questões republicanas

“Batalhadores do Brasil…”

Só a reencarnação de Getúlio Vargas pode derrotar Bolsonaro

Miguel Lago
Lula incorporando Getúlio: antes como agora, só faz sentido voltar à disputa “não como líder de partidos, e sim como líder de massas”
Lula incorporando Getúlio: antes como agora, só faz sentido voltar à disputa “não como líder de partidos, e sim como líder de massas” CREDITO: KLEBER SALES_2021

A decisão do Supremo Tribunal Federal de devolver os direitos políticos ao ex-presidente Lula no momento em que o país enfrenta o pior pico da pandemia provocou uma antecipação caótica da corrida eleitoral. A popularidade de Jair Bolsonaro vem caindo, com o presidente sendo pressionado por todos os lados, enquanto Lula marcha livre e se aproxima do autoproclamado “centro”, que, por sua vez, se vê na obrigação de escolher um candidato dentre os nomes que vêm sendo aventados. As pesquisas apontam Lula na liderança, no primeiro e no segundo turno, e identificam a existência de um eleitorado importante que não deseja votar nem em Lula nem em Bolsonaro, o que indica que há espaço para uma terceira candidatura. Alguns analistas consideram que, diante do derretimento do incumbente, essa terceira candidatura poderia figurar no segundo turno contra Lula. Confesso que, apesar de estarmos ainda muito longe da eleição, se tivesse que apostar, colocaria minhas fichas no cavalo Bolsonaro.

Seu favoritismo deve-se em parte à miopia de seus adversários que, repetindo o que fizeram em 2018, insistem em menosprezá-lo. Nenhum deles parece ter captado a tremenda inovação política que irrompeu. Achar que a “velha política” será capaz de derrotar a “nova política” não passa de um sonho de uma noite de verão. Em que pese o desempenho desastroso do governo, o morticínio inigualável na pandemia e o desemprego nas alturas, a popularidade de nenhum outro político resistiu a tantas crises. Como Bolsonaro é uma esfinge, o primeiro passo para enfrentá-lo é desvendá-lo.

Existem três leituras equivocadas para explicar a vitória eleitoral do Mito que, no entanto, têm servido de base para as estratégias políticas da oposição: a afetiva, a materialista e a instrumental. A leitura afetiva irradia sobretudo no campo das esquerdas. Consiste em achar que o eleitorado vota segundo sua “memória eleitoral”. Ou seja: pela lembrança de um passado em que a vida era melhor. Nesse aspecto, Lula seria um candidato imbatível, dado que nenhum outro político vivo governou num período de tamanha prosperidade. Logo, a vitória de Bolsonaro em 2018 só se explicaria pela ausência forçada da candidatura de Lula, aliada à normalização do candidato de extrema direita pelo establishment. Agora, com Lula livre, bastaria “normalizá-lo” diante do establishment, uma tarefa facilitada pela catastrófica gestão de Bolsonaro, e assim Lula estaria desimpedido para obter uma vitória retumbante.

A leitura materialista vigora especialmente no campo autoproclamado de “centro”. Entende que o comportamento do eleitor decorre de fatores materiais, em particular a situação econômica. De acordo com essa interpretação, a eleição de Bolsonaro em 2018 foi uma punição ao partido que governou o país por treze anos e tornou-se diretamente responsável por uma tremenda crise econômica, aliada a escândalos faraônicos de corrupção. Logo, uma vitória de Bolsonaro em 2022 dependeria apenas da sua performance governamental, que, por enquanto, é nula. Neste cenário, ao candidato do “centro”, caberia apresentar credenciais de bom desempenho em outras administrações para derrotar o incumbente “incompetente”. Essa leitura já foi desafiada no ano passado, quando previu que Bolsonaro não resistiria à brutal queda do PIB, além da maior crise sanitária dos últimos cem anos e da cobertura crítica da imprensa. No entanto, ele terminou o ano com popularidade recorde, na casa dos 40%, o que os “materialistas” atribuem apenas à implementação de um auxílio emergencial para dezenas de milhões de pessoas.

Finalmente, a leitura instrumental é aquela que explica a notável resiliência de Bolsonaro exclusivamente por meio de sua extraordinária habilidade de se comunicar nas redes sociais. Ou seja: seu governo é um desastre econômico, social e sanitário, mas seu triunfo digital é imbatível. A tese se baseia em fatos concretos. De fato, o poder computacional da extrema direita, financiado por caixa dois, teve papel relevante na vitória eleitoral de 2018. É fato também que, uma vez alçado ao poder, Bolsonaro consegue governar mediante a propagação massiva de fake news, orquestrada pelo “gabinete do ódio” e disciplinadamente difundida pela sua milícia digital. A abordagem instrumental entende que, para a oposição, bastaria constituir equipes muito eficientes em comunicação de redes sociais para competir à altura com o presidente em 2022.

As três leituras são pertinentes, pois se escoram no saldo calamitoso do governo, mas são insuficientes. Todas elas esnobam a inteligência e o mérito de Bolsonaro e esterilizam o eleitorado, que entra em cena como um agente tutelado, vítima de fake news, de assistencialismo eleitoreiro, de uma cultura conservadora, de elites manipuladoras…

Em seu discurso do dia 10 de março, no Sindicato dos Metalúrgicos do abc em São Bernardo do Campo, Lula apelou às três leituras – e é sintomático da difusão do tripé interpretativo que tenha recebido tantos elogios por sua fala. No pronunciamento e nas entrevistas subsequentes, o ex-presidente pareceu ensaiar os três caminhos. O primeiro seria “O Brasil feliz de novo”, slogan usado na campanha petista em 2018, que aposta exclusivamente na memória eleitoral. A ideia é contrastar os anos dourados da Presidência de Lula com os anos difíceis de Bolsonaro. Ademais, Lula, agora, do alto de seus 75 anos, pode encarnar a figura do senhor sábio e experiente, a imagem paterna de autoridade para colocar ordem no caos, mimetizando François Mitterrand, na sua reeleição à Presidência da França em 1988.

