esquina

Atiradores mirins

Um projeto do Exército para crianças

Rafael Cariello
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2019

O comparecimento ficou dentro do esperado. Passava um pouco do meio-dia, numa terça-feira de abril, e cerca de cinquenta pessoas aguardavam o momento de serem atendidas na sede do Tiro de Guerra de Itatiba, cidade com pouco mais de 100 mil habitantes, próspera para os padrões brasileiros, localizada a cerca de 90 quilômetros da capital paulista.

O telhado de duas águas da casinha simples, de um andar, avançava sobre a varanda e abrigava as mães de alunos da rede pública. Na fila, uma maioria de mulheres, entre 30 e 40 anos, algumas um pouco mais velhas. Gente simples, digna, muitas empertigadas, quase em posição de sentido, segurando documentos na frente do corpo. Haviam se interessado pelo programa que prometia disciplina militar, lições de cidadania, e oferecia aos seus filhos, crianças de 11 a 13 anos, a oportunidade de se transformarem em “atiradores mirins” – era esse o nome do projeto, realizado numa parceria da prefeitura com o braço forte e a mão amiga do Exército.

“Não sei se vai ter tiro no curso”, comentou a cabeleireira Edna Moura, mãe de Pedro Henrique, 11 anos. “Acho que é mais disciplina, ordem, regra. É sempre bom.” Moura tinha tomado conhecimento do projeto pelo site da prefeitura. Comentou com o filho, “bom aluno, disciplinado”, que se empolgou com o aspecto militar da formação, oferecida de maio a novembro, uma vez por semana, na parte da tarde.

Mariana Bueno, 33 anos, funcionária de uma empresa de logística, estava ali para inscrever seu filho Lucas, de 12, aluno do 7º ano. “Ele achou interessante a parte dos soldados, tem admiração pelos militares. Eu acho bonita a disciplina, a responsabilidade que eles adquirem. É um projeto bacana.”

Logo atrás dela, Eliana Vieira Sampaio, mãe de Eloísa, de 13 anos, garantia que “não tem tiro” na formação dos atiradores mirins. Juliana Mara Suate, mãe de Samuel, de 11 anos, reiterou que o nome do programa gerava mal-entendidos: “Não significa que eles vão pegar em armas e sair atirando. É ética, comportamento.”

Sentado à mesa de seu escritório, o comandante do Tiro de Guerra em Itatiba, subtenente Hevandro Fernandes da Cunha, tinha às suas costas a fotografia do presidente da República, Jair Bolsonaro. Preocupado com o horário marcado para o início das inscrições – 13h30 –, o militar falava ao telefone com uma representante da Secretaria Municipal de Educação. “O pátio está cheio, Luciana”, avisou. “Se quiser trazer reforço, vamos precisar.”

Gentil, o militar havia me convidado para conversar em sua sala. “O projeto existe desde 2015, explicou. “O nosso limite é de cinquenta alunos. Neste ano a procura está maior.” O subtenente Fernandes garante que ninguém vai pegar em armas ali. Os atiradores mirins aprendem a marchar, recebem uniformes militares e desfilam no 7 de Setembro. Têm aulas de civismo, aprendem noções de cidadania, de higiene, primeiros socorros. Outras instituições ajudam no conjunto de palestras: ONGs, Corpo de Bombeiros, até a Polícia Militar, que submete a criançada a uma “palestra antidrogas”.

O nome do programa deriva do fato de que essa formação cívica para pré-adolescentes – oferecida pelo Exército em parceria com onze prefeituras no estado de São Paulo – é realizada nos Tiros de Guerra, unidades que, sem serem batalhões ou abrigarem grande número de soldados, têm a função de representar o Exército e facilitar o cumprimento do serviço militar obrigatório em localidades do interior. “Quem serve em batalhão é soldado”, explicou o subtenente. “Quando o serviço militar é feito nos Tiros de Guerra, eles são chamados de ‘atiradores’. Daí o nome.”

O nome tinha dado problema, todos admitiam. Na véspera, o comandante havia sido bastante requisitado. “Surgiu essa polêmica, quando a prefeitura divulgou o banner na internet. Educadores, cidadãos ligaram querendo saber”, explicou o subtenente Fernandes. O mesmo havia se passado na prefeitura. Anderson Sanfins, secretário de Educação, contou ter recebido “questionamentos” sobre essa história de “atiradores mirins”. “Em função de Suzano e do Rio de Janeiro impactou um pouco mais”, ele disse. Referia-se ao massacre perpetrado por dois ex-alunos numa escola da Grande São Paulo, em março, e aos mais de oitenta disparos efetuados por soldados do Exército contra o carro de uma família, em abril, que resultou na morte de duas pessoas no Rio.

“O projeto é bom, as pessoas gostam”, avaliou o secretário. “Mas já estamos estudando a mudança do nome.”

Durante algum tempo, Juliana Suate criou o filho sozinha. Ela é disciplinada – está terminando um curso técnico de enfermagem – e disciplinadora. “Lá em casa dizem que eu sou general. Eu tenho essa mania de comandar, de liderar.” A família mora num conjunto habitacional, e Suate teme pelas horas mortas na parte da tarde. Era essa uma das razões para ela querer inscrever o filho no projeto do Exército. “A gente tem contato com pessoas que não pegaram um bom rumo. Eu não deixo meu filho descer para brincar. Se desce, é controlado. Mas não posso colocá-lo numa bolha. Uma hora ele vai ter que andar sozinho. Quero que aprenda a dizer ‘não’.”

Motivo semelhante havia levado Alexandre Antônio da Conceição ao Tiro de Guerra. Ele contou que seu filho Cauã, de 12 anos, se interessou em fazer o programa porque “não quer ficar em casa à toa”. O pai tampouco gosta que o menino perca tempo na rua. “Pode se envolver com coisa errada. Achei que o curso era bom para ocupar a cabeça.”

Passava um bocado do horário marcado quando, afinal, os pais começaram a ser atendidos. Uma das mães me chamou e perguntou se eu era do jornal local. Expliquei que não. Ela queria reclamar da demora: já eram quase duas da tarde. “Estão um pouco enrolados”, avaliou, antes de observar que um programa que pretende ensinar disciplina não deveria ser descuidado com o horário. De resto, havia muita gente ali que ainda não tinha almoçado, ela disse.

Aos poucos a fila andava. Os pais eram atendidos por funcionários em mesinhas que haviam sido instaladas na varanda. Com rostos de menino, quase imberbes, três jovens que prestam serviço militar ajudavam a fazer as inscrições.

Rafael Cariello

Editor da piauí. Foi editorialista da Folha de S.Paulo e correspondente do jornal em Nova York

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