esquina

A bruxa de Port Alfred

Baleia vira amuleto na África do Sul

Amanda Lourenço
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2016

Foi provavelmente no verão de 2006, tanto quanto Susan Read consegue se lembrar, que encontraram a baleia. Ela e o marido, acompanhados dos três filhos pequenos, haviam decidido ir à praia, num pequeno trajeto de carro de sua casa, não muito longe do extremo sul do continente africano. Mal chegaram, e Read se deparou com a baleia estendida na areia. Já estava morta. A decisão que tomou a seguir lhe pareceu óbvia, naquele momento: levaria o corpo do cetáceo para casa.

A família era proprietária de 100 hectares de terra a 20 quilômetros da costa, na pequena cidade de Port Alfred, na África do Sul. Transportar a carcaça até lá não foi tarefa fácil. “Era o cheiro da morte, ninguém estava suportando”, lembrou Read, rindo. Arrastaram o animal pela praia até a caminhonete e, depois de muito esforço, conseguiram erguê-lo e equilibrá-lo em cima do veículo. Na estrada, os motoristas que vinham na direção contrária corriam o risco – bastante incomum, mesmo nas estradas da África – de levar uma rabada de baleia no para-brisa.

Todo esse esforço tinha uma razão: ossos de baleia, como todo mundo por ali sabe, potencializam e multiplicam os poderes das bruxas. Em sua casa, Read espalhou vários pedaços póstumos do animal pelo terreno. A peça principal, o arco do maxilar, serve até hoje de portal para a área da piscina. O crânio decora o jardim da frente.

“As pessoas por aqui dizem que sou bruxa”, explicou Read. Com seus olhos azuis, cabelos encaracolados e uma personalidade forte, ela parece mesmo uma mulher cheia de poderes. Aos 42 anos, tem a voz rouca dos fumantes inveterados, mas fala sempre de um jeito muito suave. Descendente de ingleses, estudou teatro quando adolescente e rodou o país na juventude, antes de ir parar em Port Alfred, para onde seu pai havia se mudado. Lá, conheceu um imigrante italiano, Roberto Josi, com quem se casou.

Além dos filhos que tiveram, Josi trazia outras cinco crianças do primeiro casamento. Houve uma época em que todos dividiram o mesmo teto. Hoje moram na fazenda apenas Read e os três filhos. O marido morreu há um ano. Os enteados cresceram e saíram de casa.

A vizinhança rural é composta por algumas dezenas de brancos, quase todos proprietários de terras, e pela numerosa comunidade Xhosa, o povo original da região. Na primeira vez que Susan Read teve um ataque de epilepsia, logo depois que ela e o marido se mudaram para lá, a notícia correu rápido: aquele é um dos sintomas mais claros para identificar bruxas. Read disse ter se divertido com as histórias que corriam. Não perdeu a oportunidade de oferecer um chá de ervas quando Lili, a faxineira xhosa que ainda trabalha na sua casa, ficou doente e não havia remédio que a fizesse melhorar. Depois que Lili se curou – obviamente um efeito do chá milagroso –, a certeza do poder da mulher branca casada com o italiano só aumentou na vizinhança. Seu jeito despachado, irreverente e barulhento contribuía para a fama. A chegada dos ossos de baleia pôs um ponto final em qualquer dúvida que por acaso ainda restasse na mente dos mais céticos.

 

A família de Susan Read sempre cultivou uma imagem misteriosa. Além da bruxaria, a vizinhança também desconfiava que eles fizessem parte da máfia. “Meu marido tinha uma compulsão por desobedecer leis”, ela contou, sem dar maiores detalhes. Sabe-se que, entre outras atividades ilegais de Roberto Josi, lhe apetecia dar carona aos negros durante os anos do apartheid, permitindo-se inclusive atravessar com eles os territórios em que os não brancos estavam proibidos de entrar. Josi também fumava muito e tinha sua própria plantação de maconha. Morreu de câncer na garganta. Mas Read não atribui a doença ao tabaco. “Ele tinha muitos segredos profissionais, sobre os quais não podia falar; dizem que nesses casos a garganta fica comprometida.”

Como em diversas outras áreas da África do Sul, o local onde ela e os filhos moram não é dos mais seguros. O vizinho mais próximo já foi assaltado uma dezena de vezes, assim como muitos outros em volta, mas a sua casa tem sido curiosamente poupada. “Nem tenho a chave da porta”, contou.

Na época em que o marido ficou doente, em 2014, Susan passou a trabalhar numa floricultura na cidade. Continua por lá, mas essa não é a sua única fonte de renda. A família dispõe também de uma segunda casa no terreno, que é alugada para turistas, atraídos pela vida selvagem africana. Da piscina, não raro os hóspedes conseguem avistar girafas passeando no morro em frente, separado da propriedade apenas por um riacho.

Na própria fazenda há antílopes, zebras e javalis-africanos. Volta e meia, Read captura um ou outro desses bichos e os vende para reservas privadas de caça ou de safári. “Os proprietários compram animais de outros lugares e os colocam no próprio terreno para os americanos acharem que estão caçando alguma coisa”, ela disse.

A moda da “criação” de animais selvagens na região é nova: há apenas vinte anos as mesmas fazendas estavam ocupadas por plantações de abacaxis e por rebanhos de bovinos. Mas com a alta do novo filão turístico, os fazendeiros encontraram uma forma mais fácil de ganhar a vida. Os animais selvagens são resistentes e não precisam de maiores cuidados – vivem soltos, nem sequer é preciso alimentá-los.

O resultado dessa conversão coletiva foi a demissão em massa de funcionários, quase todos xhosas, que trabalhavam nas plantações e nas criações de gado. Sem emprego, muitos enfrentam graves dificuldades financeiras na província mais pobre do país, a Eastern Cape, e não raro passam fome. Houve mesmo quem começasse a roubar e a matar os animais selvagens, apenas para se alimentar. Os assaltos às grandes casas da região também aumentaram. Durante uma conversa no início deste ano, Read admitiu o segredo de sua serenidade. “Meus ossos de baleia ficam bem à vista”, afirmou, sentada tranquila num banco da varanda, com um cigarro na mão. “Ninguém se mete com a gente.”

Amanda Lourenço

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