O segundo caminho, que contempla a leitura materialista, se resume em “Mais uma Carta aos Brasileiros”, jogando luz sobre um Lula pragmático que compõe com as forças conservadoras para acalmar os ânimos do antipetismo e do “conservadorismo intrínseco” do povo brasileiro. Faz parte dessa estratégia o balão de ensaio da chapa Lula-Santos Cruz, Lula-Kátia Abreu ou Lula e algum empresário. A terceira estratégia é a do “Lulacrador”, uma tentativa de inovar taticamente, transformando Lula em um personagem de rede social. Ao ganhar maior presença nessas mídias, o petista poderia contrapor-se a Bolsonaro. É uma tarefa hercúlea, dado que o presidente faz muito mais do que “bom uso” das redes: ele está moldado e integrado a elas como nenhum outro político brasileiro.

Mais uma vez, diga-se: cada uma dessas estratégias é válida e pode gerar dividendos eleitorais, mas nem mesmo as três reunidas serão suficientes para vencer a extrema direita. Todas elas são autorreferentes: estão centradas em Lula, na sua história e no seu papel, e nenhuma delas foca no drama social dos dias de hoje, muito menos no incumbente que se deseja derrotar. Pois, como se verá a seguir, o candidato da extrema direita tem antídotos para neutralizar as três leituras.

 

Bolsonaro é quem dita o ritmo da política, pela força do cargo que ocupa e, também, pela aliança umbilical que firmou com grande parte do eleitorado brasileiro – o que é um dado inédito na Nova República. Lula e Fernando Henrique Cardoso – e até mesmo a Dilma Rousseff de 2011 – registraram taxas de aprovação muito mais altas, tornando-se figuras quase consensuais em dados momentos de seus mandatos. Mas nenhum deles, nem mesmo Lula, foi depositário de um amor cego e inabalável de parcela significativa da população. Essa resiliência extraordinária, acompanhada de uma estratégia inteligente de comunicação, faz de Bolsonaro o regente da orquestra, o diretor da peça: aquele que atribui papéis, escreve as falas, e determina quem entra e quem sai do palco. Ele nomeia seus inimigos e os obriga a fazer oposição nos seus termos. Seus opositores podem até escolher as palavras, mas o conteúdo de seus discursos é definido pela gramática desenhada por Bolsonaro. Seus constantes ataques verbais às instituições e os ensaios de golpe obrigam seus opositores a adotar um discurso de defesa do estado democrático de direito. Sua verborragia alucinada força que todos defendam a moderação e a razão. Bolsonaro nos obriga a chamá-lo de fascista, de golpista, de negacionista, de burro, de genocida… todo dia temos um novo adjetivo para ele.

O resultado é que, além de delimitar o campo semântico dos adversários, Bolsonaro coloca-se na posição da vítima, de alguém que é perseguido pelos defensores do Iluminismo – algo abstrato e alheio à realidade da população brasileira –, de alguém que é impedido de exercer o bom governo. As instituições, afinal, só existem para constrangê-lo e manietá-lo. Bolsonaro encurrala seus adversários, forçando-os a praticar um discurso elitista e condescendente que se comunica com pouca gente. O que é estado de direito para quem está acostumado com as violências diárias das grandes cidades? O que são racionalidade, evidências científicas para quem tem que levantar todo dia cedo para garantir o sustento da família? O discurso iluminista não gera empatia e afeto, ele afasta a população. Enquanto os opositores estiverem presos a ele, Bolsonaro sabe que será o único a dialogar com os anseios da maioria do eleitorado.

A liberdade de expressão e de imprensa, o respeito à ciência e a proteção das liberdades individuais são alguns dos pilares de um governo democrático. São requisitos mínimos, e não valores aspiracionais. No entanto, os presidenciáveis da direita e do centro parecem ter sido obrigados pelo presidente a restringir seu campo semântico ao elogio à ciência, à imprensa, às evidências, às instituições, à razão, ao diálogo e à eficiência. É um discurso que reanima uma parte das elites, mas é infértil para além delas. Os opositores de esquerda tropeçam na mesma armadilha, condenados a uma pobreza discursiva similar, acrescida por lampejos do tipo “retrocesso de direitos” e críticas à política “neoliberal” do empresário Paulo Guedes. Na prática, Bolsonaro consegue neutralizar a diversidade existente entre seus adversários (que vão da extrema esquerda à direita conservadora), fazendo com que todos se pareçam entre si, como se fossem a reencarnação de um udenismo estridente e antipopular. Quanto mais as oposições insistem em se contrapor ao presidente com base nesses valores, mais encarnam esse inimigo enunciado e denunciado por ele: uma elite aprisionada pelo politicamente correto, corrupta, globalista, esquerdista, afastada da nação, dos valores, da realidade do povo e que se julga moralmente superior.

A gestão da pandemia é uma calamidade, mas ilustra bem essa estratégia. Bolsonaro decidiu que não daria nenhuma resposta à Covid-19, a “gripezinha” que não passava de “conversinha”. Os governadores, responsáveis por parte significativa do sistema hospitalar do sus, sabiam que, se nada fosse feito, teriam que arcar com o colapso dos hospitais. Desesperados e atordoados, começaram a aplicar restrições à circulação. Bolsonaro reservou para si a narrativa de criticar essas medidas impopulares e de se solidarizar com os trabalhadores afetados pela crise econômica. Conseguiu, assim, desresponsabilizar-se politicamente pela resposta à Covid-19, operando o que na ciência política se chama blame shifting – transferência da culpa. Ele consegue se descolar da situação dramática em que os brasileiros se encontram, aparecendo não como o vilão, e sim como o defensor dos vitimados (aquele que tenta advogar pelos interesses da população, mas é sempre impedido de fazê-lo). Tal deslocamento de responsabilidade torna mais difícil a aplicação eficaz da “memória afetiva”. Não há dúvida de que se vivia melhor nos tempos de Lula do que nos tempos de Bolsonaro, mas a razão poderia ser o fato de que “não deixam o homem trabalhar”. E, diante disso, abre-se uma possibilidade: “Será que não vale dar mais uma chance para esse líder tão sincero que nos defendeu desde o início dessa crise?” A leitura afetiva é, portanto, extremamente arriscada, e se for hegemônica em qualquer discurso de oposição, poderá custar a eleição.

