A Revista Newsletters Reportagens em áudio piauí recomenda piauí jogos
Podcasts
  • Foro de Teresina
  • ALEXANDRE
  • A Terra é redonda (mesmo)
  • Sequestro da Amarelinha
  • Maria vai com as outras
  • Luz no fim da quarentena
  • Retrato narrado
  • TOQVNQENPSSC
Vídeos
Eventos
  • Festival piauí 2025
  • piauí na Flip 2025
  • Encontros piauí 2025
  • Encontros piauí 2024
  • Festival piauí 2023
  • Encontros piauí 2023
Herald
Minha Conta
  • Meus dados
  • Artigos salvos
  • Logout
Faça seu login Assine
  • A Revista
  • Newsletters
  • Reportagens em áudio
  • piauí recomenda
  • piauí jogos
  • Podcasts
    • Foro de Teresina
    • ALEXANDRE
    • A Terra é redonda (mesmo)
    • Sequestro da Amarelinha
    • Maria vai com as outras
    • Luz no fim da quarentena
    • Retrato narrado
    • TOQVNQENPSSC
  • Vídeos
  • Eventos
    • Festival piauí 2025
    • piauí na Flip 2025
    • Encontros piauí 2025
    • Encontros piauí 2024
    • Festival piauí 2023
    • Encontros piauí 2023
  • Herald
  • Meus dados
  • Artigos salvos
  • Logout
  • Faça seu login
minha conta a revista fazer logout faça seu login assinaturas a revista
Jogos
piauí jogos

    CRÉDITO: CARLA CAFFÉ_2024

questões de precisão, beleza e saudade

Até o ponto final

De como Denise Pegorim me fez dizer o que eu queria

João Moreira Salles | Edição 213, Junho 2024

A+ A- A

Em 1º de janeiro de 2023, escrevi o seguinte:

 

No dia 31 de dezembro, deitei um pouco depois da meia noite e só fui adormecer por volta das 5 da manhã. Não foram os fogos ou os foliões do lado de fora que me mantiveram acordado. Foi Pelé. Ou, para ser mais exato, o que Pelé me fez pensar.

Pelé morrera dois dias antes. Daquele 29 de dezembro até a noite da virada do ano, eu, como milhões de outras pessoas, tinha passado horas tentando compreender a dimensão daquela morte, o tamanho do que vinha de desaparecer.

 

Era o início de um texto que seria publicado no site da piauí três dias depois. O que as pessoas leram foi o seguinte:

Pouco depois da meia-noite de 31 de dezembro eu já estava deitado, mas só adormeci por volta das cinco da manhã. Não foram os fogos nem os foliões do lado de fora que me mantiveram acordado. Foi Pelé. Ou, para ser mais exato, o que Pelé me fez pensar. A notícia havia chegado dois dias antes, e, do dia 29 de dezembro até a noite da virada do ano, eu, como milhões de pessoas, passaria horas tentando compreender a dimensão dessa morte, o tamanho do que vinha de desaparecer.

Pode parecer que as mudanças são poucas, mas não são. Aqui vai a prova:

 

No dia 31 de dezembro, Pouco depois da meia-noite de 31 de dezembro eu já estava deitado, mas deitei um pouco depois da meia noite e só fui adormecer adormeci por volta das 5 da manhã. Não foram os fogos ou nem os foliões do lado de fora que me mantiveram acordado. Foi Pelé. Ou, para ser mais exato, o que Pelé me fez pensar. OK juntou Pelé morrera A notícia havia chegado dois dias antes.  Daquele, e, do dia 29 de dezembro até a noite da virada do ano, eu, como milhões de outras pessoas, tinha passado passaria horas tentando compreender a dimensão  daquela dessa morte, o tamanho do que vinha de desaparecer.

O parágrafo acima é uma amostra do trabalho de Denise Pegorim, minha editora da vida inteira. Tudo que publiquei passou antes por ela. Os textos que eu recebia de volta chegavam sempre assim, riscados a cor da primeira à última linha. Passar da versão original para a editada era como limpar os óculos: o que estava turvo se esclarecia, ficava nítido. Os artigos levavam várias demãos de tinta, vários banhos de bom português, numa espécie de higiene sintática e semântica que deixava as frases limpinhas e sem aquelas ambiguidades indesejadas que sujam o sentido.

Para ficar apenas no exemplo de Pelé. Comecei assim:

 

No dia 31 de dezembro, deitei um pouco depois da meia noite e só fui adormecer por volta das 5 da manhã.

Denise devolveu:

Pouco depois da meia-noite de 31 de dezembro eu já estava deitado, mas só adormeci por volta das cinco da manhã.

