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    ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2007

esquina

Bouillabaisse olímpica

Asmáticos do mundo inteiro, uni-vos longe de Pequim

Dorrit Harazim | Edição 12, Setembro 2007

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A cada mês de setembro, num ritual que se repete há 58 anos, o gigantesco retrato de Mao Tsé-tung erguido na Praça da Paz Celestial, em Pequim, é retirado para reparos e substituído por outro, idêntico. A troca é feita na calada da noite, com resquícios de coisa proibida ainda hoje, 31 anos após a morte do Grande Timoneiro. Poucos notam alguma diferença entre a imagem que sai e a que chega, pois o Mao “novo” tem, inevitavelmente, a mesma face rosada, a mesma expressão congelada, o mesmo jaquetão cinza dos tempos imemoriais. Até outro dia, a troca em si era considerada segredo de Estado, e, dos pelo menos seis artistas que ao longo de meio século trabalharam no restauro anual, pouco ou nada se sabe.

A operação, que costuma ocorrer logo antes do feriado nacional de 1º de Outubro, se destina a sanar as marcas deixadas na tela pelos 365 dias de inclemente exposição ao ar livre. Assim, enquanto o retratão de altura equivalente a três andares (6,6m x 5,0m) é recolhido a um ateliê de aço sem janelas (e de acesso vedado ao público) para a sua temporada de restauro, a duplicata novinha em folha assume o posto e se torna o ícone mais fotografado do país. Mas a dialética não pára, e portanto, em agosto do próximo ano, quando se espera que dois milhões de turistas olímpicos adentrem os portões da Cidade Proibida, o olhar do Grande Timoneiro sobre a Praça Tiananmen já deverá estar embaçado, por obra de um inimigo interno que se multiplicou com a erupção econômica em curso no país: a poluição.

Quando Pequim ainda competia com Paris como finalista para sediar os XXIX Jogos Olímpicos, trapaças quase pueris – por exemplo, pintar de verde várias superfícies de concreto, na esperança de enganar olheiros olímpicos sugerindo-lhes que a cidade era bem fornida de natureza – foram relevadas em nome da propalada arrancada rumo à modernidade. Hoje as cores reais do progresso chinês rondam os organizadores, cujo pesadelo maior é a hipotética imagem de maratonistas correndo com máscaras de gás.

 

A Olimpíada tem a cerimônia de abertura marcada para as 8 horas da noite do dia 08 do mês 08 do ano 2008 do calendário gregoriano. Considerado pelos chineses o mais auspicioso dos números, o 8 recebe, assim, as honras máximas. Em contrapartida, espera-se que ele garanta ao colosso em construção a tão sonhada estréia mundial de gala. Fardo pesado demais, talvez, para um mero número. Se o governo chinês quiser ficar à altura das promessas feitas e das expectativas já consolidadas, terá de invocar outras cabalas.

Vale recapitular o mês 08 recém-transcorrido, e se precaver. Num espaço de duas semanas, equivalente à duração da Olimpíada, a imagem da China de sonhos do Ocidente sofreu um arranhão atrás do outro. Houve o recall dos 18 milhões de brinquedos vendidos à americana Mattel, que expôs a fragilidade de mão-de-obra barata; houve o incêndio do mais alto arranha-céu em construção no país (101 andares), erguido a toque de caixa em Xangai; houve o esfarelamento de uma ponte sobre o rio Tuo, às vésperas de ser inaugurada – uma das mais de 500 mil do país, construídas em grande parte nos últimos vinte anos; houve a inundação da mina de carvão com 181 mineiros presos a 860 metros de profundidade. Houve, sobretudo, a invasão e o quebra-quebra da sede da empresa Huayuan Mining, por enfurecidos familiares dos mineiros – esta, sim, uma rachadura inédita na armadura política do país.

O conjunto acende um incômodo alerta: e se os Jogos de Pequim, louvados por antecipação como os de maior esplendor da história, também mostrarem rachaduras?

 

 

Desde 2001 – ano em que a China conquistou a honra de ser a anfitriã do evento – a cidade e o país respiram obras olímpicas. A teia de metrô foi triplicada, ruelas residenciais foram engolidas por artérias de dez pistas, os visitantes desembarcam no novíssimo aeroporto projetado por Norman Foster, figura estelar da arquitetura britânica, e a doze meses do evento tudo está praticamente concluído na grandiosa Vila Olímpica movida a energia solar. Inclusive as 31 instalações esportivas tinindo de novas.

Por que, então, o americano Randy Wilber, especialista em poluição atmosférica e fisiologista sênior do Comitê Olímpico americano, tem tantas noites de insônia? Wilber já empreendeu seis viagens a Pequim no espaço de um ano, sempre com um monitor de qualidade do ar a tiracolo, e concluiu que a atmosfera é “sensivelmente pior” do que a de Los Angeles, padrão americano para poluição extrema. Como no mês de agosto chinês as temperaturas tendem a escalar os 40 graus, com a umidade relativa do ar beirando os 95%, as provas olímpicas que dependem de resistência “vão beirar riscos físicos”, diagnostica o fisiologista, que tem 600 atletas de alto rendimento sob seu comando.

A melhor definição da qualidade do ar em Pequim vem da revista Wired de agosto, que comparou a ameaça a um certo sopão de peixe muito apreciado pelos franceses: “uma bouillabaisse fotoquímica feita de fumaça de carvão, gosma de funilaria e canos de descarga, misturada a pó de concreto e assada no forno formado pelos morros que cercam a capital”.

 

Para o turista olímpico que começar a ter problemas respiratórios em Pequim, a corrida a uma farmácia será de rotina. Já na eventualidade de atleta acometido de ataque de asma induzido pela poluição do ar, o caminho da inalação do agente beta-2 trará dores de cabeça colossais aos organizadores dos Jogos. Estimulante que integra a lista de substâncias proibidas pelo Comitê Olímpico Internacional, o beta-2, se encontrado no exame de urina de um competidor, significa desclassificação automática – a menos que uma junta médica da entidade comprove nele uma legítima condição de asmático. No caso do fumacê de Pequim, a fronteira entre o falso e o verdadeiro pode se perder. Na colisão entre a China arcaica de funilarias de fundo de quintal e o colosso moderno que quer debutar com estrondo em 08 de 08 de 2008, também.

Dorrit Harazim
Dorrit Harazim

Jornalista, trabalhou nos principais veículos da imprensa brasileira e participou da criação da revista Veja e da piauí, na qual foi editora. Ganhou o Prêmio Maria Moors Cabot, da Universidade Columbia. É colunista de O Globo e publicou O instante certo

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