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Azul é seu manto

Uma querela sagrada no Sul

Ricardo Lacerda
IMAGEM: ANDRÉS SANDOVAL

A catedral de Cachoeira do Sul, cidade de 85 mil habitantes na região central gaúcha, é uma igreja de estilo colonial que chama a atenção pela arquitetura imponente. Seu interior, contudo, tem aparência mais despojada. Ali há apenas uma dúzia de vitrais e peças sacras, dentre as quais se destaca a estátua de Nossa Senhora da Imaculada Conceição, que dá nome ao templo. Com cerca de 1 metro de altura, a peça está postada ao fundo do altar, à esquerda do Cristo crucificado.

A imagem da santa – padroeira da cidade – foi trazida por militares portugueses nos primórdios da edificação, inaugurada em 1799. Suas mãos estão cruzadas na altura do peito, e um manto azul cai de maneira assimétrica sobre o ombro e parte do braço esquerdos. Sob seus pés, três cabeças de anjos emergem de uma nuvem.

A estátua ganhou companhia em 1929, por ocasião de uma reforma em que a catedral adquiriu elementos barrocos, tendo suas laterais alargadas e as torres dos flancos elevadas. Em seu frontão, no vértice da igreja, foi instalada outra estátua da santa, de 4 metros de altura. Com isso, a igreja ficou mais alta que o Château d’Eau, um torreão neoclássico que fica do outro lado da praça e que pode, com certa boa vontade, ser chamado de chafariz. Há quem diga que a colocação da santa era uma resposta à estátua profana de Netuno, o deus romano dos mares, que ornamenta o topo do monumento. De fato, as duas esculturas parecem se encarar.

A priori, a nova estátua também deveria representar Nossa Senhora da Conceição. No entanto, saltam aos olhos algumas diferenças em relação à imagem no interior da igreja. A santa do lado externo tem os braços estendidos para a frente e as mãos abertas, em concessão de graças. Em sua cabeça há um véu branco, ao passo que o manto azul recai sobre os ombros uniformemente. Ela carrega ainda uma coroa com uma cruz e pisa num globo com uma serpente, símbolo do pecado original – elementos que correspondem à iconografia tradicional de Nossa Senhora das Graças.



Por quase nove décadas a estátua instalada em 1929 se manteve imaculadamente branca, até que ganhou cores num processo de restauro iniciado no ano passado. O arroubo inovador é obra do padre Hélvio Luiz Cândido, um sujeito atencioso de baixa estatura e cabelos grisalhos. À frente da paróquia há catorze anos, o sacerdote teve a ideia enquanto tomava chimarrão na praça em frente à igreja.

O banho de tinta realçou as diferenças entre as duas estátuas e inflamou a controvérsia que há décadas era mantida à boca miúda. Coube ao Jornal do Povo, um diário local, dar destaque à dúvida que atiçava cada vez mais fiéis: “Nossa Senhora da Conceição ou das Graças na Catedral?”

 

Antes mesmo do fatídico restauro, já havia quem pusesse em dúvida a real identidade da santa do lado de fora da catedral. “Sempre houve zum-zum entre os mais entendidos, mas em petit comité”, afirmou Mirian Ritzel, uma estudiosa da história de Cachoeira do Sul que trabalha no Arquivo Histórico municipal da cidade. Ritzel ouviu o alerta pela primeira vez no fim dos anos 80, da artista plástica Mariluce Vidal, então sua colega de trabalho no Museu Municipal.

Por sua vez, Vidal – uma pós-graduada em história da arte –, disse saber da confusão desde muito jovem. “Minha irmã é Maria da Graça e tínhamos a santa em nosso quarto”, contou. “Cresci com aquela imagem com as mãos para baixo.” Durante uma exposição de imagens sacras no começo dos anos 80, ela chegou a levar o questionamento ao padre titular da época, que prontamente negou haver equívoco.

Alguns cachoeirenses continuam irredutíveis. “Não tem polêmica nenhuma”, asseverou secamente uma senhora após a missa matutina de um domingo de agosto. “Para nós, cristãos, trata-se da Imaculada Conceição”, completou. A amiga que a acompanhava tinha outra opinião: “Sempre soube que era Nossa Senhora das Graças.”

Em julho, a Rádio GVC FM recorreu a um pesquisador de iconografia religiosa para dirimir a polêmica. “Santa da Catedral é mesmo Conceição”, concluiu a reportagem publicada em seu site. O especialista consultado – um professor de música da Universidade Federal de Pelotas – explicou que Nossa Senhora das Graças é o apelido dado no Brasil e em Portugal a uma representação francesa da Conceição. Segundo o pesquisador, no começo do século XX houve uma tentativa de substituir a iconografia tradicional luso-brasileira pela francesa. É exatamente isso o que teria acontecido em Cachoeira do Sul.

Outro especialista consultado pela piauí, contudo, discordou. Altamir Moreira, doutor em teoria, história e crítica da arte pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, explicou haver versões menos conhecidas da Imaculada Conceição – entre elas, uma em que ela pisa numa serpente. “Mesmo assim, considerando a posição das mãos, meu juízo circunstancial tende a reforçar a atribuição da imagem como uma versão iconográfica de Nossa Senhora das Graças”, explicou, aludindo à estátua do frontão da igreja. “Desconheço variantes da Imaculada Conceição representadas em posição de braços abertos em simetria espelhada.”

 

Padre Hélvio não deixou de notar a ironia da polêmica. “A estátua estava ali há quase 100 anos e ninguém a percebia”, afirmou. “Só depois da pintura as pessoas começaram a perguntar de onde foi que a trouxemos.” Mas ele não parece muito preocupado com o alarido. Observou que, desde que a catedral começou a ser restaurada, o fluxo de fiéis à igreja aumentou – as missas de domingo têm reunido até 500 pessoas. E destacou a repercussão positiva da polêmica: “As pessoas começaram a se interessar mais, e isso é educativo.”

Desde que a controvérsia ganhou visibilidade, padre Hélvio passou a ser procurado por jornalistas. Em nenhuma das inúmeras entrevistas que deu ele admitiu haver qualquer erro, mas tampouco foi muito conclusivo. À piauí, ele afirmou que pode ter havido um engano, e que o debate segue aberto. Mas revelou pela primeira vez sua opinião sobre a controvérsia: “Acho que é a Nossa Senhora das Graças.”

Ricardo Lacerda

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