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Big brother ludopédico

Banco de dados americano ataca no futebol

ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2007

Ecoando pelas paredes da bela cobertura da rua Rosselló, em Barcelona, o arrebatamento de David Paños, um jovem de voz firme, cumpre dupla jornada semântica: cojones!, porque o Real Madrid acaba de perder um gol (feito) para o rival Atlético de Madrid; cojones!, porque o doloroso processo de lamentar a oportunidade perdida levou Paños a desperdiçar segundos preciosos do trabalho que está – ou deveria estar – fazendo: transformar em números os lances da partida que acompanha.

Um trio circunspecto de holandeses faz uma mímica coletiva de quem desaprova o ardor clubístico do espanhol. Mas eles relevam, menos mal (visto serem os três os chefes do sofrido torcedor). Estão em Barcelona para deslanchar o projeto que comandam desde junho: a implementação da versão européia – e futebolística – da Stats, empresa americana fundada em 1981, “principal provedora de análises estatísticas esportivas e informações gerais sobre o esporte”, como informa o site. Em Barcelona, a austera ética protestante cedeu o passo ao destempero de aficionados latinos. Os mais novos funcionários da Stats berram, bebem cerveja e comem pizza com as mãos – sem guardanapo – enquanto dão expediente.

A empresa nasceu num subúrbio de Chicago para servir aos torcedores de beisebol, esporte em que as estatísticas são destrinchadas com a mesma reverência hermenêutica que psicanalistas devotam aos escritos esotéricos de Jacques Lacan. A partir do beisebol, a Stats estendeu sua rede de coleta de dados aos outros esportes populares entre os americanos: basquete, hóquei no gelo e corrida de Stock Car. Dali, atravessou o Atlântico e chegou ao críquete, ao ciclismo, ao rúgbi e outras modalidades apreciadas pelos europeus. A Stats cobre anualmente cerca de 55 mil eventos em 85 campeonatos diferentes. Tem filiais no Japão, na China, na Índia e no México.

Faltava chegar ao futebol, que por lá – leia-se: por Chicago e adjacências – leva o nome de soccer, o que já diz bastante. Ao começar a tabular o esporte mais popular do planeta, a empresa precisou reavaliar a sofreguidão americana por dar à luz as mais ínfimas e recônditas estatísticas. “É divertido”, pondera Eric Castien, quase 2 metros de altura, líder do trio que comanda a Stats espanhola. “Os americanos ainda não entendem o futebol. O sistema de estatísticas deles é baseado no beisebol e no basquete. Eles contam absolutamente tudo, e estavam fazendo a mesma coisa com o futebol. Até quantos arremessos laterais tal time fez durante uma partida” – o que, convenhamos, é de uma desimportância cômica. Coube aos europeus adaptar o sistema, eliminando suas características mais patologicamente anais.

Recursos para reavaliar todo o sistema é o que não falta à Stats. A empresa tem como sócios, em partes iguais, a Associated Press, a maior agência de notícias do mundo, e a News Corporation, do australiano naturalizado americano Rupert Murdoch. A sede européia se localiza na Holanda, com filiais em cinco países: Inglaterra, Itália, Alemanha, França e, agora, Espanha. A presença na América Latina ainda é tímida. A partir da Holanda, a Stats já coleta dados sobre a Copa América e a Copa Libertadores da América. Os campeonatos regionais só agora começam a ser objeto de escrutínio. Apenas o argentino, o Brasileirão e a Copa do Brasil estão sendo radiografados, mas longe dos campos, a partir dos escritórios americanos da companhia. “A Europa é um terreno para praticar. Queremos ver se é possível vender dados de futebol no mundo inteiro”, explica Castien. “Se for um sucesso, vamos expandir para a América do Sul.”

Agora mais calmo e vigilante, David Paños volta à sua tarefa. Cercado de colegas, todos na faixa dos 20 e poucos anos, prega o olho na TV. Nos intervalos dos jogos da Liga Espanhola, aproveita para tecer considerações sobre a atuação do Real Madrid contra seu rival municipal, o Atlético. No apartamento – não é propriamente um escritório – estão reunidos dezesseis rapazes e quatro moças. Cada um deles tem a obrigação de acompanhar uma partida por semana, tarefa que toma três horas. A paixão pelo futebol não faz distinção de gênero: homem ou mulher, todos xingam as paredes nas horas negras e podem dar cambalhota nos momentos de triunfo.

