esquina

À beira do xeque-mate

Um clube de xadrez em crise

Daniel Salles
IMAGEM: ANDRÉS SANDOVAL

Luismar Brito considerou alta a probabilidade de achar ao menos um oponente naquela quarta-feira abafada do inverno paulistano. “Se chove ou faz frio, as chances são mínimas”, explicaria depois. Eram quatro da tarde quando ele avançou até o número 154 da rua Araújo, a uma quadra do célebre edifício Copan, no Centro da cidade. Ao me avistar perto do elevador, julgou estar com sorte e esboçou um sorriso. “Vai para o clube?”, indagou, medindo o possível adversário de cima a baixo. Informado de que se tratava de um mero repórter a trabalho, desmanchou o sorriso. Recuperou o ânimo assim que desembarcou no 3º andar do predinho e ouviu uma conversa. Mas se decepcionou novamente tão logo percebeu que era apenas Marcos Bertolete, o secretário da agremiação, ao telefone. Como de hábito, o Clube de Xadrez São Paulo se encontrava às moscas.

Espalhadas sobre um carpete que imita um tabuleiro, nas cores mostarda e roxo, as quase cinquenta mesas da instituição centenária só costumam acomodar uma quantidade razoável de enxadristas às sextas e aos sábados. É quando ocorrem os torneios regulares, que rendem 100 ou 200 reais de prêmio e arrebanham, em média, trinta competidores. Para participar, quem não é sócio precisa desembolsar 10 ou 15 reais. Os associados, que devem contribuir com uma mensalidade de 40 reais, ficam isentos da taxa nas disputas de sexta e pagam somente 5 reais nas de sábado. Resumem-se a vinte gatos pingados – na lista de sócios, constam outros oitenta nomes, que não estão com as contas em dia ou nunca dão as caras.

O clube viu o jogo virar umas três décadas atrás, mal as partidas online de xadrez ganharam terreno. Antes, nos anos 70, a entidade viveu momentos gloriosos. Três dos quatro andares do prédio se destinavam à prática do esporte, um deles com direito a restaurante e barbearia, para a sorte dos mais de 800 associados da época. “Os executivos faziam a happy hour ali e até traziam as esposas”, contou Bertolete, um quase sessentão que usa óculos de armação grossa e se aloja numa salinha em frente ao elevador. Frequentador do espaço há vinte anos, assumiu o posto de secretário há sete. “Quando aceitei o cargo, o lugar estava em petição de miséria”, relembrou. Bonachão, passa boa parte do expediente assistindo a filmes no YouTube. “A coisa andava tão ruim por aqui que não tinha computador nem wi-fi, e a iluminação era péssima.”

 

Fundado em junho de 1902 por um grupo de alemães, o clube se localiza no atual endereço desde novembro de 1960. Tirando o estacionamento, todo o edifício pertence à associação. Foi doado por um grupo liderado pelo mineiro Márcio Elísio de Freitas. O advogado e enxadrista, que presidiu tanto a agremiação quanto a Confederação Brasileira de Xadrez, morreu em 1988. Hoje quem comanda a entidade é seu filho, o empresário Celso Villares de Freitas.

Como os sócios rarearam e as contas se tornaram difíceis de saldar, a instituição agora se limita a um andar. Os outos três estão nas mãos de inquilinos. O primeiro é ocupado pela Academia Paulista de Esgrima. No piso acima, funciona um templo maçônico e, no último andar, o estúdio do fotógrafo moçambicano Zee Nunes, especializado em moda. A vizinhança convive em aparente harmonia e, segundo consta, nenhum esgrimista ou maçom se converteu em enxadrista ou vice-versa.

 

Paraibano de João Pessoa, Luismar Brito não leva o jogo propriamente na esportiva. Ganha a vida com eventuais prêmios de torneios e ensinando as manhas do tabuleiro para seis alunos por semana. “Está cada vez mais difícil arranjar novos”, queixou-se, enquanto se acomodava numa das mesas do clube. “Quem vai querer professor quando dá para aprender tudo pela internet?”

Os cabelos brancos e as bochechas caídas de Brito não negam seus 63 anos. Ungido mestre pela Federação Internacional de Xadrez, começou a manejar os peões ainda criança, por influência de um avô. Desde então, não parou mais de competir. Na década de 70, quando já ostentava o título de campeão paraibano, tentou a sorte no Rio de Janeiro e em São Paulo. Depois, resolveu morar nos Estados Unidos, onde venceu o concorrido torneio National Open, de 1984, em Las Vegas. Também passou temporadas na Inglaterra e na Austrália. De volta ao Brasil, conviveu com enxadristas famosos, como o gaúcho Henrique da Costa Mecking, o Mequinho, que chegou a ser o terceiro melhor do mundo.

Brito sempre torceu o nariz para o avanço da informática sobre o xadrez, embora reconheça suas vantagens. “O computador nos ajuda a estudar e a corrigir as jogadas, além de permitir que enfrentemos oponentes de diversos países sem sair de casa. É por isso que o esporte vem evoluindo tanto.” Mas disputar partidas com o próprio computador não o anima. “Qual a graça? A gente cansa; a máquina, não.” Ele se recorda bem do mítico jogo entre o enxadrista Garry Kasparov, nascido no Azerbaijão, e o Deep Blue, computador que podia calcular 200 milhões de lances por segundo. Desenvolvido pela IBM, o cérebro eletrônico derrotou o campeão mundial em maio de 1997. “Foi um choque. Não achei que Kasparov perderia.”

O azerbaijano, que já visitou São Paulo, nunca pisou na sede do clube, diferentemente de outras lendas da modalidade, como o cubano José Raúl Capablanca e o franco-russo Alexander Alekhine. Apesar de não pertencer à constelação das grandes estrelas, Brito sabe que suas conquistas lhe conferem status de autoridade. Não à toa, desfruta de alguns privilégios na agremiação. Um deles é o de frequentá-la sem ser associado. “O clube sai ganhando em me ter como habitué”, resumiu, à medida que tirava da bolsa um velho notebook. Já que ninguém mais apareceu naquele dia, passou a tarde jogando contra um japonês que nunca viu na vida.

Daniel Salles

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