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Autotelemensagem

Um serviço amado e odiado no Rio

Julia Sena
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2019

Eram oito da noite quando Márcia do Carmo, com seu Agile vermelho, ano 2012, seguiu para o quarto e último serviço de mensagem no Dia dos Namorados, 12 de junho. Depois de ter rodado quase 70 quilômetros entre os bairros Campo Grande e Madureira e a cidade de Nilópolis, no Grande Rio, a carioca de 42 anos e longos cabelos castanhos encaminhou-se com o filho Marcelo do Carmo para Nova Iguaçu. O Márcia Telemensagens, decorado com imagens de corações e notas musicais, chamava a atenção por onde passava.

Quando entrou na rua Tupinambá, no bairro Comendador Soares, Do Carmo acendeu as luzes de led azuis e aumentou o volume do som. Uma canção gospel reverberou na rua pacata. Crianças gritaram, alguns passantes sacaram os celulares para fotos, enquanto o possante iluminado se aproximava da casa de Viviane Ramo, que fazia 32 anos naquele dia. O carro de mensagens era uma surpresa contratada pelos familiares e o namorado. À porta da casa, a aniversariante, imóvel, encheu-se de lágrimas.

“Quem aqui está fazendo 15 anos hoje?”, brincou a voz no alto-falante. Os vizinhos começaram a rodear o carro. Rapidamente, Do Carmo e o filho estenderam um tapete vermelho de 3 metros na calçada e colocaram um pufe dourado numa das extremidades. Em seguida, ajustaram uma coroa resplandecente de princesa nos cabelos curtos da moça de olhos meio puxados e largo sorriso que seguiu com toda majestade até o pufe. Marcelo do Carmo iniciou a queima de fogos coloridos, que não durou muito, e sua mãe fez a leitura das mensagens do namorado e dos parentes. O público na rua ouvia tudo com atenção e proclamava: “Ela merece!”

 

Márcia do Carmo trabalha há dezesseis anos no ramo das mensagens automotivas. A história começou quando ela recebeu uma homenagem do mesmo tipo como presente de aniversário. Viu potencial no negócio e resolveu montar seu próprio carro da alegria ou de telemensagem, como esses veículos também são conhecidos na cidade.

A família inteira atua no negócio. O marido, Paulo Roberto do Carmo, que é gerente de motel, atua na promoção; Marcelo, de 27 anos, dirige o carro e ajuda na homenagem; e o outro filho, Paulo Otávio, de 20 anos, trabalha na logística e organização. Os valores do serviço variam conforme a distância a percorrer e os brindes a serem entregues ao homenageado – como buquê de flores e cesta de café da manhã. Do Carmo não tira o seu Agile da garagem por menos de 170 reais, e o preço máximo da mensagem pode chegar a 500 reais. No último ano, a equipe redobrou seus esforços para promover a empresa, pois a demanda caiu bastante por causa da crise econômica.

As homenagens costumam durar em torno de 25 minutos, mas quando são feitas a aniversariantes podem levar o dobro do tempo. “Acaba virando uma festa”, disse Do Carmo. Certa vez, ela foi homenagear Luane Sales, na Ilha do Governador, e só depois de iniciada a comemoração descobriu que a aniversariante era irmã de Ludmilla, a cantora de funk. “Ludmilla dançou em volta do carro com todo mundo, mas logo voltou para dentro da casa da avó, porque a homenageada era a irmã.”

Do Carmo já atendeu a todo tipo de pedidos – inclusive de gente que contratou o carro para fazer homenagem a si mesma. Mas ela tem seus critérios de seleção. No caso de reconciliação de casal, por exemplo, antes de aceitar a encomenda, sempre tenta entender o que ocorreu entre marido e mulher. Se descobrir algum episódio de agressão conjugal, desiste na hora. E, nos últimos tempos, tem sido procurada por youtubers que querem fazer trollagem com as pessoas e filmar a situação, o que ela sempre recusa, para não prejudicar a imagem do próprio negócio.

Os clientes escolhem tudo que haverá na homenagem – da música aos brindes –, e as mensagens costumam ser escritas por eles. Mas esse não foi o caso no aniversário de Viviane Ramo. “Como pediram na última hora, eu mesma escrevi as mensagens. Se elas vão ter alguma coisa a ver com a aniversariante, só Deus sabe”, afirmou Do Carmo, antes de chegar a Nova Iguaçu.

A empresária contou que a reação das pessoas à homenagem nem sempre é positiva. No Rio, há quem chame o serviço de “carro do mico” ou “carro da vergonha”. Há razões para isso. “Já me contrataram com o intuito de fazer barraco na porta de alguém, e em uma das reconciliações de casal, quando eu cheguei lá, o rapaz estava com a nova namorada.” Alguns também se irritam com a música alta dos carros e a movimentação que eles desencadeiam na vizinhança.

 

Na rua Tupinambá, estava na hora de cantar parabéns para Viviane Ramo. Como ela e a família são evangélicas, foi escolhida uma canção de Aline Barros que faz sucesso entre os baixinhos do meio gospel: É benção, é benção,/é benção, é benção, é benção./Eu oro, eu oro,/eu oro, eu oro, eu oro./Por mais um…/ano de vida. Os vizinhos e parentes soltaram a voz. “É muito bom saber que eu sou querida por tanta gente”, disse a aniversariante.

Alguns insistiram que o namorado falasse alguma coisa ao microfone. O rapaz é tímido e tentou esconder o rosto com um boné. Por fim, ajoelhou-se diante de Viviane, abriu uma caixinha vermelha com uma aliança e pediu a mão da moça em casamento. Como ninguém esperava por aquilo, a gritaria recomeçou na rua. Com mais lágrimas no rosto, Viviane aceitou a proposta. O casal trocou um longo beijo.

O beijo acabou e Do Carmo entregou o combo de presentes: um coração de pelúcia, uma caixa de bombons, um CD com as mensagens ouvidas durante a homenagem e um balão vermelho em formato de coração, tudo incluso no serviço contratado. Depois, microfone na mão, ela se despediu. Antes de entrar no carro, ganhou um generoso pedaço de bolo de aniversário, acomodado num recipiente de alumínio.

Já passava das dez da noite quando Do Carmo e o filho pegaram o caminho de volta para casa, no bairro de Santíssimo, na Zona Oeste. “Por onde eu passo, meu objetivo é falar de amor. Mas não gosto de associar amor à imagem de um cupido, como faz a concorrência”, ela avisou.

Julia Sena

É estagiária de jornalismo da piauí. Antes, trabalhou no FOX Sports Brasil

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