O grupo é o mesmo desde a terceira rodada do campeonato e segue uma razão “nacionais/estrangeiros” semelhante à dos clubes europeus: aproximadamente um terço é formado por não-espanhóis. Há um paraguaio, um colombiano, uma venezuelana, um argentino, um uruguaio, um italiano, um holandês e um brasileiro. Além de prestar contas a Castien, que fala um castelhano meia-boca, respondem também às outras duas executivas batavas, uma delas fluente na língua de Cervantes, a outra incapaz de dizer “Hola, ¿qué tal?”.

Paños se concentra. Trava uma batalha incansável contra a velocidade do jogo. Seu objetivo é perder a menor quantidade possível de informações sobre a partida que assiste ao vivo. O que escapar terá de ser recuperado com uma gravação em DVD. Usando um hermético software coalhado de termos técnicos em inglês, sua função é transferir para o servidor em Manchester o número exato de lançamentos, passes, cabeceios, chutes a gol, faltas, impedimentos, defesas, substituições e cartões ocorridos durante os noventa e poucos minutos do jogo. Tudo infernalmente detalhado: para cada gol, o tabulador deve registrar dados que ocupam três páginas virtuais.

E mais: há que especificar, lance após lance, de que parte do campo foi chutada a bola, por quem e com que perna, se ela descreveu uma curva para dentro (in swinging) ou para fora (out swinging), se o goleiro bateu roupa ou não, se a defesa falhou e até que tipo de coreografia idiota os jogadores encenaram depois do gol. Não se trata de um aspecto trivial. Entre os vários clientes da Stats está a fabricante de videogames EA Sports: descrever Ronaldinho dançando tango em vez de samba pode resultar em processos multimilionários.

A receita principal da Stats vem de gigantes das comunicações, como Fox Sports, Yahoo! e DirecTV, além das famosas casas de apostas (“só as legais”, esclarece Castien), para as quais a menor variável pode ser motivo de júbilo ou desgraça. Segundo estimativas de Castien, empresas como a austríaca Bwin, a espanhola apuestas.com e a americana sportsbetting.com respondem por cerca de 30% do faturamento da companhia. Todo cuidado é pouco. Como se aposta em rigorosamente tudo – desde qual jogador fará o primeiro gol até qual deles receberá o primeiro cartão amarelo –, qualquer dado omitido ou mal computado faz diferença.

Pode-se imaginar a confusão. O torcedor se descabela porque seu time levou uma bola na rede, o funcionário da Stats se descabela para passar as informações sobre o lance com o máximo de rigor e rapidez e o apostador se descabela porque foi Fulano, e não Sicrano, quem encaixou a bola no ângulo. Como nada impede que o torcedor, o funcionário da Stats e o apostador sejam a mesmíssima pessoa, produz-se na sala um coquetel de desesperos.

“Acho um pouco difícil lidar com os dados. É um trabalho que exige muita atenção”, diz Sebastián Serrano, jornalista colombiano que trocou um emprego no seu país por uma temporada como freela na Stats barcelonesa. Serrano prefere se ocupar com outro serviço oferecido pela Stats, o de comentarista. Menos tenso e mais bem pago (10 euros a hora, contra os 8 dos geradores de estatísticas), o trabalho consiste em redigir “quatro ou cinco linhas a cada quatro ou cinco minutos” sobre o que está se passando em campo. O relato é transmitido imediatamente para o servidor, que o repassa aos sites clientes da Stats. Alguns brasileiros tentaram fazer incursões no território da descrição on-line. Suaram a camisa para absorver o jargão esportivo local e encontrar equivalentes castelhanos para expressões de densa especificidade semântica, tais como “ripa na chulipa” e “pimba na gorduchinha”.

À parte jornais esportivos e embalagens de comida pronta, espalhados pelo apartamento catalão há dez televisores recém-saídos da caixa e vinte computadores igualmente tinindo de novos, distribuídos entre produtores de dados e narradores virtuais da partida. Para desgosto e perplexidade dos holandeses, tanto o sistema pay-per-view como a internet nem sempre funcionam “Os principais problemas na Espanha são técnicos”, lamenta-se Castien.

Ele tem razão, como se comprova a cada nova rodada. A qualquer momento, sem aviso, instala-se a algaravia e é grito para todo lado. Depois de muita falação e de uma frenética incursão de dedos lambuzados de pizza pelas teclas dos controles remotos, desiste-se de assistir à partida pela TV e faz-se o acompanhamento por rádio – em transmissões caóticas, com três jogos narrados simultaneamente – e internet. No íntimo, nessas horas os sóbrios holandeses devem suspirar aliviados por não terem chefes oniscientes em Chicago. Os comentários adentram o território da ficção e as estatísticas se recolhem ao mais simplesinho: gols e cartões. Que o Altíssimo proteja os apostadores!

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