esquina

Boteco engajado

O novo reduto da esquerda carioca

Julia Sena
ILUSTRAÇÃO: Andrés Sandoval_2019

O relógio marcava 17h16 quando os primeiros clientes começaram a chegar ao bar, três minutos após a abertura. Uma turma de amigos escolheu uma das mesas da varanda para poder contemplar a vista panorâmica do pôr do sol, do alto do Morro do Pinto, no Centro do Rio de Janeiro, onde fica o estabelecimento. Enquanto os dois homens do grupo se acomodavam nas cadeiras de madeira, a mulher sacou o celular e se dirigiu à área interna para fotografar as paredes grafitadas com flores gigantes e, no meio delas, escrito com as sete cores do arco-íris, o apelo “Lula Livre”.

O Bar do Omar é o novo ponto de encontro da esquerda carioca – e por isso mesmo só abre as portas às cinco horas e… treze minutos, para lembrar o número eleitoral do PT. “Nós democratizamos um espaço de esquerda. Deixou de ser aquela coisa bairrista, como a Praça São Salvador”, defendeu Omar dos Santos Monteiro Júnior. O jovem negro de 29 anos, mais conhecido como Omarzinho, aludia a outro local de reunião da esquerda, no bairro de classe média de Laranjeiras, na Zona Sul.

Frequentado por pobres e ricos, o Bar do Omar passou a receber também a visita de personalidades do meio artístico, como Camila Pitanga, Roberta Sá e Humberto Carrão. “A Pitanga chega aqui, coloca a bolsa em cima do freezer e vai pra roda sambar. É lindo ver”, disse Omarzinho. O sonho dele é deparar um dia com Chico Buarque entrando pela porta do estabelecimento.

O bar começou a atrair gente da esquerda desde que a artista visual Rafa Mon grafitou a parede com o nome de Lula, em julho de 2018. O número de frequentadores aumentou ainda mais depois que Omarzinho postou nas redes sociais a nota emitida no local, que traz as seguintes frases impressas: “Um bar pode ter opinião política, um juiz não. Moro lesa-pátria #LulaLivre # BarDoOmar #Democracia.” É uma referência às conversas do juiz Sergio Moro com os procuradores da Lava Jato, divulgadas pelo site da agência de notícias The Intercept Brasil.

O post com a imagem da nota fiscal entusiasmou algumas pessoas, mas outras não esconderam a irritação. “Esse é um bar que eu nunca colocarei os pés”, escreveu @bruno_cruz123 no Twitter. E @contatocentral arrematou: “Acho que este bar vai fechar por falta de clientes, e depois vai colocar a culpa no mito… kkk.” Por outro lado, @debarrosalda disse: “Já quero tomar uma cerveja nesse bar. Boteco com consciência política é outro nível.”

 

Omar Monteiro era vigia de banco quando teve a ideia de colocar à venda os gostosos hambúrgueres que preparava para os filhos, Omarzinho e Mariana. Arrendou um bar no bairro Santo Cristo, onde fica o Morro do Pinto, e o manteve por dez anos. Foi o embrião do estabelecimento atual, construído no quintal de sua casa.

Entusiastas de Leonel Brizola, Monteiro e sua mulher, Ana Helena dos Santos, se desinteressaram pouco a pouco da política depois da morte do governador. Foi o filho que reativou no casal o gosto do debate. “Ele resolveu sair em defesa do PT e despertou nosso interesse, porque o Lula tem mais ou menos a mesma causa do Brizola. É um cara que olha pro povo, pra favela”, afirmou Monteiro.

Omarzinho, por sua vez, descobriu a política nas páginas do Manifesto Comunista, de Karl Marx e Friedrich Engels, que leu na época em que fazia administração – ele se formou em 2015, graças ao Programa Universidade para Todos. “Eu queria muito ter sido doutrinado quando jovem, mas só fui conhecer Marx depois de velho”, brincou. A irmã também encorajou a família a se posicionar politicamente.

Após o processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff, em 2016, surgiu a primeira manifestação política no bar, expressa em um grafite: “Fora, Temer.” A família chegou à conclusão de que deveria se posicionar contra o novo governo. “Aqui em casa é uma democracia, todo mundo vota”, ressaltou Omarzinho.

Em abril de 2018, ele decidiu levar seu posicionamento para as redes sociais, com uma postagem em apoio ao ex-presidente Lula. “Não tem quem me represente mais que o Lula. Eu não consigo ver uma pessoa com a mesma origem que eu se destacando na política”, disse.

Em razão do sucesso do bar, Omarzinho largou o emprego de analista de sistema e passou a se dedicar ao gerenciamento do negócio e de suas redes sociais, que juntas somam mais de 100 mil seguidores. A cozinha é comandada pela mãe e a irmã. “Tu já falou que quem manda na porra toda sou eu?”, gritou o pai, antes de se sentar ao lado do filho.

 

O professor pernambucano Felipe Neves descobriu o Bar do Omar em uma rede social, durante as eleições de 2018. “Comecei a seguir, porque acho muito divertidas as sacadas do Omarzinho”, contou. No dia 5 de setembro, quinta-feira, ele comemorava ali o aniversário do amigo Luiz Ferreira. “Marcamos de vir pro Rio no aniversário dele e unimos o útil ao agradável”, disse Neves.

Não é só o engajamento à esquerda que têm agradado os frequentadores: os tira-gostos do local também. Tanto assim que o bar foi selecionado para o Comida di Buteco, concurso dos melhores petiscos da cidade. Os acepipes mais pedidos são os bolinhos de abóbora com camarão e os de linguiça toscana com queijo canastra (cada porção com seis unidades custa 28 reais). O samba domina a trilha sonora, com apresentações ao vivo de diferentes grupos.

Um dia, Omarzinho fez um tuíte que dizia: “Agora vocês imaginem um evento no Circo Voador com todas as rodas de samba que acontecem aqui no Bar do Omar + todos os bolinhos que saem dessa cozinha + entrada a preço popular… seria foda, né?” Pouco tempo depois, foi convidado a levar os grupos que se apresentam no bar para um show no Circo Voador, uma das mais tradicionais casas de espetáculos do Rio. Duas mil pessoas estiveram no evento, que não teve motivação política. “Não vendemos Lula Livre. Ganhamos dinheiro com comida boa e cerveja gelada”, garantiu.

O bar no Morro do Pinto já estava lotado uma hora depois da abertura. De quando em quando, Omarzinho era procurado pelos garçons para resolver pequenos problemas. Ele deu um gole em sua cerveja e contou mais uma ideia que tivera: a Quarta da Mais-Valia. O bar, que só funciona de quinta a domingo, abriria também uma quarta-feira por mês e todo lucro obtido nesse dia seria dividido igualmente entre os funcionários. “Os empresários piram. Já pensou? Aí é que iam me achar louco mesmo.”

Julia Sena

É estagiária de jornalismo da piauí. Antes, trabalhou no FOX Sports Brasil

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