A primeira versão é estática, a segunda é dinâmica. Minha frase está parada. “No dia 31 de dezembro…” não tem tensão, é imóvel. Muito diferente de “Pouco depois da meia-noite de 31 de dezembro…”, que sugere um tempo que corre, algo que se move. O leitor entra no relato com mais empuxo.

É só o início.

Logo na frase seguinte, Denise faz uma pequena mudança em nome da precisão. Quem teima em dormir na noite de Réveillon precisa enfrentar a maldição dos fogos e dos foliões. Não são perrengues excludentes, daí “não foram os fogos nem os foliões”, com o “nem” sabiamente substituindo o “ou”.

A troca de “Pelé morrera dois dias antes” por “A notícia havia chegado dois dias antes” tem o benefício de entrar mais suavemente no tema da morte, como quem prepara o terreno antes de dar a informação. Essa delicadeza também se reflete no modo de falar. Denise substitui um mais-que-perfeito, morrera, que, no contexto, destoa e afasta, por uma locução verbal, havia chegado, que não altera a ordem das coisas – nos dois casos, a notícia da morte antecede a noite em claro –, mas que tem a vantagem de conjugar o verbo haver no pretérito imperfeito, um tempo verbal que, para nós, brasileiros, soa mais natural. Está certo não dar notícia triste com fala empolada.

Na oração seguinte, um segundo ajuste de tempo verbal: tinha passado se transforma em passaria. “[…] eu, como milhões de outras pessoas, tinha passado horas tentando compreender a dimensão daquela morte…”, a minha versão, se refere a um momento que ficou para trás, acabou. A solução da Denise – “[…] eu, como milhões de pessoas, passaria horas tentando compreender a dimensão dessa morte” – me devolve para a insônia; me leva, e ao leitor, de volta àquela noite em branco.

Outro ajuste, agora de pronome: escrevi que tentava compreender “a dimensão daquela morte”. Denise corrigiu: “dessa morte”. Aquela morte é uma morte distante; já essa é uma morte que está perto, a distância correta quando se sente tanto o desaparecimento de alguém.

Por fim, Denise junta os dois parágrafos num só (e aqui eu me pergunto se ela deixaria esse “num só”: o verbo “juntar” já não dá conta do recado?). Com um comando simples do teclado, ela reuniu o que não devia estar separado: a insônia e a razão da insônia. A quebra do parágrafo abria um espaço entre a morte de Pelé e a minha incapacidade de dormir. Não mais.

E isso só no 1º parágrafo. As alterações seguem assim até o ponto final, palavra por palavra, regência por regência. Denise enxuga excessos retóricos, ajusta a adjetivação imprecisa e põe ordem nos tempos verbais confusos. Tudo vai sendo espanado para fora da página. Quando o trabalho terminava e eu lia a versão final, pensava: Era exatamente isso que eu queria dizer.

Foram anos de conversa sobre vírgulas e pontos-e-vírgulas; sobre quebras ou não quebras de parágrafo; sobre subjuntivos e infinitivos flexionados. Sobretudo, foram décadas trocando ideias sobre a melhor maneira de falar dos mais variados assuntos: da Amazônia e do incêndio no Museu Nacional, de um grafite nas ruas do Rio de Janeiro e de Eduardo Coutinho, do Botafogo, de Fernando Henrique Cardoso depois da Presidência e das violências sofridas por Francenildo dos Santos Costa no escândalo que derrubou Antonio Palocci, de Três Corações e do mapa do metrô de Londres, dos matemáticos Artur Avila e Fernando Codá, de Giotto e Simone Weil, de Paulo Vinicius Coelho e da Islândia, de todas as esquinas publicadas durante os dois primeiros anos da piauí – eu editava a seção e só mandava os textos para a paginação depois que passassem pelo crivo dela.

Dos muitos assuntos sobre os quais falamos, só não falamos dela mesma, Denise Pegorim. Lamento que tenha sido assim, parece uma indelicadeza, mas compreendo a razão. O trabalho de um grande editor, de uma grande editora, é por definição discreto. Quando é extraordinário, como era o dela, as intervenções se integram perfeitamente no texto final e o resultado deixa de ser de quem as fez. Vira coisa do outro – coisa integralmente nossa, destinatários da edição. Não é só que o texto agora entrou nos eixos, acertou no alvo, mas que temos a certeza de que ele é fiel ao nosso trabalho, uma extensão do nosso espírito. Hoje, quando leio um texto que escrevi faz tempo, tudo nele parece meu. Mas basta abrir a pasta das versões editadas – a pasta “Denise” – para ver que não é bem assim. Essa é uma das razões pelas quais a profissão é tão bonita. É um trabalho generoso.