Bolsonaro é sim, como ele afirma, a nova política. Ele desafia a leitura materialista sobre a qual liberais e sociais-democratas basearam suas disputas nos últimos quarenta anos. Nesse tempo, a política se reduziu à gestão da coisa pública, como se governos fossem síndicos de condomínio. A nova política resgata a verdadeira dimensão do político: uma arena de produção de desejos, de formulação de demandas, de construção de identidades, de ampliação de expectativas, da disputa por visões de mundo. Bolsonaro desafiou o excessivo materialismo dos cientistas políticos, que consideravam sua eleição quase impossível, e desafiou toda a literatura existente sobre responsabilização e performance de governo.

 

Não há paralelo na nossa história de um governo tão incompetente, composto de ministros tão inábeis e tão despreparados. O PIB caiu brutalmente, caminhamos para a catástrofe dos 400 mil mortos e pode-se perguntar: Por que raios praticamente nenhum governo local – embora tivessem a autonomia desde 2020 – decretou um verdadeiro e completo lockdown, única medida que se provou até agora efetiva? Por uma razão puramente política: Bolsonaro aumentou o custo político para qualquer prefeito ou governador que ouse fazer a coisa certa. Arrisco-me a dizer que nenhum dos atuais presidenciáveis conseguiria segurar sua popularidade se, no comando do país, tivesse um desempenho tão ruinoso quanto o do ex-capitão – nem mesmo Lula. Isso porque Bolsonaro construiu uma aliança sólida com o eleitorado, que vai além da relação representado-representante.

Bolsonaro é o primeiro presidente da hiperconectividade. Sua eleição se deu pela sua extraordinária capacidade em apreender a dimensão online, não como um instrumento de divulgação – como faz a velha política – e sim como o novo ambiente em que parte da humanidade habita e age. O equívoco da leitura instrumental é atribuir seu sucesso a uma simples “boa estratégia de redes”. Vai muito além disso. Bolsonaro é o sujeito hiperconectado por excelência. Sua linguagem e seus processos de mobilização estão plenamente imbricados na arquitetura de comunicação das redes sociais; seus adversários são estrangeiros à infosfera. Bolsonaro é um perfil, e todas suas atividades na dimensão offline são pensadas, estruturadas e realizadas a fim de gerar dividendos na arena digital. Os decretos, projetos de lei, pronunciamentos, manifestações, alianças, tudo é pensado para contar uma história no universo online – e só os políticos antiquados acham que o universo online não passa de uma bobagem virtual, quando, cada vez mais, é a própria realidade.

Para Bolsonaro, o mundo analógico só serve como um estúdio para alimentar as redes sociais. A arquitetura de informação das plataformas de mídias sociais privilegia conteúdos inflamatórios, posturas radicais, frases de efeito e posicionamentos claros, sem nuances ou ambiguidades. O presidente mantém o radicalismo não só na fala, mas também nos seus atos e, há de se convir, passou dois anos de mandato sem conceder muito ao establishment político brasileiro – que estava, aliás, louco para abraçá-lo depois de sua vitória. À diferença de todos os residentes do Palácio da Alvorada desde a redemocratização, ele fez poucas nomeações de partidos políticos. A grande maioria dos ministros é ora uma escolha ideológica do presidente, ora dos três grandes lobbies que ajudaram a elegê-lo: ruralistas, evangélicos e militares.

Mas para ser um presidente-perfil não basta fazer discursos e frases de efeito para sustentar a relevância e o engajamento na rede. É necessário construir canais de comunicação. Entenda-se como “canal de comunicação” uma relação direta entre o produtor de informação e o receptor de informação, e uma fidelização contínua deste. Desde o início da década passada, a estratégia de Bolsonaro tem sido, primeiro, captar novas audiências por meio de canais maiores, depois convertê-las politicamente e fidelizá-las em seus canais próprios. Em seguida, manter as novas audiências engajadas diariamente e testá-las com atos e pronunciamentos. O passo seguinte é semear a dúvida sobre a seriedade de outros canais, a ponto de afastar sua audiência convertida de qualquer outra fonte de informação que não seja a do próprio sistema de informação bolsonarista.

Essa estratégia foi exemplarmente adotada para converter o lavajatismo em bolsonarismo. Primeiro, o ex-capitão se expôs ao lavajatismo nas grandes manifestações de 2015 e 2016 – que, naquela época, confiavam profundamente na imprensa e na Justiça. Na sequência, engajou parte desse segmento em seus canais. Durante as eleições de 2018, adotou uma virulência antipetista e manteve engajada essa base lavajatista – que votou em peso nele já no primeiro turno. Em seguida, trouxe o maior ídolo do movimento, o então juiz Sergio Moro, para dentro do governo, fidelizando de vez essa audiência. Fritou Moro ao longo de um ano e meio, fez tudo para despertar a desconfiança na grande mídia e no Judiciário e desmontou as investigações da Operação Lava Jato. Hoje, grande parte do lavajatismo já não consome notícias de grandes veículos, quer fechar o STF, desdenha de Moro e nem lembra mais do discurso anticorrupção. A estratégia é tão eficaz que aguentou até essa guinada de grandes proporções.

Note-se que, para manter a nova audiência integralmente conectada e altamente engajada, é necessário criar um enredo em que o protagonista Bolsonaro luta contra adversários muito poderosos, e todo aquele que se coloca no seu caminho torna-se persona non grata para a audiência. Além disso, é preciso aliar esse enredo a dois procedimentos táticos clássicos do ativismo: a urgência e o medo de perder. É importante mostrar fragilidade, mostrar que sem a mobilização intensa esse governo, alvo constante dos “poderosos”, pode cair a qualquer momento. Nesse sentido, quanto mais reações por parte dos adversários, melhor para Bolsonaro. Isso o ajuda a manter seu público conectado e engajado. Eis aí a razão pela qual sua audiência está sempre tão disponível a se transferir do universo digital e aparecer na vida real, nas ruas, em manifestações para defender uma intervenção militar ou o fechamento do STF. Eles têm urgência. Eles não podem esperar. Porque eles têm medo de perder o poder amanhã. (A taxa de engajamento digital vem caindo nos últimos meses, mas ainda se mantém em patamares suficientemente altos para cumprir sua função mobilizadora.)

