questões cinematográficas

A direita na tela

Notas sobre um panfleto audiovisual que revê 1964

Eduardo Escorel
<i>1964: O Brasil entre Armas e Livros</i> não é propriamente um filme, mas um panfleto, uma peça de propaganda política com pretensões didáticas que se situa fora do campo do documentário
1964: O Brasil entre Armas e Livros não é propriamente um filme, mas um panfleto, uma peça de propaganda política com pretensões didáticas que se situa fora do campo do documentário ILUSTRAÇÃO: INSTAGRAM @PAULO_FRADE

Na manhã de domingo, 31 de março, houve pré-estreias de 1964: O Brasil entre Armas e Livros, em sessões fechadas para convidados, nos cinemas do circuito Cinemark em sete estados. Nesse mesmo dia, há 55 anos, uma tropa do Exército sob comando do general Olímpio Mourão Filho se deslocou de Juiz de Fora rumo ao Rio de Janeiro. A iniciativa precipitou o golpe que destituiu João Goulart da Presidência da República.

Embora no dia seguinte, 1º de abril de 1964, Goulart estivesse no exercício da Presidência e em território brasileiro, o senador Auro de Moura Andrade, presidente do Senado Federal, informou que ele “deixou a sede do governo, deixou a nação acéfala” e declarou vaga a Presidência da República. Na mesma frase, anunciou o novo ocupante do cargo: Ranieri Mazzilli, presidente da Câmara dos Deputados, o primeiro na linha sucessória.

Em 2 de abril, a Marcha da Família, com Deus pela Liberdade ocupou o Centro do Rio de Janeiro para celebrar a vitória. A avenida Rio Branco e parte da avenida Presidente Vargas ficaram lotadas. A única dúvida sobre o evento era quanto ao número de participantes – 800 mil pessoas, na estimativa de uns; 1 milhão, segundo outros.

Fatos como esses atestam que houve um golpe civil-militar no Brasil entre o final de março e o início de abril de 1964. Há, porém, quem negue evidências.

 

Lembro bem de 31 de março e 1º de abril de 1964. No fim da tarde do dia 31, os cineastas Leon Hirszman, Luiz Carlos Saldanha e eu saímos do estúdio de som da Atlântida, na rua México, onde estava sendo mixado o documentário de curta-metragem Maioria Absoluta, segundo filme de Leon, e fomos para a sede da UNE, a União Nacional dos Estudantes, na praia do Flamengo. Denoy de Oliveira, integrante do CPC, o Centro Popular de Cultura, fazia a segurança, filtrando quem podia ou não entrar no prédio. Ao cruzarmos a porta, nos deparamos com um aglomerado de pessoas. Ferreira Gullar, com um pé sobre um banco de madeira, tentava ouvir o noticiário em um grande rádio de válvulas. Joaquim Pedro de Andrade estava lá e decidiu sair no seu Fusca branco para tentar saber se haveria resistência dos fuzileiros navais, comandados pelo vice-almirante Cândido Aragão. Voltou decepcionado, pouco depois, sem ter conseguido apurar nada sobre o rumo dos acontecimentos.

A certa altura, todos subiram para o novo auditório, ainda em obras, no 3º andar. Não havia poltronas na plateia, apenas pranchas de compensado nas quais todos sentaram. O Comando dos Trabalhadores Intelectuais (CTI) não demorou a chegar e creio ter sido o editor Ênio Silveira quem anunciou que o general Castello Branco, chefe do Estado-Maior do Exército, havia sido preso. Leon balançava a cabeça e sussurrava: “Não pode ser. Não pode ser.” Ele estava certo. Apesar de Goulart ter ordenado a prisão de Castello Branco, ela não foi efetivada.

Quando a notícia da deposição de Goulart se espalhou no dia seguinte, a sede da UNE foi apedrejada e incendiada. Os poucos integrantes do CPC que estavam no prédio conseguiram escapar pelos fundos e o fogo destruiu a tiragem completa, recém-editada, do disco com a gravação da Canção do Subdesenvolvido, de Carlos Lyra e Chico de Assis – salvaram-se apenas alguns lps que já haviam sido retirados. Uma coluna de fumaça preta podia ser vista de longe.

