
Em Succession, o clã dos Roy no esplendor: a moralidade pública da série é crítica com a alta elite, formada por seres repugnantes. Já a moralidade privada os projeta como heróis trágicos CRÉDITO: REPRODUÇÃO
Assistindo ao luxo
Retratos ficcionais da alta elite se tornaram uma obsessão. São sátiras ou homenagens?
Alejandro Chacoff | Edição 221, Fevereiro 2025
Patrick passa os verões de sua infância num casarão na Provence, no Sul da França. Seu pai, David, é um aristocrata inglês, médico não praticante e pianista manqué cuja maior habilidade reside não em sua formação ou inegável talento musical, mas na forma cáustica que tem de fazer todos ao seu redor se sentirem deslocados, quando não humilhados ou constrangidos. Engraçado e cruel, seu jeito de entreter (a si mesmo, sobretudo) é danoso à alma e indissociável de sua maldade. Já a mãe de Patrick, Eleanor, é uma americana alcóolatra riquíssima, dona de instintos filantrópicos mal calibrados. Parece fadada a um ciclo eterno de abusos, assim como sua fortuna – seja sustentando o marido orgulhosamente ocioso ou os “ativistas” que batem à sua porta em busca de dinheiro fácil.
Na primeira cena do romance, encontramos David, o pai, no cascalho ao redor do casarão, de óculos escuros e um charuto na boca, acertando as formigas com um jato de mangueira. “Sua técnica era bem conhecida: ele deixava as sobreviventes se debaterem sobre as pedras molhadas, recuperando a dignidade por um instante, antes de lançar novamente a água cataclísmica sobre elas.” O sadismo com as formigas difere pouco de sua atitude em relação ao próprio filho. Uma de suas lições de vida – ou lições de morte, por assim dizer – também envolve água. Quando o menino Patrick ainda tem 3 anos, o pai o agarra de surpresa e o lança à piscina. Em seguida, assiste, impassível, ao desespero do filho que não sabe nadar e quase se afoga, até conseguir apoiar as mãos na beirada.
Reportagens apuradas com tempo largo e escritas com zelo para quem gosta de ler: piauí, dona do próprio nariz
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