 

De todos os textos que já escrevi e publiquei, este é o primeiro que Denise não editou. E isso porque, infelizmente, tristemente, o que escrevo aqui é um obituário. Em maio, Denise morreu vítima de um AVC. Tinha 66 anos e deixa mãe, irmãos, sobrinhos, sobrinhos-netos, amigos e um sem-número de pessoas que, como eu, não só sentirão falta dela como precisarão aprender a escrever sozinhas. É parecido com a sensação daquele dia distante quando tiram da gente as rodinhas da bicicleta. Com a diferença de que tratar bem o idioma é bem mais difícil do que não cair.

Um amigo dizia que a clareza é a generosidade do escritor. Acho que é verdade, que existe uma dimensão moral em não querer ser impenetrável. Denise brigava até o fim pela causa da transparência. Ela era de um zelo inegociável. Nas horas que antecediam o fechamento da edição, ela disparava uma série de e-mails acrescentando uma vírgula aqui, retirando outra acolá, sugerindo uma palavra mais precisa, eliminando uma redundância. A gente dizia: “Não dá mais, Denise!” “Okay”, ela respondia – e cinco minutos depois, plim!, chegava outra mensagem. Esta, por exemplo, recebida aos 46 minutos do segundo tempo:

Era a primeira vez que o Botafogo ganhava as cinco primeiras partidas do Campeonato Brasileiro, e apenas a segunda vez que algum time conseguia essa façanha algum clube realizava essa proeza na era dos pontos corridos.

Façanha já tinha aparecido uma vez no texto, proeza não. O que incomodava não era a repetição (dobrar palavras nunca foi um problema para Denise), mas a redação preguiçosa que usava duas vezes façanha para descrever o mesmíssimo feito. E tome ligar para a gráfica.

A escritora americana Lillian Ross conta que certa vez o editor da New Yorker William Shawn corrigiu as provas de uma introdução que ele escrevera para um livro dela, eliminando apenas um advérbio. A frase dizia: O livro permanece tão vital e tão singular quanto na época em que foi escrito.  Shawn olhou, refletiu um pouco e mudou para O livro permanece singular e tão vital quanto na época em que foi escrito. “Não existem graus de singularidade”, disse. Um outro autor, após ter seu texto editado ao longo de meses por Shawn, e vê-lo extraordinariamente melhorado, observou que agora o artigo pertencia tanto a ele quanto a Shawn. Shawn retrucou: “Não, ele pertence a você – eu apenas o tornei mais seu.”

O parágrafo acima faz parte do posfácio de um livro publicado pela Companhia das Letras. Eu escrevi, Denise editou. Se alguém quiser uma boa definição do trabalho dela, aí está: tudo que escrevi e passou pela mão da Denise, ela tornou mais meu.

João Moreira Salles
João Moreira Salles

Documentarista, é fundador da piauí. Dirigiu No Intenso Agora, Santiago, Entreatos, Notícias de uma Guerra Particular e Nelson Freire. É autor de Arrabalde: Em Busca da Amazônia (Companhia das Letras)

  • NA REVISTA
  • Edição do Mês
  • RÁDIO PIAUÍ
  • Foro de Teresina
  • Silenciadas
  • A Terra é redonda (mesmo)
  • Maria vai com as outras
  • Luz no fim da quarentena
  • Retrato narrado
  • TOQVNQENPSSC
  • DOSSIÊ
  • O complexo_SUS
  • Marco Temporal
  • má alimentação à brasileira
  • Pandora Papers
  • Arrabalde
  • Igualdades
  • Open Lux
  • Luanda Leaks
  • Debate piauí
  • Retrato Narrado – Extras
  • Implant Files
  • Anais das redes
  • Minhas casas, minha vida
  • Diz aí, mestre
  • Aqui mando eu
  • HERALD
  • QUESTÕES CINEMATOGRÁFICAS
  • EVENTOS
  • AGÊNCIA LUPA
  • EXPEDIENTE
  • QUEM FAZ
  • MANUAL DE REDAÇÃO
  • CÓDIGO DE CONDUTA
  • TERMOS DE USO
  • POLÍTICA DE PRIVACIDADE
  • In English

    En Español
  • Login
  • Anuncie
  • Fale conosco
  • Assine
Siga-nos

WhatsApp – SAC: [11] 3584 9200
Renovação: 0800 775 2112
Segunda a sexta, 9h às 17h30