questões humanitárias

Autorretrato com pandilleros

O governo de El Salvador mimetiza a brutalidade que combate

Carlos Dada
Os presos alinhados na prisão de Izalco, em San Salvador, 25 de abril de 2020: quem protege os cidadãos quando o próprio Estado, ou parte dos seus funcionários, viola seus direitos?
Os presos alinhados na prisão de Izalco, em San Salvador, 25 de abril de 2020: quem protege os cidadãos quando o próprio Estado, ou parte dos seus funcionários, viola seus direitos? FOTO: ASSESSORIA DE IMPRENSA PRESIDENCIAL DE EL SALVADOR_AP PHOTO_GLOW IMAGES

Tradução de Sérgio Molina

As fotos têm uma estética mórbida. Filas intermináveis de pandilleros que parecem remar coordenadamente ou ensaiar uma coreografia sincronizada. Uma massa que elimina toda individualidade e privilegia a geometria do conjunto; um organismo feito de homens iguais, fabricados em série, de cabeça raspada, nus – a não ser por uma cueca –, cobertos de tatuagens, sentados de pernas abertas, com o peito encostado no homem à frente, as mãos algemadas às costas, em contato inevitável com o membro do preso de trás, que também está com as mãos algemadas, as pernas abertas e a cabeça apoiada nas costas do homem à frente. Colados um no outro, e no outro, e no outro, até onde a vista alcança. Tão colados que, se alguém conectasse uma corrente elétrica num dos extremos, ela percorreria toda a cadeia de pessoas até chegar ao outro extremo. Como um vírus.

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Carlos Dada

É jornalista salvadorenho e cofundador do site El Faro

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