A ruptura de Bolsonaro com a tradição política vai além. Ela não é só uma questão de forma, mas também de conteúdo. A cadeia de significantes composta por discursos e atos do presidente comunica uma nova cosmovisão. Ele é um hiperliberal (uma versão vulgar e radicalizada do liberalismo), que deseja defender a “liberdade das pessoas” – entendida aqui como liberdade de fazer o que der na telha – sem que haja qualquer limitação aos impulsos do indivíduo. A imagem de indivíduo, nesse caso, foi claramente inculcada por publicidades de carro e de cerveja: é sempre homem, sempre branco, sempre hétero. E ele não tem freios, limites, tudo está à sua disposição, basta querer. E se ele não obtém o objeto de seu desejo não é por falta de competência, é simplesmente porque alguém o impediu. Nesse mundo, não existe esforço, apenas gozo. A maior força de Bolsonaro no governo é garantir que deixará – sempre – que os indivíduos possam gozar a seu bel-prazer. Bolsonaro deseja uma sociedade pré-hobbesiana, aquela que não precisa de nada nem ninguém. Uma sociedade onde os mais fortes mandam e podem recorrer a qualquer recurso para fazer valer o gozo de seus impulsos.

Aliado a essa luta pela “liberação do indivíduo” está o discurso pré-milenarista dispensacionalista. Baseado em uma interpretação extremamente superficial do Apocalipse de São João – que, em si, é um livro de exegese difícil –, prevê que a salvação dos bons depende de anos de grandes testes, provas e sacrifícios. O sujeito para quem essa cosmovisão se dirige é o “cidadão de bem”, aquele que pertence a uma comunidade virtuosa e que será arrebatado. No caso das igrejas neopentecostais, existe a Igreja (comunidade de fiéis) e o Mundo (tudo o que está fora da Igreja e que é do demônio). No caso dos militares, existem os militares e os civis, onde não há dúvida sobre quem são os virtuosos. No caso dos condomínios da Barra da Tijuca, a lei se aplica para quem está fora dele, como bem apontou o urbanista Roberto Andrés em excelente ensaio publicado na piauí de fevereiro [Vivendas do Alvorada]. Todos aqueles que tentarem se interpor entre o “cidadão de bem” e a realização de seus desejos é o inimigo. São as feministas, os movimentos negros, os sindicatos, os processos legais, o Código de Trânsito, o professor que reprova, qualquer construção coletiva que funcione como freio. A simples existência do inimigo é um cerceamento a essa liberdade. Portanto, o inimigo deve ser desconstituído, exterminado, eliminado. Embora o tratamento conferido aos inimigos seja o mesmo que o nazifascismo atribuía aos seus – “inimigo total, guerra total” – e embora o bolsonarismo seja na essência racista e violento, devemos evitar estabelecer uma equivalência entre ambos. O nazismo e o fascismo são construções coletivas – abomináveis, sim, mas ainda assim construções coletivas. O bolsonarismo é a desconstrução de qualquer forma de coletividade.

Com tudo isso, Bolsonaro inaugurou um novo modo de governar: o governo da suspensão. Sua função é dupla: exime-se de qualquer ação organizada e anula os instrumentos de organização coletiva que possam frear o ímpeto dos “cidadãos de bem”. Por essa razão, não se estabelece nenhuma medida restritiva para combater um vírus, desmonta-se a estrutura de combate ao desmatamento da Amazônia, abandona-se a luta contra as desigualdades, entre tantos outros. Por isso, faz todo sentido que, neste momento, a nova prioridade nacional do Ministério da Educação seja o homeschooling – a educação domiciliar que, infensa à esfera pública, poderá imunizar os filhos dos “cidadãos de bem” da influência desse sistema educacional comandado por “comunistas e pedófilos”.

A subtração de governo tem uma vantagem tática adicional: deixa os opositores perdidos. Afinal, o vocabulário da oposição é o de criticar ou propor alternativas àquilo que é realizado pelo governo. Mas o que a oposição deve fazer quando o governo se recusa a realizar? Como se opor a isso? Denunciando que nada se faz e pedindo realizações? Esse modo de governo joga a responsabilidade de governar no colo da oposição, que, obviamente, não tem os meios para fazê-lo. É um pouco como se a oposição fosse obrigada a se comportar como governo e, assim, permitisse que o governo se comporte como oposição. Se fosse jogador de futebol, Bolsonaro seria aquele que, em vez de buscar o gol, senta-se em cima da bola. Os adversários, ávidos para prosseguir a partida, tentam recuperar a bola, mas só conseguem fazê-lo empurrando o jogador ou distribuindo tantas patadas na bola que terão cometido falta no atleta. A estratégia funcionou por um ano durante a pandemia: Bolsonaro subtraiu a si mesmo, obrigando seus opositores a pedirem por medidas mais restritivas e impopulares. O repertório narrativo de governo ficou com os opositores, e os resultados foram desastrosos. Bolsonaro, quanto a ele, ficou com o repertório da “liberação dos cidadãos de bem”, do líder que luta por eles e se preocupa com a dura realidade do cotidiano. Por isso, apesar da montanha de mortos, a popularidade de Bolsonaro ainda resiste.

A verdade é que, neutralizando as leituras da oposição e governando pela ausência de governo, Bolsonaro continuará sendo eleitoralmente muito consistente enquanto as outras forças políticas (de direita, centro e esquerda) não reconhecerem o caráter revolucionário de sua empreitada. É preciso entender que Bolsonaro não é um presidente, mas o líder de uma revolução, que se expressa no domínio exemplar do universo digital, na condução eficiente de seus seguidores e na formulação de uma cosmovisão que conjuga pré-milenarismo com anarcocapitalismo. Bolsonaro é a vanguarda da primeira verdadeira revolução de nossa história – ainda que a vanguarda, aqui, seja um inédito retrocesso civilizatório. Para reverter esse cenário, devemos recorrer ao antídoto contrarrevolucionário mais eficaz: o populismo. Só um verdadeiro populista como o conservador Getúlio Vargas poderia deter o revolucionário Jair Bolsonaro.

