esquina

Bota veneno na comida dele

Pussies contra Trump

Branca Vianna
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2017

Os manifestantes da marcha das mulheres em Nova York no dia seguinte à posse do presidente Donald Trump deveriam, como os demais que protestariam pelo país, atender a dois quesitos: fazer inscrições on-line para agendar um horário de saída, marcado por ordem alfabética de acordo com o sobrenome, e usar gorros cor-de-rosa com orelhas de gatinho. O adereço era uma referência à palavra de duplo sentido pussy, gatinho e também xoxota – num vídeo vazado durante a campanha, o novo presidente se gabou de poder agarrar a pussy que quisesse, quando bem entendesse, por ser “uma celebridade”.

Nenhum combinado deu muito certo. Nem todo mundo estava de gorro rosa, e cada um chegou quando e aonde quis. A passeata parecia mais uma “estacionata”, cobrindo as vias de Manhattan desde a praça Dag Hammarskjöld, em frente à sede da ONU, na rua 47 com a Primeira Avenida, até a Trump Tower, residência da família presidencial, na Quinta Avenida com a rua 56. A prefeitura estimou o público em 400 mil pessoas.

Havia de tudo: jovens, velhos, crianças, brancos, hispânicos, asiáticos, negros, imigrantes recentes e de segunda geração. Muitas mulheres de meia-idade (as únicas que levaram a sério a história do gorro) que anunciavam “Meus braços doem de carregar este cartaz desde os anos 70”; “Não acredito que ainda estou protestando contra esta babaquice”.
E muitos ambientalistas alarmados com as indicações para cargos ligados ao tema. Um deles fez um cartaz explicando que sua mulher, uma cientista de clima, queria muito participar, mas não podia porque estava na Antártida estudando “a fraude perpetrada pelos chineses”, numa menção ao notório tuíte do novo presidente sobre a mudança climática.

Viam-se grupos LGBT e de mães contra o porte de armas; os Sindicatos Contra a Guerra, que reúnem 160 associações de professores, siderúrgicos, motoristas, operários de montadoras, servidores públicos etc. contra as guerras no Iraque, Síria, Afeganistão “e qualquer outra que o novo presidente venha a declarar”. E também representantes das “Cidades-Santuário”, municípios que se recusam a usar recursos da prefeitura ou a força municipal contra imigrantes ilegais. Nova York é uma delas.

Os cartazes eram predominantemente sérios e lembravam protestos feministas de décadas passadas, proclamando “Meu corpo/útero/ovários/pussy me pertence”. Um dos slogans mais populares foi “Os direitos das mulheres são direitos humanos”, frase tirada de um discurso de Hillary Clinton durante uma reunião da ONU em Pequim, em 1995. Ainda assim, Clinton parecia ausente da manifestação. Eu vi apenas um cartaz declarando “Ainda estou com ela”, alusão ao lema da campanha da candidata (“Estou com ela”). Os que usaram a divisa escolheram não fotos de Clinton, mas da Estátua da Liberdade. Martin Luther King, a ativista Angela Davis, a feminista Gloria Steinem e até Yoda, o mestre Jedi de Guerra nas Estrelas, tiveram frases suas evocadas e receberam os devidos créditos. A de Clinton, sobre os direitos das mulheres, não lhe era atribuída nem no site da marcha.

 

Desde o início o protesto foi marcado por controvérsias. No dia 8 de novembro passado, à medida que ficava claro que Donald Trump ganhara as eleições, a advogada aposentada Teresa Shook, moradora do Havaí, branca e avó de quatro netos, publicou no Facebook um post incitando as mulheres a ir até Washington protestar no fim de semana da posse. No dia seguinte, 10 mil pessoas tinham confirmado presença. A designer de moda Bob Bland, também branca, postara uma ideia semelhante, e logo as duas uniram esforços.

Acusações de racismo e exclusão começaram quase de imediato: ambas eram brancas e o nome do evento, “Marcha de 1 Milhão de Mulheres”, ecoava marchas históricas do movimento negro, bem como o comício em que o reverendo Martin Luther King fez o discurso “Eu tenho um sonho”, em 1963. O problema foi parcialmente resolvido mudando-se o nome para “Marcha das Mulheres” e convidando para o comitê organizador muçulmanas, hispânicas e negras. Disputas acirradas entre as ativistas por reivindicações específicas de cada grupo continuaram até o final, resultado da imensa diversidade do movimento de mulheres. Houve polêmica também entre feministas pró e contra o aborto, ainda que todas fossem anti-Trump. Grupos antiaborto acabaram não sendo convidados a participar.

Nas ruas, no entanto, a polêmica não fez muita diferença. Ninguém parecia se importar se as reinvindicações eram mais aborto ou menos violência policial, igualdade de salários ou imigração. Muitos queriam apenas debochar do novo presidente, com seu topete, suas mãos supostamente pequenas, seu bronzeado laranja. Uma moça carregava um cartaz que aconselhava assassinato mesmo: “Melania, bota veneno na comida dele.”

Muita gente se aproveitou das palavras de ordem da campanha de Trump, “Faça da América novamente um grande país”, substituindo “grande país” por “um país gentil”, “um país pensante”, “o país dos fatos”. O tema do amor ao próximo também pipocou bastante: “Devemos nos apoiar e amar uns aos outros”; “Nunca destrate um desconhecido”; “Estenda a mão a um estranho”; “O amor será vitorioso” e “O amor vence o ódio”, o último brincando com o nome do presidente – o verbo to trump significa vencer, ser o trunfo.

No final da marcha, na esquina da rua 57 com a Quinta Avenida, pertinho da Trump Tower, um homem negro, eleitor de Trump, vestindo o característico boné vermelho com o lema da campanha, segurava um cartaz no qual se lia “Trump 45o presidente: Vai se acostumando”. Estava acompanhado de seus filhos, uma menina de uns 12 anos e um menino que aparentava ter uns 9, este com um cartaz declarando “Trump é o meu presidente”. O pai era atacado pelos manifestantes que tentavam chegar à Quinta Avenida, completamente tomada. Gritos de “vendido”, “vai ouvir a Ku Klux Klan”, “preto subserviente”, “você está envergonhando seus filhos” eram rebatidos por “vai pedir à sua avó que te conte o que os seus antepassados fizeram com os meus, seu pirralho abusado”.
O rosto do menino era um misto de vergonha e incompreensão. A menina parecia genuinamente alarmada com o tumulto, que ficava cada vez mais hostil.

Ia juntando gente, os discursos se inflamavam, a família foi sendo imprensada contra a parede da joalheria Tiffany e não aparecia ninguém para acalmar os ânimos, nenhum segurança do prédio, nenhuma turma do deixa-disso. O eleitor de Trump, por sua vez, não se intimidava. Os manifestantes, alguns dos quais com cartazes sobre a vitória do amor, xingavam o homem aos urros e perguntavam o que ele faria se Trump tentasse agarrar a pussy de sua filha. Os olhos arregalados da menina lembravam um animal diante do predador. O pai gritava que finalmente chegara a hora de ganhar dinheiro naquele país. Os outros, negros e brancos, berravam que o eleitor não conhecia a história nem do país nem do seu candidato, e que, embora negro, ele só podia ser racista ou ignorante. A cena deixou a impressão de que, no final de um dia de catarse e celebração da diversidade, diante da real diferença a gentileza ainda tem um longo caminho pela frente

Branca Vianna

Linguista e intérprete simultânea, é fundadora e presidente da Rádio Novelo e apresentadora do podcast Maria Vai Com as Outras, da piauí

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