chegada

Aulas de bolsonarismo

De olho em 2020, PSL ensina filiados a ser de direita

Luigi Mazza
“Por que as feministas nunca citam Margareth Thatcher?”, indagou o professor à plateia
“Por que as feministas nunca citam Margareth Thatcher?”, indagou o professor à plateia CREDITO: MIRRORPIX_GETTY IMAGES

Um Jair Bolsonaro de papelão, em tamanho real e com as mãos cruzadas, sorria na porta de um salão de festas em Vitória. O espaço, que estava quase lotado, pertence à Associação dos Militares da Reserva do Espírito Santo. Enquanto alguns dos presentes rondavam um bufê de café da manhã, outros tiravam fotos com o totem. Ou, então, se dirigiam a uma pequena bancada em que preenchiam uma ficha e se filiavam à legenda do presidente da República, o Partido Social Liberal.

Naquele sábado de agosto, cerca de duzentas pessoas acordaram cedo para assistir às palestras do Primeiro Encontro Estadual do PSL Mulher. A maioria do público era membro ou simpatizante da sigla e vinha de diferentes cidades da Região Metropolitana. Todos estavam sentados quando, por volta das 9 horas, o professor Wellington Callegari subiu ao palco. De microfone em punho, ele sintetizou o motivo da reunião: “Precisamos adequar nosso discurso à realidade da direita conservadora que tomou o poder em 2018 e que, se Deus quiser, ainda vai ganhar mais quatro anos em 2022.” Recebeu aplausos efusivos e gritos de apoio. Embora costume dar aulas no partido sobre a história da direita brasileira, desta vez Callegari tratou de feminismo.

“A figura da mulher está sofrendo uma apropriação indébita”, declarou, peremptório. Em seguida, indagou para si mesmo: “Como assim? Quem está se apropriando das mulheres?” Ele próprio respondeu: “As ideologias, as funestas ideologias!” Na parte introdutória da palestra, Callegari tentou demonstrar que as sociedades pré-industriais destinaram as tarefas domésticas às mulheres para garantir a sobrevivência da espécie e não “por maldade dos homens”. Como os índices de mortalidade eram altos, explicou, havia a necessidade de procriar bastante e dedicar muito tempo às crias.

Hoje, tal condição histórica está superada, prosseguiu. Mesmo assim, ideologias a serviço da esquerda continuam a “criminalizar todos os homens”. Um slide apontava os culpados: Freud, Marx e a Escola de Frankfurt, representada ali pelo sociólogo e filósofo Herbert Marcuse. Parte da plateia fotografava tudo que aparecia no telão.

Com uma retórica contundente, similar à de pregadores evangélicos, o palestrante de 37 anos falou por meia hora e guardou o ouro para o final. “Mulheres do PSL, sempre se perguntem o seguinte: por que as feministas que dizem lutar pelo empoderamento nunca mencionam a mulher mais poderosa do século XX?” O projetor exibiu, então, uma foto de Margareth Thatcher, primeira-ministra conservadora que governou o Reino Unido entre 1979 e 1990.

 

Servidor concursado do Tribunal de Justiça e professor de história num colégio particular, Callegari também ensina filosofia e geografia num cursinho pré-vestibular em Cachoeiro de Itapemirim, município a 137 km de Vitória onde mora com a família. É católico e, no ano passado, candidatou-se a deputado estadual pelo Partido Social Cristão, o PSC. Não se elegeu, mas chamou a atenção de Carlos Manato, presidente do PSL no Espírito Santo.

Desde julho, a convite dele, Callegari roda o estado não apenas para dar aulas sobre a história da direita, mas também para expor as principais bandeiras do bolsonarismo a membros do partido ou a quem deseja integrá-lo. O PSL capixaba lançou mão da estratégia a fim de evitar que gente pouco identificada com o ideário do governo federal se candidate a algum cargo ou entre na sigla. “Temos notado que nossos próprios militantes não sabem o que é ser de direita”, afirmou Manato.

O diretório local está na vanguarda de um debate que a legenda pretende travar nacionalmente. Fundado em 1994, o PSL era nanico até 2018, quando atraiu Jair Bolsonaro. Desde então, cresceu muito e velozmente. Hoje tem a segunda maior bancada da Câmara, com 53 parlamentares, e soma 271 mil integrantes, distribuídos pelo país inteiro. O número de filiados, embora esteja aumentando, ainda é bem inferior ao do MDB, maior partido brasileiro, que contabiliza 2,4 milhões de membros.