Na semana seguinte, o autodenominado Comando Supremo da Revolução, composto por três militares – general Artur da Costa e Silva, almirante Augusto Rademaker Grünewald e tenente-brigadeiro Francisco de Assis Correia de Melo –, baixou o primeiro Ato Institucional, o AI-1, cuja versão final foi escrita por Francisco Campos, autor da Constituição outorgada de 1937, que implantou a ditadura do Estado Novo, em parceria com Carlos Medeiros, futuro ministro da Justiça.

Com o AI-1, o comando revolucionário passava a ter a prerrogativa de cassar mandatos legislativos, suspender direitos políticos por dez anos, demitir, pôr em disponibilidade ou aposentar quem tivesse “atentado contra a segurança do país”, o regime democrático ou a probidade da administração pública. E ficavam estabelecidas eleições indiretas para presidente e vice-presidente da República.

Naquele mesmo dia, 9 de abril, um jovem de 18 anos escreveu aos pais, que moravam no exterior:

As notícias que vocês mandam fazem ver que não medem a extensão do que ocorreu por aqui. Simplesmente acabou, tudo e todos. O país como um todo e todos os indivíduos que vinham desenvolvendo um trabalho positivo procurando levantar o nível de nossa sociedade. […] No momento, estamos vivendo sob um regime de terror, com os amigos fugidos, escondidos por estarem sendo caçados pela polícia. Expurgo é a palavra que Adhemar, Lacerda e os líderes do golpe mais usam na televisão. O golpe deles foi sem dúvida hábil, pois transformaram um golpe de Estado numa revolução diante dos olhos do povo. Transformaram um golpe em defesa dos seus privilégios numa revolução contra o comunismo que nunca existiu. Transformaram-se em heróis quando não passam de crápulas. E depois de todos os fatos acontecidos iniciaram a perseguição. É a canalha no poder. […] Para toda a minha geração representou apenas um tiro no coração do qual para sobreviver será preciso muita luta. […] Relendo o que escrevi até agora vejo que não consigo ser totalmente fiel aos fatos. A situação é péssima, desesperadora mesmo. São Paulo e o estado do Rio vivem um regime policial mais atroz ainda com ninguém nas ruas depois das dez da noite. As casas menos suspeitas cheias de amigos com suas famílias, telefones censurados, jornais censurados. Só no Rio, mais de 3 mil prisões. […]

Passados 55 anos, as palavras angustiadas do adolescente que eu era soam ingênuas e não podem ser comparadas à dor de quem sofreu injustiças, perseguições e violência física. Decidi incluí-las aqui apenas por refletirem o estado de espírito de um jovem recém-egresso do 2º grau e talvez por serem equivalentes ao sentimento de muitos outros de sua idade e condição social naquele momento.

A primeira lista de cassados, divulgada em 10 de abril, atingiu 102 políticos e personalidades. No dia seguinte, foram presos de 5 mil a 20 mil pessoas, e 122 oficiais foram transferidos para a reserva. E Castello Branco foi eleito presidente da República de forma indireta, por votação realizada no Congresso Nacional – teve 361 votos, houve 5 votos para outros militares, 72 abstenções e 37 ausências. Em eleição separada, José Maria Alkmin, deputado do PSD, foi eleito vice-presidente.

 

Ao anunciar a partir de fevereiro deste ano que 1964: O Brasil entre Armas e Livros “tem o objetivo de mostrar o outro lado do Regime Militar”, a empresa Brasil Paralelo evita nomear qual foi o regime de governo instaurado a partir do golpe que se manteve em vigor de 1964 a 1985. Ao mesmo tempo, desconsidera cinco décadas de historiografia, brasileira e estrangeira, por julgá-la parcial e omissa. Despreza, ainda, a contribuição do jornalismo, da música popular, da literatura, do teatro e de filmes para o conhecimento do período. Havendo mesmo “verdades nunca antes contadas” em 1964: O Brasil entre Armas e Livros, conforme a Brasil Paralelo afirma, é preciso conferir quais são e se, de fato, têm alguma relevância.

Antes disso, porém, vale registrar que o nome da produtora – Brasil Paralelo – foi inspirado no filme Interestelar (2014), de Christopher Nolan, diretor do qual Filipe Valerim, sócio da empresa, confessa ser fã incondicional. Numa entrevista de julho de 2018, Valerim explica que “o ator principal precisa salvar a humanidade do apocalipse terrestre entrando em um buraco de minhoca no espaço e encontrando um planeta habitável nesse universo ‘paralelo’ que salvaria a espécie humana”. A marca da empresa, diz ainda Valerim, “tem o formato de um buraco de minhoca justamente para dar a ideia de que o símbolo é a conexão com uma realidade paralela. No caso, paralela ao que as pessoas estavam acostumadas a ver na grande mídia”.

