olhar fixo no horizonte. Nos últimos instantes da passeata, Vinícius Schiavini, de 24 anos, também repórter do site Jovem Nerd, ainda inventou o caminhar Silvio Santos, enquanto uma colega sua, praticante do jornalismo participativo, alcançou a consagração com seu passo Sidney Magal. “É totalmente tolo”, admite Vinícius. “E ela usa a mão, o que é raro entre os contemporâneos”, comenta outro paspalho.

Embora os organizadores neguem, a 1a Silly Walk Brasil teve um fundo político. Entre os participantes, todos lamentam o descaso do governo com os silly walkers, principalmente diante do fato de que, na Inglaterra, há um ministério específico para cuidar do assunto. Por que no Brasil não temos um igual? Vinícius Schiavini explica que seria redundância. “Todos já cumprem essa função”, diz, referindo-se à governança cretina e à legislatura descerebrada. “O governo negligencia as silly walks“, protestou Vinícius, que ainda não conseguiu verba da Lei Rouanet. “A gente tentou, mas não é fácil”, completou Yule Barbosa, de 21 anos, estudante de artes plásticas na USP. “Tudo aqui é burocracia. Como é que o país vai pra frente sem uma boa silly walk?”