 

O populismo é um conceito importante, frequentemente empregado de maneira leviana. Basta um político ser ligeiramente demagógico e já é batizado de populista. Rafael Correa, o ex-presidente do Equador, tem uma boa definição: “Populista é o termo empregado pelas elites quando elas não entendem o que está acontecendo.” O populista é apre-sentado como tudo aquilo que se afasta da racionalidade, da temperança, da honestidade, da austeridade fiscal, da qualidade técnica – em suma, a antítese do bom governo. Jornalistas, empresários, políticos, intelectuais não são os únicos a não compreender o fenômeno. A própria literatura de ciência política costuma falhar em entendê-lo. Simplifica-o, considerando apenas uma plataforma vaga e puramente retórica. O pensador argentino Ernesto Laclau, uma das mentes mais brilhantes da teoria política contemporânea, atribuiu essa falta de compreensão à limitação dos instrumentos de análise existentes. Para enxergar o conceito com nitidez, seria necessário fabricar lentes novas e mais potentes. Em outras palavras, criar uma nova ferramenta analítica. Laclau e a belga Chantal Mouffe se inspiraram na semiótica para chegar lá. Eles inverteram a lógica materialista segundo a qual o campo discursivo da política nada mais é do que o reflexo dos interesses de classes sociais. Para eles, o discurso político é o que, a um só tempo, cria e nutre as identidades políticas. Não há um “social” a preceder o “político”. Ambos estão constantemente em construção, num processo doloroso e conflituoso, que não cessa de transformar o tecido social em um emaranhado de identidades políticas que disputam entre si. Como se pode então constituir um horizonte totalizante capaz de englobar as diferenças sem anulá-las? Eis a tarefa do populismo: articular esse antagonismo preponderante num conjunto em que as diferenças, em vez de se anularem, sejam equivalentes. Em termos vulgares, é como eleger um “adversário comum” contra o qual todas as identidades, embora diversas e múltiplas, se opõem conjuntamente sem se descaracterizarem.

Em geral, o populismo expele as elites para, em oposição a elas, criar a totalidade “povo” – que, na realidade, é composta de diferentes identidades antagônicas entre si. O lema We are the 99% (Somos os 99%), criado pelo movimento Occupy Wall Street, é tipicamente populista: exclui apenas os super-ricos da sociedade americana (1%), reunindo do outro lado as enormes diferenças (entre negros e brancos, homens e mulheres, classes subalternizadas e classes médias, nacionais e imigrantes) que, neste caso, se equivalem. A diversidade não se anula para sempre, e portanto existe tensão constante entre equivalência e diferença. O populismo, assim, viabiliza a construção de sujeitos populares e plurais – e permite que convivam. É fundamental notar que o populismo, tal como definido aqui, não prega a eliminação do adversário, nem transforma o conflito, embora constante, em violência organizada. Nesse sentido, o populismo é o contrário da revolução, que precisa exterminar o inimigo, fazer uso da violência organizada e aniquilar as diferenças.

O populismo não é nem demagogia nem ideologia – é uma lógica política. É um fenômeno complexo e mal compreendido pela tradição liberal (que não consegue apreender a noção de antagonismo) e pela marxista (que reduz o antagonismo ao conflito entre classes). Ambas reduzem a dimensão do político a um reflexo da perspectiva econômica. O populismo, pelo contrário, é constitutivo do político, e talvez seja a única forma de democratizar sociedades profundamente desiguais de maneira pacífica e participativa.

O discurso populista de Getúlio Vargas construiu o “povo brasileiro”. Ele conseguiu habilmente estabelecer equivalências a partir do caldeirão de diferenças – regionalismos múltiplos, trabalhadores urbanos, burguesia industrial, mulheres, negros, imigrantes europeus, entre outros. A partir dos anos 1930, o mito da raça cósmica, a fábula da democracia racial, conjugava reconhecimento a símbolos afro-brasileiros antes criminalizados – capoeira e candomblé – com a repressão às suas manifestações genuínas, nos ataques recorrentes de agentes do Estado aos terreiros. O governo tornou o samba – antes estigmatizado – um gênero oficial, enquanto privilegiou compositores e intérpretes brancos. A Nossa Senhora Aparecida, a Virgem Maria negra, tornou-se padroeira oficial do Brasil, mas, nos quase vinte anos em que esteve no poder, Getúlio Vargas jamais nomeou um ministro negro (à diferença do que aconteceu no Império e na República Velha).

A mesma ambiguidade se refletia no universo dos trabalhadores urbanos. Criou e expandiu os direitos trabalhistas, mas aumentou o custo de qualquer autonomia sindical e, para acalmar a burguesia industrial, desfechou uma duríssima repressão a qualquer manifestação orgânica. A contradição acabou por permitir a expansão de direitos a grupos subalternizados e a construção de novas elites empresariais, sem que houvesse uma ruptura drástica com a sociedade racista, classista, patrimonial e essencialmente agrária que habita este território desde os primórdios da colônia portuguesa. Getúlio fez a ponte entre o velho e o novo. E o velho só viria a vencer essa disputa em definitivo mediante o golpe de Estado em 1964. A verve populista está presente em todos os Getúlios – no chefe de um regime de exceção (1930-33), no presidente constitucional (1934 -37), no ditador impiedoso do Estado Novo (1937-45), mas está, especialmente, naquele que retorna do autoexílio e é reconduzido ao Catete nos “braços do povo” (1951-54).

O Brasil do pós-guerra vivia transições importantes. O país já não era o mesmo que Getúlio encontrara em 1930 e era, em parte, produto dos quinze anos do autoritarismo getulista: um país mais industrializado, com uma identidade nacional clara, uma população cada vez mais urbana. O ditador já não era mais querido pelas elites, pelo Exército, ou pela imprensa, mas a admiração dos trabalhadores persistia. Essa base política foi responsável pelo queremismo, movimento que desejava eleger Getúlio presidente em 1945. Durante todo o governo de Eurico Dutra (1946-50), o queremismo, já desarticulado, deixava seus rastros nas ruas e nos sons das nossas cidades. O “Ele Voltará!” pichado nos muros das cidades ecoava nas marchinhas de Carnaval, como Ai, Gegê,/que saudades que nós temos de você. Getúlio poderia ter sido o candidato consensual, que apenas apostava nas suas realizações passadas, na lembrança dos bons tempos em que o custo de vida era menor. Mas Getúlio decidiu realizar um deslocamento narrativo. Estabeleceu um adversário claro – “os poderosos”, aqueles que o afastaram do poder e não queriam a sua volta – e colocou-se como o candidato do “povo”.