O ideário apocalíptico de Valerim mostra bem como ele, Lucas Ferrugem e outros dois sócios se imbuíram de uma missão redentora. Egressos do curso de administração da Escola Superior de Propaganda e Marketing, em Porto Alegre, eles rejeitam a realidade por completo, incluindo o que chamam de “grande mídia”. E se arvoram em criadores de uma nova realidade, baseados em um ideário inconsistente.

Valerim curiosamente não menciona na sua entrevista a precisão científica de Interestelar, obtida graças à orientação do físico Kip Thorne, consultor do filme. Em 2017, Thorne ganhou o Prêmio Nobel de Física em reconhecimento à sua contribuição para o desenvolvimento do detector de ondas gravitacionais, até então apenas uma possibilidade prevista na teoria geral da relatividade de Albert Einstein, publicada em 1915. A prova experimental, obtida em 2016, representou nova consagração do cientista mais influente do século XX.

É possível que a omissão de Thorne esteja ligada à veneração a Olavo de Carvalho por parte dos sócios da Brasil Paralelo. O guru da direita é presença assídua nas produções da empresa, inclusive em 1964: O Brasil entre Armas e Livros. Carvalho, por sua vez, dedicou minutos de uma de suas aulas online a acusar Einstein de ter sido “o maior plagiário do século XX” e “mais um gênio da picaretagem do que um gênio da física” cuja “fama é 100% imerecida”. Com um mentor intelectual capaz de tais desvarios não se pode esperar grande coisa da Brasil Paralelo.

 

Anunciado como se fosse um documentário, 1964: O Brasil entre Armas e Livros, codirigido por Valerim e Ferrugem, estreou no YouTube em 2 de abril. Em 8 de abril houve uma sessão na Assembleia Legislativa de São Paulo.

Segundo notícia publicada no Estado de S. Paulo, após a sessão na Assembleia foi feito um “desagravo à memória do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, ex-comandante do Destacamento de Operações de Informações (DOI), do II Exército, e ao delegado Sérgio Paranhos Fleury, do antigo Departamento de Ordem Política e Social da Polícia Civil de São Paulo, o Dops”.

A mesa do debate após a exibição foi formada pelos deputados estaduais Douglas Garcia (PSL) e Castello Branco (PSL), o advogado Renor Oliver Filho (colaborador do site bolsonarista Terça Livre), o Cabo Anselmo (o ex-marinheiro José Anselmo dos Santos) e o ex-delegado Paulo Oppido Fleury, filho de Sérgio Paranhos Fleury.

Segundo o Estadão, o Cabo Anselmo expôs “sua teoria de que filósofos da Escola de Frankfurt estavam ‘por trás’ das drogas, como o LSD, espalhadas nas universidades americanas”; e Paulo Fleury, ao pegar o microfone, gritou: “Ustra vive! Fleury vive!” Aplaudido, disse que seu pai “foi um dos grandes heróis que defenderam o país”.

Pouco debatido nesse dia, 1964: O Brasil entre Armas e Livros parece ter servido tão somente de pretexto para essas manifestações exorbitantes.

 

Embora o acesso ao filme no dia da estreia fosse gratuito, era preciso se cadastrar no site da produtora Brasil Paralelo. Ao dar o primeiro passo, uma surpresa aguardava o interessado – o site contém uma série de outras ofertas que integram um amplo projeto de doutrinação, inclusive um livro disponível para download, cursos com aulas semanais ao vivo, palestras, acesso a uma biblioteca de vídeos e a conteúdo inédito do filme etc. Quem se inscrevia podia consumir as ofertas desse mercado livre e passava a ser bombardeado com e-mails diários oferecendo de tudo um pouco por quantias módicas.

A Equipe Brasil Paralelo solicita com insistência a adesão dos inscritos, conclamando-os a fazer parte do núcleo de formação e a “serem a sua voz”. Fica claro o que está em jogo – um projeto de arregimentação de seguidores, previamente doutrinados, acoplado a uma iniciativa comercial. Uma milícia ideológica, desarmada, por enquanto, ao que se saiba.

