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Bom menino

Alexandre Schneider, o vice zen de Serra cuja sogra é petista

Carol Pires | Edição 71, Agosto 2012

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Duas dezenas de repórteres reuniram-se em torno de José Serra na sede do PSDB para ouvir por que Alexandre Schneider havia sido escolhido seu vice na disputa à prefeitura paulistana. Era a primeira segunda-feira de julho. “Não precisa anotar, não. Não tem nada de sensacional”, disse o tucano, constrangendo o coadjuvante da chapa. “Puxa vida, acabou com minha autoestima agora”, brincou o vice. O candidato emendou que, sendo ele mal-humorado, a Schneider cabia o papel de bonzinho. “Ele está sempre fazendo média, agradando a todo mundo.”

Alexandre Alves Schneider fala com voz suave, em tom baixo, o que contrasta com seu corpanzil, de 1,90 metro e 101 quilos. Tem 42 anos, mais jovem do que sugerem seus cabelos grisalhos. Formado em administração de empresas e mestre em gestão pública pela Fundação Getulio Vargas, foi presidente do diretório acadêmico da faculdade. Foi também guitarrista de uma banda cover de Tim Maia.

“Eu era um cara popular”, ele disse, logo se explicando: “Não por ter sido guitarrista; eu nem fazia muito sucesso com as mulheres. É que sempre fui meio zen. Tenho amigos que são professores universitários, executivos de banco, amigos do PSOL, até gente que era malufista. Eu gosto de gente.” A nota singela veio a seguir: “Minha sogra é petista”, contou, enquanto tomava um café em Perdizes, bairro onde mora.

Ex-fumante, Schneider é vegetariano e torce pelo Corinthians. Está no segundo casamento. Um de seus três meninos é palmeirense. Nascido no Rio, morou no Recife quando criança, mas passou a maior parte da vida em São Paulo, para onde a família se mudou em busca de atendimento para o irmão dois anos mais velho, vítima de um retardamento intelectual por falta de oxigenação no cérebro na hora do parto. Ele se define como “carioca e bem-humorado, como Fernando Henrique Cardoso”. Nos últimos anos, trocou o carro por uma bicicleta dobrável, o violão pelo sax e o PSDB pelo PSD.

Candidato havia apenas uma semana, e sempre pontual, Schneider aguardava José Serra na Vila Sônia, na Zona Oeste. Estava na casa do líder comunitário Djalma Fara, inventor de um sistema de alerta de alagamentos. Com uma hora de atraso, o tucano chegou de calça jeans e as mangas da camisa social dobradas. Ouviu histórias sobre os alagamentos e fotografou o anfitrião com o aplicativo Instagram do seu iPhone. Schneider acompanhou tudo com comedimento. Terminado o evento, o candidato foi embora em um sedã Hyundai preto e deixou o vice para trás, sem carona. Dias depois, Schneider justificaria sua discrição ao lado de Serra: “Em primeiro lugar, vice tem que não atrapalhar. Depois, se der, ajuda.”

Serra concorre à Prefeitura paulistana pela quarta vez. Conseguiu se eleger apenas em 2004, derrotando Marta Suplicy, do PT. No início de 2006, pouco mais de um ano depois de ter assumido o cargo, renunciou para concorrer ao governo paulista. Kassab, então vice, assumiu seu lugar. Era um desconhecido da população. Reelegeu-se prefeito pelo DEM e hoje é o dono do PSD, partido que ele próprio criou.

Schneider costuma ser acionado para acompanhar Serra ou para representá-lo nos eventos em que ele não pode ou não quer ir. Foi assim no segundo sábado de julho, pela manhã. Duas centenas de pessoas aguardavam no comitê político de um candidato a vereador, na Cidade Dutra, quando funcionários estenderam na entrada um tapete vermelho. Logo em seguida, chegaram o senador Aloysio Nunes Ferreira e Alexandre Schneider. Assistiam a uma roda de capoeira quando, pela primeira vez naquela manhã, uma mulher abordou o candidato. “Posso te fazer uma pergunta?”, perguntou. “Claro”, respondeu ele, solícito. “Esse aí do seu lado é o senador Aloysio Nunes?”

À tarde, no mesmo dia, Schneider andou de bicicleta ao lado de Serra, em Itaquera, na Zona Leste. O tucano fazia paradas abruptas, levando a comitiva a frear subitamente para evitar colisões. No meio do caminho, Serra decidiu seguir o trajeto a pé. Culpou o guidom da bicicleta, que estaria instável. Nesse dia, convocou Schneider para ficar do seu lado enquanto falava à imprensa sobre o Escola de Bicicleta – programa no qual 4,6 mil alunos são estimulados a ir para a escola em bicicletas fabricadas com bambu. Serra usava uma delas e deu o crédito a Schneider, ex-secretário da Educação de Kassab. “Se bem que ele não veio na de bambu, veio na dele”, emendou. O vice tinha uma bike inglesa da marca Brompton – no Brasil, custa em torno de 4 mil reais.

Schneider se aproximou dos tucanos trabalhando na campanha do ex-governador Mário Covas, em 1994. “Eu era o mais novo, fazia de tudo, inclusive tirar xerox.” Filiou-se ao partido e ocupou três secretarias estaduais: de Governo, de Transportes e de Segurança Pública. Ficou fora da política de 2001 até 2005, quando foi contratado como secretário adjunto de Aloysio Nunes na Secretaria de Governo do então prefeito Serra. No ano seguinte, foi nomeado secretário municipal de Educação.

“É um bom menino, com forte vocação política”, limitou-se a dizer Geraldo Alckmin. O governador e Kassab são rivais dentro do campo governista e disputavam a indicação do vice. O prefeito levou a melhor. No final do ano passado, quando ensaiou uma aliança com o PT de São Paulo, Kassab chegou a mencionar Alexandre Schneider como possível vice para o ex-ministro Fernando Haddad. Hoje, eles trocam acusações sobre a falta de creches na cidade. Na campanha de 2008, Kassab prometeu zerar o déficit de vagas. A secretaria de Schneider conseguiu criar 147 mil novas vagas, mas a fila dobrou de tamanho – em torno de 145 mil crianças ainda não têm onde ficar.

Afetando zelo, Schneider disse que “sabia até quando estourava uma panela na cozinha de uma escola” na época em que foi secretário. Num domingo recente, depois de participar de um culto evangélico na Lapa, deixou de lado o tom comedido e entusiasmou-se: “Eu acho demais ver as coisas e poder consertar. Se eu pudesse escolher um cargo, entre ser prefeito ou presidente da República, eu queria ser prefeito de São Paulo.” Serra não assinaria embaixo.