esquina

Azar do grego

Só Costis Mitsotakis não ficou rico no vilarejo espanhol

Daniel Setti
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL

“Cinquenta e oito mil, duzentos e sessenta e oi-tooooo.” O numeral foi entoado três vezes, num andamento de canto gregoriano, por duas crianças do colégio madrileno San Ildefonso. Como acontece há dois séculos, o ritual marcou o anúncio do número vencedor de El Gordo, nome que os espanhóis dão ao primeiro prêmio da loteria de Natal, a mais polpuda do país.

El Gordo pagou 720 milhões de euros (ou 1,6 bilhão de reais) em prêmios em dezembro. Quatrocentos mil euros foram para cada um dos 1 800 bilhetes impressos com o número premiado. E desses, aproximadamente 65 foram parar no minúsculo vilarejo de Sodeto e em Alberuela de Tubo, a cidadezinha ao lado. Da noite para o dia, os minimunicípios ficaram 26 milhões de euros mais ricos – o equivalente a quase cinquenta vezes o orçamento anual das duas cidades.

Em Sodeto, quem comprou a quota mínima, de cinco euros, faturou 100 mil euros. Mas há quem tenha ganho dez vezes mais. Foi uma premiação igualitária, para todo mundo. Quer dizer, quase todo mundo: das 71 casas do burgo, onde vivem 240 pessoas, só na de Costis Mitsotakis, um documentarista grego de 42 anos, ninguém arriscou a sorte na loteria. Ele logo recebeu o apodo de “o homem mais azarado da Espanha”.

Foi de megafone em punho que a prefeita em pessoa circulou pelas ruas de Sodeto anunciando a boa nova de El Gordo. Ela descontou os 200 mil euros a que teve direito e transferiu a maior parte da bufunfa para as filhas. De óculos finos e mechas alouradas, a prefeita Rosa Pons lembrou no mês passado a comoção que tomou conta do povoado: “Nos abraçávamos, chorávamos e ríamos na praça. E em vinte minutos já chegavam os meios de comunicação.”

Chegaram às dúzias. Por semanas, os moradores – a maioria gente dedicada à agricultura ou à pecuária – não pararam de responder às mesmas perguntas, feitas em diferentes idiomas. O New York Times enviou quatro profissionais e deu matéria de primeira página. Da Alemanha, a Spiegel mandou duas equipes. Praticamente todos os órgãos de imprensa espanhóis foram ao lugar. O Réveillon da cidade foi devidamente pantagruélico. E depois tudo voltou ao normal.

Sodeto é um pueblo de casas homogêneas de pedras beges, cujas entradas são protegidas por cortinas para bloquear o vento gelado. A vida da comunidade converge para um estabelecimento mal iluminado que os nativos chamam de “o bar”. Ali, aposentados passam o tempo numa roda de carteado, sem a menor cara de que acabaram de ficar milionários. Costis Mitsotakis, o grego desafortunado, não ganhou nada justamente por viver num casarão a 1 quilômetro do estabelecimento, distância enorme para a geografia local.

Foi a Associação das Donas de Casas de Sodeto que tomou a iniciativa de tentar a sorte com El Gordo. A tesoureira da entidade, Olga Bonet, comprou trezentos bilhetes da loteria e os vendeu em Sodeto, Alberuela e outros povoados da região. Os 400 mil euros que ela ganhou chegaram em boa hora: o marido e a filha estão desempregados. “Não paramos no Costis porque ele não havia comprado em outros anos”, explicou Olga.

O documentarista grego deu uma versão diferente: “Se tivessem vindo aqui, eu compraria. Mas também não iria atrás.” Vestido de macacão azul e fumando um cigarro atrás do outro, Mitsotakis parecia despreocupado com o estigma de pé-frio. “Quando falei que não tinha um bilhete, todos ficaram pasmos. Um senhor me disse: ‘Te dou um’”, contou, emendando uma risada.

Mitsotakis disse ter passado sete horas ao telefone com repórteres. Só da Grécia, recebeu oitenta ligações em cerca de duas horas. Por uma transcendental casualidade, Mitsotakis é homônimo de “um político famoso na Grécia pela má sorte”, o que aguçou ainda mais a curiosidade dos jornalistas helênicos.

Mesmo sem ter embolsado um único centavo da loteria, o grego também vai se beneficiar da sorte coletiva. Um morador prometeu bancar o conserto de seu carro. Vizinhos já fizeram uma oferta generosa por parte de sua propriedade, ao pé do pedregoso e fotogênico Parque de La Gabarda. E Mitsotakis já tem em mente um documentário sobre o episódio, a ser produzido pelas donas de casa do povoado.

Fincado no deserto de Monegros, o vilarejo de Sodeto sofre com a aridez desde sua fundação, em 1958. Foi criado pelo Instituto Nacional de Colonização, órgão da ditadura franquista para povoar regiões remotas da Espanha. Em troca do assentamento em terras inóspitas, as famílias recebiam moradia e retribuíam aos poucos, com parte da sua produção. Para os agricultores da região, irrigar suas terras sempre foi uma questão crítica. Antes do sorteio, quase todos estavam endividados, devido aos gastos para modernizar seus sistemas de irrigação, da ordem de 5 mil euros por hectare. Para eles, o prêmio foi um verdadeiro maná no deserto.

Não falta quem queira lucrar à custa dos felizardos de Sodeto. Uma concessionária expôs um Jaguar zerinho na praça principal e ninguém se interessou em comprá-lo. Um transeunte, ao ver a oferta, aconselhou ao vendedor: “Tragam um trator!”

Daniel Setti

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