Em 26 dias, desde a estreia em 2 de abril, 1964: O Brasil entre Armas e Livros teve 5,6 milhões de acessos no YouTube. O número impressiona, mas para avaliar seu real significado seria preciso saber pelo menos a duração média de cada acesso, quantos foram feitos do mesmo dispositivo e quantas pessoas assistiram ao vídeo inteiro de uma vez. Não há dúvida, porém, que, do ponto de vista promocional, o lançamento foi um estrondoso sucesso.

1964: O Brasil entre Armas e Livros não é propriamente um filme; parece mais uma versão atualizada das conferências feitas na época do cinema silencioso para financiar as incursões de exploradores e viajantes por terras distantes e exóticas. Nessas ocasiões, as palavras do palestrante eram ilustradas pelas imagens captadas em suas viagens. O panfleto de Valerim e Ferrugem, conduzido por um narrador, com imagens de arquivo meramente ilustrativas, além de depoimentos, regride dessa maneira um século em termos de linguagem, situando-se fora do campo do documentário, na acepção contemporânea do termo. Trata-se, na verdade, de uma peça de propaganda política com pretensões didáticas.

A intenção dos filmes publicitários ou militantes é persuadir; filmes didáticos, por sua vez, são feitos para ensinar. 1964: o Brasil entre Armas e Livros pretende atingir os dois objetivos ao mesmo tempo. Documentários propriamente ditos, apesar de conterem algumas características dos gêneros mencionados acima, são diferentes – registram, cada vez mais, experiências de vida e procuram refletir a respeito.

Filmes de propaganda, militantes e didáticos têm caráter impositivo. Supõem conhecimento prévio do assunto tratado, além de relação hierárquica e autoritária entre realizador e espectador, entre a voz onisciente do emissor e a acolhida visual e auditiva do receptor. Para todos os efeitos, 1964: O Brasil entre Armas e Livros está nessa categoria.

O objetivo dos produtores, no entanto, não se limita a ensinar, catequizar e agrupar seguidores. Eles têm ambição maior, de fundo religioso. Ao divulgar o lançamento do que chama indevidamente de “documentário”, a Brasil Paralelo anunciou que o vídeo “abordaria verdades nunca antes contadas” – revelar a verdade, porém, é prerrogativa do Criador e de seus profetas, fora portanto do alcance de mensagens publicitárias terrenas.

Para o deputado Eduardo Bolsonaro, a importância de 1964: O Brasil entre Armas e Livros estaria em mostrar “fatos que nunca vieram à luz”, mantidos na “escuridão” pelo “pessoal de esquerda” que teria reescrito “o período 64 até 85, pousando [sic] de vítima”.

As palavras do ventríloquo de Olavo de Carvalho constituem mais um exemplo de publicidade enganosa. Além de dar uma visão parcial de 1964: O Brasil entre Armas e Livros, o deputado Bolsonaro parece não ter entendido que o vídeo tenta fazer exatamente o que ele acusa o “pessoal de esquerda” de ter feito, ou seja: reescrever a história do período 1964-85. Com a diferença de ser acusatório e de seus realizadores atuarem como promotores de Justiça ou mesmo juízes.

 

A conferência ilustrada 1964: O Brasil entre Armas e Livros chegou à Universidade Estadual de Londrina em 3 de abril, precedida pela campanha de lançamento e pelos ataques do deputado Eduardo Bolsonaro ao “pessoal de esquerda”. A polarização da comunidade universitária viveu ali mais um capítulo. De um lado, os estudantes que organizaram a exibição, reunidos na associação UEL Livre, tida como um braço do Movimento Brasil Livre, o mbl; de outro, os estudantes independentes, os centros acadêmicos e o Diretório Central dos Estudantes.

O segundo grupo considerou as sessões previstas uma “tentativa de proselitismo militarista”. Em repúdio tanto à “tentativa de promover o regime militar como ‘salvação da pátria’”, quanto à exibição do vídeo, esses estudantes organizaram uma sessão simultânea de Cabra Marcado para Morrer (1984), de Eduardo Coutinho, do lado de fora da sala onde a produção da Brasil Paralelo estava sendo projetada.

Cartazes, faixas e painéis com fotos do acervo da Comissão Nacional da Verdade foram afixados nos acessos ao local da exibição do vídeo da Brasil Paralelo, e estudantes de artes cênicas fizeram performances relacionadas às torturas praticadas durante a ditadura.

Sem autorização da reitoria nem da prefeitura do campus, a Polícia Militar entrou na universidade depois da última sessão e passou a intimidar a comunidade estudantil.

