esquina

Bancando um Banksy

Um nonagenário adota um grafite

Chico Felitti
ANDRÉS SANDOVAL_2018

Quando vi aquele quadro sendo triturado, me deu uma dor no coração. Foi uma tragédia que poderia ter sido evitada”, disse o homem de quase 2 metros e de cabelos brancos, com uma voz grossa embrulhada por um sotaque nova-iorquino. Saul Zabar comentava o leilão de 5 de outubro realizado na Sotheby’s, em Londres, em que uma pintura do grafiteiro Banksy se autodestruiu depois de ter sido comprada por 1 milhão de libras (algo perto de 5 milhões de reais). O comprador é tão anônimo quanto o artista que há duas décadas espalha grafites políticos pelo mundo. Na base da moldura havia, camuflado, um triturador de papel que picotou a tela – uma menina segurando um balão em formato de coração – assim que o martelo foi batido. O autor do lance levou a obra assim mesmo.

Zabar estava na esquina da rua West 79 com a Broadway, em frente ao Banksy que ele chama de seu. “Olha aqui, essa pintura sobrevive faz cinco anos”, disse com a segurança de um crítico de arte, apontando para o desenho da sombra de um menino com uma marreta, prestes a atingir um cano de água que, como um hidrante, fica na calçada, para ser usado em caso de incêndio.

É o último trabalho aberto ao público que restou do grafiteiro mais famoso do mundo nas ruas de Nova York, e Zabar se considera o guardião da obra. O estêncil apareceu num domingo de 2013, na parede dos fundos de uma loja da rede Designer Shoe Warehouse – um saldão de sapatos onde uma sandália Louboutin de 399 dólares sai por 120 dólares. Zabar, que é dono de uma mercearia do outro lado da rua, e também do prédio onde funciona o saldão, correu para lá.

“Cheguei e vi que a polícia tinha feito um cordão de isolamento, de tanta gente que tinha ido ver.” O grafiteiro havia espalhado pela internet pistas sobre o local de estreia da nova obra. Era a primeira vez que o comerciante de 90 anos via um trabalho dele. “Achei magnífico! Não era grafite, era arte de verdade”, disse Zabar, traçando uma linha divisória que o próprio Banksy condena. A obra, sem batismo oficial, foi apelidada de Hammer Boy (menino do martelo).

 

Assim que a polícia liberou a rua, Zabar providenciou uma placa de acrílico transparente para ser aparafusada sobre a obra. O lugar, que ainda funciona como depósito de sacos de lixo dos comércios do quarteirão, recebe uma faxina uma vez por semana. A proteção já foi pichada oito vezes, numa das quais a concorrência de Banksy pedia o fim da intervenção do mercado na arte. Escreveram com spray preto. “Deixem que a rua decida [o destino do grafite]!”

No outono de 2013, Banksy passou um mês em Nova York, onde deixou 31 pinturas. A 15 quilômetros do Hammer Boy, o artista anônimo pintou duas gueixas na parede de uma lavanderia, no número 48 da avenida Graham, em Williamsburg, o epicentro da gentrificação na cidade. Menos de uma semana depois, o dono do prédio instalou em cima do grafite uma porta corrediça de metal, dessas que fecham bancas de jornal no Brasil. A associação de moradores protestou, em vão: nascia ali um Banksy particular, fechado para o público. Um robô com uma lata de spray na mão teve um destino parecido em Coney Island. Assim que ficou sabendo que o desenho era valioso, o proprietário do edifício que ocupa o número 1402 da avenida Neptune mandou instalar uma porta metálica em cima.

Um coração que havia sido grafitado num armazém no Brooklyn teve um destino ainda mais privatizado. O galerista Stephan Keszler, estimando que a obra valesse entre 400 e 600 mil dólares, pagou pela remoção do pedaço de parede e levou-o a uma feira de arte em Miami em 2014. As 3 toneladas de tijolo encalharam. O jornal New York Post fez um levantamento do destino de todos os Banksys da cidade e cravou que o do Zabar’s é o único que continua na rua, aberto à visitação do público.

 

Os Zabar fugiram da Ucrânia na década de 30 e trabalharam no comércio desde que aportaram. O mercado, originalmente um armazém de secos e molhados no Brooklyn, cresceu com a fama de vender o melhor salmão defumado da cidade. “Ainda é, escreve aí”, bradou o velho homem de negócios. “Defumamos em casa, venha conferir”, continuou, como numa feira livre. Na década de 50, o Zabar’s chegou a contar com quatro unidades em Nova York, três das quais fecharam durante as crises dos anos 70.

Em 2018, a loja movimenta milhões de dólares por mês. Numa tarde comum, seus quatro andares têm fila de meia hora nos caixas; os atendentes lembram feirantes de luxo: “Oi, dona Dana, quer provar a ameixa hoje? Tá fresquinha.” No café, no térreo, há uma foto do grafite de Banksy pendurada na parede. “A gente o chama de nosso menininho”, disse o advogado aposentado Adrian Smith, enquanto bebia um cappuccino com três amigos. Embora frequentem o café todo fim de tarde, nunca atravessaram a rua para ver a pintura ao vivo.

Mas dezenas de turistas passam pelos fundos da loja de sapatos todos os dias. Enquanto Zabar falava de sua relação com Banksy, ouviu-se um “É aqui no meio do lixo?”, em português. Era o dentista capixaba João Camargo e sua mulher, que tinham chegado ali guiando-se pelo celular. “É bonitinho, né? Mas meio pequeno”, avaliou o brasileiro.

Zabar sorriu ao saber que o visitante tinha passado para ver sua pintura: “Viu? É um ponto turístico!” Uma senhora de cabelo arrepiado tingido de vermelho interrompeu a conversa. “Você é o Zabar, né? O do mercado.” Ela se apresentou como Liza Sapir, maquiadora da Broadway, e começou a dar sua opinião sobre a pequena aglomeração que se formava na calçada. “Acho a atitude louvável, mas colocar a logomarca da loja em cima estraga a intenção. Virou marketing.” Ela apontou para a parte superior do acrílico que cobre a pintura, onde está escrito: “Ajude o Zabar’s a proteger essa obra incomum.”

O comerciante deu de ombros e bufou: “Não vou poder nem colocar a assinatura na obra que eu salvei?” Em seguida, virou as costas e voltou para seu armazém. Enquanto ele caminhava ainda deu para ouvir um resmungo: “Para que serve a arte então?”

Chico Felitti

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