A necessidade de o PSL filtrar seus quadros ficou patente no começo de agosto. À época, a sigla expulsou o deputado federal Alexandre Frota sob a acusação de infidelidade partidária. O ex-ator pornô, que se elegeu como um defensor ruidoso de Bolsonaro, acabou virando crítico do governo e migrou para o PSDB. “Casos como o do Frota existem em todos os estados. Quando você cresce tão rapidamente em quantidade, perde em qualidade”, disse Callegari. Na véspera da palestra em Vitória, o professor assumiu a presidência do PSL em Cachoeiro. Ele abdicou da pré-candidatura a prefeito da cidade justamente para organizar o diretório municipal e executar o programa de aulas da legenda ao longo deste e dos próximos três anos. “No Brasil, só os partidos de esquerda – e aí bato palmas para eles – se preocupavam com a intelectualidade dos seus militantes. O que almejamos agora é alinhar o PSL. Dar coerência programática à sigla e podar os galhos que já não deviam estar lá.”

 

Um dos militantes da legenda que circulava pelo encontro é um convertido recente. O motorista José Vagton Manhani trabalha para a Prefeitura de Santa Maria de Jetibá, cidadezinha de colonização pomerana no interior do Espírito Santo, e planeja disputar uma vaga de vereador nas eleições do ano que vem. Assistiu à apresentação de Callegari ao lado de alguns conterrâneos, que vestiam camisetas com o logotipo do PSL. Até a campanha eleitoral de 2018, Manhani integrava o PDT. Decepcionado com “a corrupção da esquerda”, encantou-se pelo capitão reformado do Exército e zarpou para o PSL. “Se Bolsonaro mudar de partido, mudo junto.” Também presente à reunião, um advogado de Vila Velha se filiou assim que chegou. “É o partido do momento”, justificou. Ele, que preferiu não dizer o nome, se mostrou impressionado com a palestra sobre feminismo: “O professor falou de coisas que a gente não sabia.”

No discurso que fechou o evento, Damares Alves – ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos – apelou, como de costume, às forças superiores. “Nós precisamos de um partido para alcançar o poder. E o instrumento que Deus nos deu foi o PSL. Esse partido é abençoado!” Em sintonia com o linguajar místico da ministra, Callegari frisou que a “purificação” da legenda não deve promover uma caça às bruxas. “Não somos autoritários. Caso um dia alguém do pt se arrependa dos pecados e queira conhecer a luz, vamos recebê-lo de braços abertos”, prometeu, sorrindo.

Luigi Mazza

Repórter da piauí e produtor da rádio piauí

Leia também

Últimas Mais Lidas

The world without the Amazon

A climate model predicts the effects of turning the forest into cattle pastures: 25% less rain in Brazil and higher temperatures, with “catastrophic” consequences for agriculture and energy production

Six conclusions about a model of the world without the Amazon

The price that Brazil and the world will pay if the forest continues to be cut down so that livestock can graze

Vazamento de óleo avança, plano de controle patina

Manchas se aproximam dos corais de Abrolhos; especialistas cobram do governo federal transparência em uso de programa para conter derrames de óleo

Ascensão e queda de um ex-Van Gogh

Tela do Masp atribuída ao pintor holandês tem autoria revista e inspira debate sobre valor artístico

Um bicheiro no centro do poder

A rede de assassinatos, amizades e dinheiro que cerca Jamil Name no Mato Grosso do Sul

Seis conclusões sobre o modelo do mundo sem a Amazônia 

O preço que o Brasil e o mundo pagarão caso a floresta continue a ser derrubada para dar lugar à pecuária

O mundo sem a Amazônia

Modelo climático prevê efeitos da conversão da floresta em pasto: diminuição de 25% das chuvas no Brasil e aumento da temperatura, com prejuízo "catastrófico" para agricultura e produção de energia

Foro de Teresina #73: Autofagia no governo, crise na oposição e o óleo nas praias do Nordeste

O podcast de política da piauí discute os principais fatos da semana

Domingo – um dia especial

Filme paga preço alto ao ser lançado agora, quando expectativa de “nova era” se mostrou ilusória

O novo Posto Ipiranga

Ex-capitão do Exército transformado em ministro da Infraestrutura cresce no Twitter e na agenda positiva do governo Bolsonaro 

Mais textos
1

Brasil mais longe da Europa

“Efeito Bolsonaro” afasta turistas europeus e prejudica negócios

2

Um bicheiro no centro do poder

A rede de assassinatos, amizades e dinheiro que cerca Jamil Name no Mato Grosso do Sul

3

Fala grossa e salto fino

As façanhas de Joice Hasselmann, do rádio ao Congresso

4

O mundo sem a Amazônia

Modelo climático prevê efeitos da conversão da floresta em pasto: diminuição de 25% das chuvas no Brasil e aumento da temperatura, com prejuízo "catastrófico" para agricultura e produção de energia

5

O novo Posto Ipiranga

Ex-capitão do Exército transformado em ministro da Infraestrutura cresce no Twitter e na agenda positiva do governo Bolsonaro 

7

Mitificação de Eduardo, demonização da esquerda

Em evento bolsonarista, filho do presidente e ministros apresentam rivais como mal radical, em sintoma da deterioração democrática no país

10

Foro de Teresina #73: Autofagia no governo, crise na oposição e o óleo nas praias do Nordeste

O podcast de política da piauí discute os principais fatos da semana