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Babado no Olimpo

Intrigas divinas contadas ao pé do ouvido

Bernardo Esteves
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2021

Não é porque os deuses são imortais que estão imunes às mudanças nos costumes humanos. Tome o caso de Zeus, senhor do Olimpo, que traiu Hera, sua esposa, com uma extensa folha corrida de deusas e mortais. Numa cena em que ela tenta seduzi-lo para apimentar a relação, Zeus adota uma estratégia temerária para se declarar. Diz a Hera que tem muito mais paixão por ela do que por qualquer outra que já amou – e se põe a enumerar todas aquelas com quem pulou a cerca e teve filhos.

O discurso de Zeus “é tão ruim que só pode ser sincero”, disse o professor Cláudio Moreno, apresentador de Noites Gregas, podcast quinzenal dedicado à mitologia da Grécia antiga. A iniciativa desastrosa do deus “levaria um homem hoje a enfrentar os coveiros de Gana na mesma hora”, afirmou ele, aludindo ao meme do caixão, que viralizou no começo da pandemia.

Em outro episódio, Moreno evocou a cena em que Zeus agride Hera fisicamente, atando-a com correntes pelos pulsos e a suspendendo com bigornas presas nos pés para castigá-la por atentar contra Hércules, um filho que o marido teve fora do casamento. Houvesse Delegacia da Mulher no Olimpo e Zeus seria fatalmente enquadrado na Lei Maria da Penha, notou o professor.

No Noites Gregas, os deuses dizem “nunca te pedi nada”, “vida que segue”, “só que não”. Posêidon, o senhor dos mares e irmão invejoso de Zeus, é descrito como um loser cercado por uma trupe de freaks. Afrodite, a deusa do amor, é “uma mulher que funciona no 220 [volts]” e que “se monta com todo seu brilho”, despertando a fúria das inimigas. Hera, ao ver a rival no campo de batalha durante a Guerra de Troia, atiça Atena para atacá-la. “Olha lá! Aquela bisca voltou. Não deixa!”, provocou Moreno, personificando a deusa enciumada.

 

“Sou um contador de histórias”, disse Moreno numa conversa pelo Zoom na primeira semana deste ano. “Meu grande interesse é a narrativa.” Falava de sua casa em Porto Alegre, no bairro Petrópolis, com a câmera acionada no preto e branco, o que realçava a armação dos óculos e a barba grisalha. O professor tem 74 anos, dos quais só admite 70 em público. Tomou contato com as aventuras dos deuses e heróis na infância, na releitura de Monteiro Lobato. “A mitologia grega é a maior coletânea de histórias que o Ocidente já viu.”

Moreno estudou português e grego no curso de letras e foi professor de português na Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Depois de se aposentar nos anos 1990, continuou lecionando em colégios e cursinhos de Porto Alegre. Assinou uma coluna sobre o mundo antigo no jornal Zero Hora, escreveu um romance sobre a Guerra de Troia e durante anos contou os mitos gregos no palco do Sarau Elétrico, um evento literário semanal na capital gaúcha criado em 1999.

De uns anos para cá, vinha organizando roteiros turísticos pelo mundo antigo a convite de uma agência de viagens. Foi numa dessas excursões que um participante plantou a ideia: por que ele não fazia um podcast para contar aquelas histórias? Moreno mal conhecia o formato, mas acabou convencido de que era ideal para transmitir narrativas mitológicas, promovendo uma volta à oralidade em que elas foram elaboradas pelos gregos.

“A voz do narrador cria uma imediata adesão do ouvinte porque o obriga a mergulhar na sua própria imaginação”, disse o professor. “Ele recria as cenas e os personagens no cinema de sua própria mente.” É por isso, aliás, que as Helenas de Troia das adaptações para o cinema nunca foram uma unanimidade. “Homero, espertamente, nunca a descreveu, e cada um imagina ‘a mulher mais bonita do mundo’ à sua maneira ou à semelhança de sua mulher, como é o meu caso”, afirmou.

Se a mitologia grega continua atual e fascinante, é porque nos identificamos com os personagens movidos por paixões e impulsos muito humanos. “Os deuses egípcios são um porre, não têm vida, e os indianos são uns malucos. Já os gregos são como nós, mas não são como nós”, comparou Moreno. “Zeus faz a mesma coisa que o meu vizinho”, continuou. “Comer a mulher do outro o vizinho também come, mas no caso do deus isso tem consequências, nasce um herói.”

O podcast explora essa identificação ao enfatizar os barracos e as intrigas entre deuses e mortais num registro que flerta com o da fofoca. O professor diz que as narrativas gregas têm um lado voyeurista, e que parte de seu fascínio vem daí. “Não existe mitologia sem escândalo.”

 

Moreno tem sete filhos de três casamentos. A mais velha tem 48 anos, e a mais nova, 7. A esposa é quem o ajuda a divulgar o podcast nas redes sociais. Ele estava satisfeito com as curtidas na foto de boas-vindas para 2021 publicada na véspera da entrevista em seu perfil no Instagram. O apresentador se acostumou aos biscoitos que recebe dos fãs nos comentários. “É uma espécie de co-caí-na”, comparou. “Depois, quando não vem, a gente começa a sentir falta.”

Seu braço direito no podcast é o jornalista Filipe Speck, seu genro, apelidado de Hermes em homenagem ao deus das comunicações, mensageiro de Zeus. Speck cuida da edição dos episódios, gerencia o site do projeto e ajuda na gravação em vídeo dos cursos de mitologia na arte oferecidos como conteúdo exclusivo para os apoiadores do podcast.

Uma vez por semana, o professor e o jornalista se encontram no estúdio improvisado no imóvel que serve de escritório para Moreno no bairro Moinhos de Vento. Ali comem pizza, gravam o próximo episódio e pensam juntos na pauta dos capítulos seguintes. Moreno prepara uma lista de tópicos que não pode esquecer, mas faz o texto no improviso, com a segurança de quem conta aquelas histórias há décadas.

Speck disse que o sogro tem urgência de gravar o podcast por temer que sua voz acabe (se ela falha durante as gravações, o apresentador recorre a uma dose de uísque para aquecer a garganta). “Imagina se o neto dele não tivesse a chance de ouvir essas histórias maravilhosas gravadas por quem gosta tanto de contá-las”, disse o jornalista, cuja mulher espera um filho para este ano.

Na avaliação de Speck, o fato de Moreno ter filhas e filhos de várias gerações obrigou-o a se manter por dentro das novas gírias e tendências comportamentais. “Ele sempre teve que se envolver com o contemporâneo.” Moreno admite a influência da prole, mas diz que os adolescentes com quem teve contato no magistério também ajudaram. “Nós, professores, vampirizamos as novas gerações.”

O plano de voo do Noites Gregas prevê cerca de 100 episódios, dos quais 23 já estão no ar. Moreno está concluindo um ciclo dedicado aos principais deuses do Olimpo, e em seguida fará uma série sobre a Guerra de Troia que deve se estender ao longo de todo o ano. Pretende também fazer um ou dois episódios sobre a Grécia de Monteiro Lobato. O cancelamento do autor paulista depois que críticos denunciaram o racismo de sua obra é motivo de desgosto para Moreno, que nem por isso deixará de homenageá-lo. “Sei que vou levar chumbo.”



Bernardo Esteves

Repórter da piauí, é autor do livro Domingo É Dia de Ciência (Azougue Editorial)