Na entrevista concedida a Samuel Wainer em 1949, na qual Getúlio lança as bases de sua candidatura, o jornalista lhe atribui a seguinte afirmação: “Eu voltarei. Mas não como líder de partidos, e sim como líder de massas.” Insistia na imagem de que havia sido “excomungado” do jogo democrático pelos “poderosos”, sem nunca defini-los com clareza. Ao se analisar os slogans daquela campanha, fica clara sua intenção: “Princesa Isabel libertou os escravos em 1888, Getúlio libertará o povo brasileiro em 1950.” A imprensa e o patronato temiam a constituição de uma república sindicalista, medo alimentado cuidadosamente por Getúlio e que se delineava como horizonte possível para os trabalhadores. (Em discurso aos trabalhadores num Primeiro de Maio, disse: “Hoje, estais com o governo. Amanhã sereis governo”.) Ao longo desse período, todos os atos eram destinados ao “povo brasileiro” e “aos trabalhadores”, a começar por seus discursos, sempre cerimoniosamente dirigidos aos “trabalhadores do Brasil”. Na carta-testamento, os “poderosos” são os responsáveis pela sua morte e o fizeram por ódio ao “povo/trabalhadores”. O suicídio desmantelará o golpe que estava em curso e garantirá uma sobrevida ao populismo getulista por dez anos, período de emergência de novas identidades políticas, construídas sob o antagonismo entre “poderosos” e “trabalhadores”. Uma democracia nascente, de alta intensidade, devidamente eliminada por duas décadas de repressão, que mudariam o rumo do país.

 

O populismo democrático, esse antídoto capaz de derrotar Bolsonaro, deve se inspirar em Getúlio. Deve incorporar valores e vocabulário cristãos, sem abrir mão da ética republicana. Deve articular novas identidades e novas demandas sociais, sem abrir mão das antigas. Deve brotar de todos os fragilizados vitimados pelos fortes: sejam eles humanos ou não humanos (os animais vitimados pelos incêndios no Pantanal, os biomas destruídos pelo desmatamento). Deve emergir daqueles que, despossuídos de sua dignidade, sequer são nomeados pelos opressores, que estão presentes em diferentes momentos da história, eternizados em canções, romances e epístolas. Deve, em suma, reunir os “descamisados” dos discursos de Evita Perón, os “proletários” do Império Romano, os “últimos” do cristianismo.

O Populismo dos Últimos poderá derrotar o Bolsonarismo. O primeiro passo é redefinir a política a partir de uma renovada dicotomia “povo versus elites”. Não pode ser uma reedição do conflito “trabalhadores versus poderosos” de Getúlio, como Lula sugeriu no discurso de 10 de março. O trabalhador ao qual o ex-presidente se refere é o trabalhador do Getúlio: chefe de família, católico e com emprego estável. Esse trabalhador é minoritário hoje, do ponto de vista sociológico, demográfico e simbólico. O processo de desindustrialização, a inserção do país no mercado global como produtor de commodities, as mutações das relações de trabalho e as inevitáveis flexibilizações na legislação trabalhista tornaram o trabalhador getulista uma minoria pouco representativa da população economicamente ativa. Ainda mais importante, a aspiração da população mudou. Já deixamos de ser um país uniformemente católico, somos cada vez mais evangélicos. Embora a Consolidação das Leis do Trabalho ainda seja um objeto de desejo, bem como a estabilidade de um emprego público, cresce o número de brasileiros que preferem abrir seu próprio negócio – seja devido à escassez de vagas de CLT ou de concursos públicos, seja pela vontade de ter autonomia, horário flexível e não ter um chefe.

A população economicamente ativa é cada vez mais caracterizada por empreendedores, autônomos em situação precária: são membros do emprecariado, termo cunhado pela equipe do GregNews, o programa satírico do humorista Gregorio Duvivier. O emprecariado é formado pelos motoristas e entregadores de aplicativos, os ambulantes, os trabalhadores informais, o pequeno agricultor, os garimpeiros e tantos outros. Na última década, ganharam força outros conflitos sociais, que ultrapassam o antagonismo tradicional entre capital e trabalho e aglutinam outras demandas sociais. Nunca os movimentos negro, feminista, indigenista e LGBTQIA+ estiveram tão fortes e articulados. Como então formular uma dicotomia que organize esse “povo” a partir de tantas identidades diversas? Quais significantes vazios devem ser formulados a fim de reunir e conjugar essas diferenças numa cadeia de equivalência?

Nesse ponto, vale observar e aprender com estratégias exitosas da extrema direita. O bolsonarismo conseguiu algo extraordinário: percebeu a dissolução do conflito do nível macro (capital e trabalho, povo e elites) e apostou no conflito da esfera do nível micro (indivíduo forte e indivíduo fragilizado e suas interações sociais). A extrema direita, ao contrário da direita tradicional, aparentemente leu Michel Foucault. Entendeu que o poder não está concentrado nas instituições políticas: está distribuído e presente em todas as interações sociais. O discurso de Bolsonaro é dirigido a todo aquele que tem poder, ainda que seja um poder dentro de uma situação subalternizada. É o dono da birosca que tem poder sobre o garçom, o pastor do bairro que tem poder sobre o fiel, o marido que tem poder sobre a esposa, o guarda da esquina que tem poder sobre o infrator, o motorista que tem poder sobre o pedestre e o ciclista, o cafetão que tem poder sobre a prostituta, entre tantos outros. Bolsonaro assobia para quem tem poder e sua mensagem é clara: não tenha medo de exercê-lo. Não haverá limites para a realização de qualquer impulso, desde que circunscrito nessa microrrelação. O trabalhador poderá descontar no corpo de sua esposa toda a opressão vivida na cidade, o garimpeiro poderá desmatar sem se preocupar em ser multado, o motorista está autorizado a desrespeitar as regras de trânsito impunemente, o homofóbico está liberado para ser violento com o outro por sua orientação sexual. A senhora de classe média que não deseja pagar hora extra para a empregada doméstica deveria poder fazê-lo livremente. O militar aposentado, que joga suas peladas no Aterro do Flamengo, poderá fazer piadas preconceituosas à vontade. O discurso bolsonarista opera na fronteira entre o indivíduo e as construções sociais que limitam os seus micropoderes no dia a dia. O governo de suspensão, aquele que trabalha para que nada seja feito, é dirigido a essas pessoas. Para que em toda interação em que haja desequilíbrio de poder, o mais fragilizado não possa recorrer às tradicionais construções sociais – o direito, as instituições –, enquanto o forte possa exercer seu poder sem freios. O bolsonarismo é pornográfico, é a promessa de um gozo pleno, sem coito interrompido, para todos aqueles que detêm algum nível de poder no país.