Contrapor Cabra Marcado para Morrer a 1964: O Brasil entre Armas e Livros foi um achado. O filme de Coutinho não só é um verdadeiro documentário, como contém outros dados objetivos incontestes, além dos já mencionados antes, sobre o período de 1964 a 1982, em que foi filmado. Traz também visões pessoais de eventos ocorridos no período da ditadura que enriquecem o conhecimento do que aconteceu entre 31 de março de 1964 e os primeiros anos posteriores à chamada Lei de Anistia, promulgada em agosto de 1979.

Basta mencionar a clandestinidade de Elizabeth Teixeira, viúva do líder camponês João Pedro Teixeira, assassinado a tiros em 1962; a diáspora da família Teixeira, a partir de 1º de abril de 1964; o destino trágico de alguns dos filhos; sem esquecer a prisão e tortura, no imediato pós-março de 1964, de João Virgínio, um dos fundadores da Liga Camponesa do Engenho Galileia, em Pernambuco.

A ausência total, em Cabra Marcado para Morrer, de proselitismo, didatismo e intuito persuasivo, dominantes na produção da Brasil Paralelo, contribuiu para que o documentário de Coutinho se tornasse um filme de referência. Sem falar na relação afetuosa do diretor com os personagens, destituída de quaisquer laivos de autoritarismo, oposta em tudo ao tom de 1964: O Brasil entre Armas e Livros.

 

Há várias maneiras possíveis de descrever essa produção em poucas palavras, todas corretas – além de conferência ilustrada, o vídeo é um clipe de duas horas e sete minutos; panfleto audiovisual sobrecarregado de informação; coletânea de imagens de arquivo pirata; narração infindável entremeada de depoimentos; panorama histórico superficial do período 1917-85 etc. Enfim, uma mixórdia resultante da junção de um conjunto heterogêneo de recursos de linguagem gastos, a serviço da tentativa de demonstrar uma tese enunciada no final do vídeo.

Caso a importância de 1964: O Brasil entre Armas e Livros esteja mesmo, conforme alardeado, em mostrar “fatos que nunca vieram à luz”, pode-se concluir que o panfleto audiovisual em questão tem pouca relevância. A rigor, até mesmo a informação anunciada como inédita deixou de ser novidade desde a publicação da pesquisa de Mauro Kraenski e Vladimír Petrilák, em 2017, com o título 1964: O Elo Perdido – O Brasil nos Arquivos do Serviço Secreto Comunista.

Com 507 páginas, o livro reúne documentos da Segurança Estatal da Tchecoslováquia, polícia secreta identificada, em tcheco, pela sigla StB. Disponibilizada em 1996, a documentação pesquisada, conforme o título indica, refere-se à atuação de espiões tchecos no Brasil, na segunda metade da década de 50 e nos anos 60, sob supervisão do Comitê de Segurança Estatal da União Soviética, a famosa KGB.

De acordo com Kraenski e Petrilák, a StB, criada em 1945 e extinta em 1990 após a transição de poder resultante da “Revolução de Veludo”, teve uma base no Brasil chamada de rezidentura, e o livro 1964: O Elo Perdido trata de suas atribuições, interesses e atividades no país de 1952 a 1971. Seus autores têm a cautela de advertir não ser possível “afirmar que as informações existentes neste livro, que demonstram como os oficiais da rezidentura da StB no Brasil, a Central em Praga ou os informantes, […] compreendiam determinadas questões, sejam necessariamente objetivas e as únicas corretas. O conhecimento das pastas StB é o conhecimento dos espiões, e por isso deformado por uma distorção ideológica [meu grifo]. É também muitas vezes obsceno, pois para convencer alguém a colaborar, frequentemente os espiões usavam não somente métodos ideológicos, mas também o que chamavam de comprometimento, ou seja, aproveitar-se dos tropeços fatais e fraquezas humanas”.

A ressalva feita no terceiro capítulo de 1964: O Elo Perdido não deve levar os documentos da StB a serem desconsiderados. Pelo contrário. Apenas é preciso que recebam atenção na justa medida de sua importância, sejam avaliados com critério, tratados com o cuidado devido e confrontados com outras fontes – nada do que ocorre na produção da Brasil Paralelo. Em 1964: O Brasil entre Armas e Livros, a pesquisa de Kraenski e Petrilák é instrumentalizada para promover uma disputa arcaica pelo troféu de potência estrangeira que mais influenciou o golpe de março-abril de 1964 – Estados Unidos ou União Soviética?