Não adianta lutar contra o bolsonarismo à base apenas de críticas e de oposição às suas políticas de governo, sempre mais orientadas para desfazer do que para fazer. É preciso deslocar-se ao nível das microinterações sociais e estabelecer uma nova fronteira, alternativa à explorada pela extrema direita. Aquele que é incensado sobre seu pequeno poder cotidiano – sobretudo o homem branco e hétero – deve ser lembrado das inúmeras interações sociais em que ele mesmo ocupa a posição de “fragilizado”. A nova fronteira deve ser estabelecida entre quem se esforça para superar as dificuldades da vida e quem simplesmente se aproveita do trabalho e do esforço alheios. Um é o batalhador. O outro é o encostado.

Em um país tremendamente desigual e violento, a grande maioria da população precisa superar-se constantemente para sobreviver. A mãe solteira que passa o dia fora de casa, perde horas no trânsito e cria os filhos em um bairro violento é uma batalhadora. E todos aqueles que criam essas dificuldades do cotidiano são uns encostados: o dono de empresa de ônibus que não melhora a frota, os donos de carros que congestionam o trânsito, o patrão que desconta o dia em que a mãe teve que cuidar do filho doente em casa. Encostado é o homem que se aproveita do tumulto do transporte coletivo para assediá-la, o traficante ou miliciano que entra na casa dos outros sem ser convidado, o guarda da esquina que manda descer do ônibus por causa da cor da pele. Os gays, trans, as negras e negros deste país são todos batalhadores. Sobrevivem ao racismo, ao machismo, à homofobia estruturais de nossa sociedade. E sobrevivem porque são batalhadores. Eis aí a cadeia de equivalência que falta para a articulação do populismo democrático, o Populismo dos Últimos.

O batalhador é um significante vazio que engloba os empreendedores precarizados, os trabalhadores informais, as mulheres, os negros, a população LGBTQIA+, os indígenas e também os trabalhadores formais. Trata-se de um termo que se refere ao esforço diário de cada um para superar suas circunstâncias. O esforço diário de uma mulher para superar o machismo, o esforço diário de um motorista de aplicativo para pagar o gás do carro, o esforço diário dos indígenas para preservar sua cultura e seu ambiente. O Brasil é um país difícil que só cria obstáculos. Só se sobrevive por aqui à base de muita luta, mui-ta batalha. Da mesma maneira, dentro das classes médias, existem batalhadores. Os empreendedores que inovam, os profissionais que pesquisam e buscam melhorar o conhecimento, os educadores que ensinam nas condições mais adversas, os profissionais de saúde que salvam vidas nos hospitais lotados por causa dos encostados de Brasília, e tantos outros. O encostado é todo aquele que goza de algum privilégio, que tira proveito da fragilidade do outro. O encostado é o que quer sempre levar vantagem, que quer ter direito ao gozo sem nunca ter que suar a testa. Ele geralmente cria obstáculos, lucra com as dificuldades impostas aos outros. O encostado é o rentista, o locador, o marido que abandonou a família, o funcionário público que se dedica a atividades de cunho privado, o policial abusador, o político corrupto. A categoria dos encostados não faz referência a classes sociais, mas a comportamentos em microrrelações de poder. Não se trata de se opor aos burgueses, apenas aos burgueses improdutivos. Não se trata de ser contra os militares, apenas aqueles que ficam ocupando cargos de civis para aumentar seu salário. Não se trata de ser contra os empresários, apenas aqueles que querem sonegar impostos, furar a fila da vacina. A oposição ao encostado faz com que todas as outras diversas identidades acima mencionadas se equivalham na figura do batalhador. Assim como a dicotomia “forte versus fragilizado” promovida por Bolsonaro é fluida – o forte em uma microrrelação pode ser o fragilizado em outra – a de “batalhador versus encostado” também o é.

Não há melhor exemplo de encostado do que a família Bolsonaro, do que os militares que ocuparam um quarto dos cargos comissionados de Brasília, do que os políticos do Centrão, do que os empresários que vivem de dízimo alheio. O bolsonarismo é integralmente feito de encostados: de gente que não gosta de trabalhar, que não produz nada de realmente útil para a sociedade, mas lucra nas costas dos outros. Bolsonaro é um milionário que nem herdou nem criou empregos na vida. Ficou rico com sucessivos mandatos parlamentares durante os quais usou todos os privilégios que lhe foram dados e explorou todas as brechas para sugar recursos públicos em benefício pessoal e de sua família.

O Populismo dos Últimos não pode se limitar a estabelecer essa dicotomia e usá-la apenas em suas falas. Precisa delinear um novo programa, uma nova visão de desenvolvimento capaz de contrapor-se ao cancelamento do futuro. No éthos securitário do getulismo, o trabalho formal era a porta de entrada para acessar direitos: renda estável, aposentadoria, acesso gratuito aos serviços de saúde, crédito. Hoje, diante da instabilidade do mercado de trabalho, da fragmentação das fontes de renda, das ameaças existenciais (mudanças climáticas, catástrofes naturais, pandemias) que pairam sobre a humanidade, e sobretudo sobre os mais fragilizados, é necessário criar o éthos da cuidadania. Para que possam ter êxito em sua batalha cotidiana, os batalhadores precisam ter um mínimo de cuidado, de proteção. Saber que, se não puderem trabalhar por um mês, terão alguma renda. Se forem afetados por uma doença, não precisarão recorrer a uma clínica de péssima qualidade, mas terão uma saúde pública verdadeiramente universal. Para que possam empreender, os batalhadores precisam saber que, se tropeçarem, não cairão no abismo. É necessário garantir a cuidadania para todos: que todos sejam devidamente cuidados de maneira igual quando estiverem em situação de vulnerabilidade. As conquistas do passado – como a CLT, o décimo terceiro salário, a Previdência nacional, o seguro-desemprego, o seguro–saúde coletivo, o acesso fácil ao crédito – são insuficientes para enfrentar os desafios que o futuro reserva. A gama de direi-tos que pode garantir o cuidado necessário é da ordem da universalidade e da gratuidade: renda universal, saúde universal, mobilidade universalizada…

Com base na cuidadania, pode-se constituir um projeto de desenvolvimento para o país que coloque os fragilizados – inclusive os não humanos – no pelotão da frente. O Brasil só deixará de ser uma imensa República Dominicana quando priorizar o que temos de mais frágil e mais potente – nossa imensa floresta de pé, nossos biomas preservados, mitigando o aquecimento global e prestando serviços ambientais para o mundo. Nosso projeto de desenvolvimento deve encampar de fato a profecia segundo a qual os últimos serão os primeiros. Pois, só os últimos – as mães solteiras, os entregadores de aplicativo, os indígenas que preservam nossa floresta, a flora e fauna que insistem em se renovar apesar do fogo e do mercúrio – poderão viabilizar e renovar o projeto de Getúlio Vargas de constituir um Brasil soberano e independente.

 

Na piauí de abril, em um excelente artigo, Engolindo os miúdos, o jornalista Fernando de Barros e Silva disse que Lula em 2022 se parecia a Getúlio de 1950 e relembrou a eterna marchinha do Bota o retrato do velho outra vez. As semelhanças entre os dois personagens e suas circunstâncias são inegáveis. Getúlio estava autoexilado e afastado da política após ter sido vítima de um golpe de Estado impetrado por generais fascistas, seus principais sócios no Estado Novo. Lula foi também traído por grande parte da classe política brasileira, pelo empresariado, setores que seu governo engordou de maneira obscena. Esteve preso e foi afastado da vida política do país. Em seu discurso do dia 10 de março, Lula dizia não ter ressentimento de ninguém. Na famosa entrevista de 1949, Getúlio perguntava: “Perdoar o quê? Todo mundo sabe que eu não guardo ódios nem rancores contra ninguém, nem tenho contas a ajustar com quem quer que seja.”

O Brasil de então era também governado por um militar oligofrênico, que adotara uma política subserviente aos Estados Unidos e jogara no lixo tudo aquilo que fora construído nos quinze anos anteriores. Dutra destruiu em quatro anos o que Getúlio construíra em quinze. Bolsonaro vem tentando destruir em um mandato de quatro anos tudo o que o Estado brasileiro construiu nos últimos 199 anos. A imprensa da época guarda semelhanças com a atual. Era tremendamente antigetulista e tinha medo dos populistas de polos opostos: Adhemar de Barros, então governador de São Paulo, e o próprio Getúlio. O establishment político, então como agora, buscava desesperadamente um candidato de “centro” para se opor a Adhemar e a Getúlio – embora uma aliança entre UDN e PSD jamais pudesse resultar em um candidato de centro, e sim em uma direita antipopular.

Embora existam semelhanças entre 2022 e 1950, nenhum presidenciável de hoje está perto de reencarnar Getúlio Vargas. Nenhum possui o mesmo sentido da História que o Velhinho tinha. Os pré-candidatos João Doria, João Amoêdo, Luiz Henrique Mandetta, Danilo Gentili e Sergio Moro são, cada um à sua maneira, variações de um udenismo radical e antipopular. Jamais poderiam assumir essa responsabilidade. Luciano Huck, Alexandre Kalil, Guilherme Boulos e Ciro Gomes teriam potencial para eventualmente vestir os sapatos de Gegê, mas precisam se afastar urgentemente do discurso iluminista ao qual Bolsonaro os condenou. Não no sentido de negar os valores básicos da civilização, apenas não fazer deles o centro de seus discursos. Dentre todos, Lula é o que estaria em melhores condições para incorporar o discurso do Populismo dos Últimos, pois sua história de vida é a de um batalhador. Um retirante, filho de analfabetos, que lutou para sobreviver, conseguiu ter um emprego estável como operário. Empreendeu civicamente, tornou-se um extraordinário líder sindical. Na sequência, montou um dos maiores partidos políticos do país. Perdeu três eleições presidenciais, mas não desistiu. Ganhou duas e elegeu sua sucessora. Foi preso, impedido de concorrer, desceu aos infernos, e agora começa a renascer. Lula encarna muito mais o batalhador do que o trabalhador getulista. Assim como Bolsonaro encarna muito mais o encostado do que o patrão ou o “poderoso”.

Para incorporar esse discurso, no entanto, Lula precisaria operar uma mudança radical: ver que o “povo brasileiro” está por reconstituir-se, que o Brasil de hoje é muito diferente daquele de 2002. Precisaria abandonar de vez os encostados que sugaram as conquistas de seus governos (empresários ineficientes que prosperaram à base da “bolsa empresário”, políticos corruptos que engordaram com o mensalão e o petrolão) e admitir que ele próprio errou – nos escândalos de corrupção, na escolha da sucessora, na construção de Belo Monte, entre tantos outros erros. Mas, acima de tudo, para ser o líder do Populismo dos Últimos e o antídoto contrarrevolucionário a Bolsonaro, à imagem e semelhança de Getúlio, Lula deveria retornar “não como líder de partidos, e sim como líder de massas”.

Miguel Lago

Miguel Lago

é diretor executivo do IEPS (Instituto de Estudos para Políticas de Saúde), co-fundador do Nossas e professor adjunto da Universidade de Columbia.

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