Essa competição ressuscita a histeria que procurou atribuir a responsabilidade pelos levantes militares de novembro de 1935 no Brasil aos agentes da Internacional Comunista e ao “ouro de Moscou”. Mas, como disse certa vez o cientista político Paulo Sérgio Pinheiro, referindo-se aos eventos da década de 30, “a responsabilidade é nossa!”. Sem desmerecer os documentos da StB, valorizá-los em excesso não passa de manobra diversionista. Dificulta a percepção dos fatos, além de encobrir o papel decisivo de brasileiros no rumo dos acontecimentos, tanto em 1935 quanto em 1964.

Antes da menção à pesquisa de Kraenski e Petrilák no panfleto audiovisual da Brasil Paralelo, porém, é preciso vencer uma longa e maçante lição sobre a Guerra Fria. Superada essa barreira, além dos depoimentos dos autores de 64: O Elo Perdido, a atividade da StB no Brasil é abordada por outros quatro entrevistados: Renor Oliver Filho, revisor técnico do livro; Olavo de Carvalho, autor do prefácio; Svétlana Ptáčníková, diretora do Arquivo das Forças de Segurança; e o historiador e professor Petr Blazek, do Instituto para o Estudo de Regimes Totalitários da República Tcheca.

Coerente com o que está no livro, Kraenski se mantém cauteloso. O jornalista Andrzej Wojtas, por sua vez, mete os pés pelas mãos. Para o primeiro, “nós estamos apenas fazendo o trabalho de descrever o que há nesses documentos”. Já Wojtas se dá o direito de fazer juízos de valor que parecem ter sido soprados a ele pelos realizadores do filme ou, ao contrário, ter servido de modelo para formulações incluídas na narração. Segundo ele, 64: O Elo Perdido “é muito importante porque é primeiramente verdadeiro: somente a verdade interessa. Graças a esse livro, qualquer tipo de mito elaborado se torna falsificação, e não há nada melhor do que o choque das imaginações com a realidade. Essa realidade muitas vezes é brutal. O fato é que grandes intelectuais, escritores, poetas, líderes de movimentos, foram, de fato, pessoas corruptas. Foram pessoas que não somente receberam dinheiro de uma forma cínica, sem escrúpulos, mas também simplesmente traíram seu país e sua nação, pois lhes venderam ilusões com dinheiro estrangeiro”.

O panfleto da Brasil Paralelo endossa uma acusação tão genérica quanto essa, sem identificar a quem ela se refere, o que revela o grau de irresponsabilidade de seus autores.

 

Quem conduz e dá o tom do relato feito em 1964: O Brasil entre Armas e Livros é a narração, fazendo revezamento com 24 depoimentos subdivididos em segmentos e alternados entre si. Alguns desses chamados especialistas são os suspeitos de sempre, figurinhas fáceis em peças de propaganda com o mesmo viés ideológico do panfleto audiovisual, a começar por Olavo de Carvalho. Presentes também estão o jornalista William Waack e o professor de filosofia Luiz Felipe Pondé, este último com participação mais discreta.

A maioria dos entrevistados é pouco conhecida. O número e a duração de suas intervenções também variam muito. Há os que passam pela tela sem deixar rastros. Outros, pelo contrário, marcam presença e contribuem para dar feição ao panfleto. É o caso, em especial, do colunista gaúcho Percival Puggina e do jornalista carioca Lucas Berlanza.

Os termos raivosos de alguns entrevistados não surpreendem. Mas há também considerações mais ponderadas e interessantes. Berlanza admite que “tecnicamente houve um golpe” em 1964. E pergunta se o Ato Institucional nº 5, de dezembro de 1968, era necessário: “Ter gente na rua, seja de esquerda ou de direita, para protestar contra um governo justifica você fazer o fechamento total do sistema político?” Afirma ainda que a partir da “aniquilação das lideranças civis[1] […] não há como tratar essa situação política, tecnicamente falando, de outra forma senão como uma ditadura. Há uma ditadura militar no Brasil a partir de 1968”.

Apesar de serem evidentes, tais afirmações aliviam quem se lembra da época e estudou os fatos. Atestam que a memória e o conhecimento do período não são meras fantasias delirantes.

Por outro lado, a manipulação dos depoimentos feita em 1964: O Brasil entre Armas e Livros é gritante. A técnica serve para atender à orientação editorial dos realizadores – separam-se trechos, alguns com cerca de dez segundos, outros mais longos. Em seguida, palavras, frases ou enunciados são combinados. O resultado é um novo discurso, cuja fidelidade ao pensamento de cada um dos entrevistados pode ser relativa, mesmo no caso daqueles mais alinhados ao projeto. Por vaidade ou convicção, todos aceitam se transformar em joguetes nas mãos de quem decide o que deve ser aproveitado ou descartado.

Concluída a sequência sobre a atuação da StB no Brasil, ainda faltam cerca de noventa minutos para o panfleto audiovisual terminar. Nessa hora e meia, faz-se um voo rasante sobre o período que vai da segunda metade da década de 50 aos nossos dias. Não é preciso dizer que se trata de uma visão superficial, difícil de assimilar, para não dizer impossível, dado o acúmulo de informações disparadas em alta velocidade.

Uma questão sensível, mencionada a 1h27min13s do vídeo, merece destaque – “a história dos inocentes não foi contada”, diz a voz que narra. Qualquer que seja o número real de vítimas, sobre o qual há controvérsias, a academia, a imprensa, a mídia em geral, todos nós, enfim, estamos obrigados a recuperar a memória dos que foram mortos sem ter tido qualquer relação com o confronto entre organizações clandestinas e militares. Essa é uma verdadeira omissão histórica a ser corrigida.

Alguns erros factuais e pequenos deslizes afetam, por si só, a credibilidade do conjunto. Exemplos: 1) A narração omite qualquer referência ao papel decisivo da União Soviética, na Segunda Guerra Mundial, para a derrota do nazismo, citando apenas a “força imprescindível dos Estados Unidos” (7min20s); 2) Quando Lucas Berlanza menciona a Junta Militar que assume o governo após Costa e Silva se afastar por doença, em 31 de agosto de 1969, formada pelo almirante Augusto Rademaker, o general Aurélio de Lira Tavares e o brigadeiro Márcio de Sousa Melo, apelidada por Ulysses Guimarães, em 1987, de “Os Três Patetas”, a imagem correspondente é a da Junta Militar chilena que tomou o poder em 1973, com o general Augusto Pinochet no meio, entre o general da Força Aérea, Gustavo Leigh, e o almirante José Toribio Merino (1h32min04s); 3) Pouco adiante, após referências a Maio de 68, o narrador diz que: “Na década de 60, a sociedade ocidental passava por uma transformação profunda.” E logo depois: “O fundador do Partido Comunista Italiano passa a escrever os Cadernos do Cárcere, onde relata que a estratégia marxista deve acontecer no meio cultural, destruindo todos os valores, a moral, a religião e a família” (1h36min40s).

Deixando de lado a estapafúrdia frase final, cabe lembrar que, nos anos 60, Antonio Gramsci, membro fundador do Partido Comunista Italiano, estava morto há décadas, impossibilitado, portanto, de “passar a escrever os Cadernos do Cárcere”, como afirma a narração. Preso em 1926 pelo regime fascista italiano, ele morreu em 1937, dias depois de ser libertado.

Foi durante os dez anos e cinco meses de prisão, nas décadas de 20 e 30, que Gramsci escreveu os Cadernos do Cárcere, considerados contribuição original ao pensamento político do século XX. Nesses escritos, ele formulou os conceitos que o tornaram mais conhecido – hegemonia, revolução passiva, sociedade civil e filosofia da práxis. Extratos dos cadernos foram publicados entre 1948 e 1949, mas a primeira edição completa só apareceu em 1975 e começou a ser publicada no Brasil em 1999.

 

O gran finale de 1964: O Brasil entre Armas e Livros começa a ser preparado a trinta minutos do término. As feras se agitam e mostram suas garras. Além do narrador, Petrilák, Pondé, Carvalho, Waack e alguns outros dão contribuições para demonstrar a tese reveladora do sentido oculto do título.

Diz o narrador, faltando três minutos para o final:

Que fim teve a Guerra Fria? Se fizemos parte dessa guerra, se impedimos uma revolução, foi com a ajuda do quarto poder do Brasil. O Exército.

Nesse momento, uma fotografia do autointitulado Comando Supremo da Revolução de 1964 é justaposta à da Junta Militar chilena, com o general Pinochet no centro, sem que o sentido da ligação direta entre as duas fotos seja explicitado. E a narração prossegue:

Por 21 anos, essa justificativa manteve o poder na mão dos militares, e foi berço de novas consequências. A revolução se transmutou das armas para os livros. Transformou um lado da guerra em mártir, fez da história propaganda, panfletou nas escolas, na mídia, nas universidades. Formou a nova geração brasileira. Esta geração foi trabalhar nos meios de comunicação, nas editoras, na educação do Brasil. A hegemonia quase apagou o passado e perpetuou uma narrativa. Um lado da guerra foi herói e o outro, opressor. O que fizeram os heróis?

Com essa pergunta, a narração termina. É um texto de encerramento confuso. O Exército teria ajudado a impedir uma revolução. Admitida a premissa, seria preciso reconhecer a fragilidade dos pretensos revolucionários de esquerda.

Assegurar a derrota dessa suposta revolução, tão facilmente vencida, justificaria conservar o poder na mão dos militares durante 21 anos? Se a partir da posse de Ernesto Geisel na Presidência, em 1974, a linha dura passou a ser a força desestabilizadora, a esquerda pode ser responsabilizada pelo fato de o regime militar ter durado mais onze anos?

O emprego do verbo “transmutar” indica que as “armas” teriam sido substituídas pelos “livros”. Na verdade, a produção intelectual precedeu a luta armada, manteve-se ativa e continuou fecunda após a derrota das ações guerrilheiras. Nos poucos casos em que essa troca de armas por livros ocorreu, o que haveria a recriminar? Livros por acaso não seriam instrumentos legítimos de atuação política?

A hegemonia cultural da esquerda, entre 1964 e 1968, por acaso “apagou o passado”? Há evidências em contrário na produção do período. Mas essa fugaz “espécie de floração tardia”, como foi chamada,[2] teria significação equivalente à hegemonia da Rede Globo, indiscutível a partir da década de 80, quando a emissora se tornou líder de audiência? Com alcance nacional, apesar da queda de audiência observada desde 2004, a emissora se mantém até hoje na liderança. Em 2017, a campanha promocional feita pela própria Globo anunciava que ela tinha audiência diária de 100 milhões, incluindo as plataformas digitais.

A Globo, porém, sequer é mencionada em 1964: O Brasil entre Armas e Livros. Para o discurso simplista do panfleto da Brasil Paralelo, ao contrário da frágil esquerda, a emissora não se presta ao papel de inimigo público nº 1. A narração de Valerim e Ferrugem, assim como as intervenções de Carvalho e cia., dependem de um oponente direto menos poderoso e mais bem definido, real ou imaginário, para conseguir se manifestar.

Chega-se extenuado ao fim do panfleto audiovisual, mas ainda há uma derradeira tentativa de identificar os responsáveis pelas mazelas que nos afligem há décadas. Com o dedo indicador apontado, o narrador acusa: fotografias e manchetes de jornais dos anos 60 a 90, com grafismos superpostos, passam pela tela durante um minuto em sucessão acelerada. Mostram políticos, a maioria do pt, o líder da Ação Libertadora Nacional Carlos Marighella, caras-pintadas, um ator e humorista, cena de um filme em que os personagens aprendem a atirar, uma intelectual palestrante, um ex-guerrilheiro preso, um educador de reputação internacional, um compositor e intérprete consagrado etc.; as notícias dos jornais referem-se à Constituição de 1988, ao mensalão, às indenizações na Comissão de Anistia etc. A imagem de encerramento é uma gigantesca bandeira do Brasil tremulando ao vento em câmera lenta.

Para encerrar, há uma citação, feita com duas legendas brancas sobre fundo preto:

Num tempo de engano universal, dizer a verdade é um ato revolucionário.
George Orwell

Acontece que a autoria da frase é incerta. Até onde se sabe, não há comprovação de que Orwell tenha dito ou escrito isso algum dia. Desse modo, ao que tudo indica, 1964: O Brasil entre Armas e Livros acaba com uma fake news.


[1] Berlanza refere-se à Frente Ampla, formada em 1966, por Carlos Lacerda, Juscelino Kubitschek e João Goulart, proscrita por meio de uma portaria do Ministério da Justiça, em abril de 1968. Depois do AI-5, em dezembro de 1968, Lacerda teve seus direitos políticos suspensos por dez anos.

[2] Roberto Schwarz, “Cultura e política, 1964-69”, O Pai de Família e Outros Estudos, Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1978.

 

****

O autor deste texto foi montador do filme Cabra Marcado para Morrer, por ele citado.

Eduardo Escorel

Eduardo Escorel, cineasta, diretor de Imagens do Estado Novo 1937-45

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