esquina

Bumbum aposentado

Loja de Gretchen em Paris vira atração para turistas brasileiros

Rodrigo Vizeu
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2013

Com o firme propósito de comprar um vidro de leite de coco, Flora Gouveia entrou numa loja de produtos brasileiros em Ivry-sur-Seine, subúrbio no sudeste de Paris. Postou-se diante do caixa para pagar, mas a dona da loja, Maria Odete Brito de Miranda, estava ocupada mostrando para uma funcionária um remix da música Freak le Boom Boom no iPad. Só então Flora percebeu que a comerciante atrás do balcão era a própria intérprete daquela música, Gretchen em pessoa.

Depois de 39 anos se apresentando em shows e programas de televisão, a cantora e dançarina decidiu encerrar a carreira artística e abriu uma mercearia além-mar. Em vez de rodar o Brasil dublando e rebolando ao som de sucessos como Conga, Conga, Conga, Maria Odete agora leva uma vida de dona de casa, sem empregada doméstica e cuidando dos três filhos que a acompanharam à França, de 3, 10 e 21 anos.

Numa conversa em sua loja, Gretchen explicou que o artista tem que saber a hora de se retirar. “Parei no auge, trabalhando e vendendo muito. Já fiz meu nome, nunca ninguém vai me esquecer.” Além do mais, acrescentou, aos 54 anos ela não poderá manter o visual “sempre desse jeito”.

A rainha do bumbum e do rebolado foi ao Brasil em setembro comunicar a decisão aos seus súditos em cadeia nacional, no programa de Luciana Gimenez. Mas seu site oficial continua oferecendo um número de contato para shows, por intermédio de um agente que cuida também das carreiras de Rosana, Elke Maravilha e de um cover de Chacrinha.

O esforço de Maria Odete pelo anonimato, porém, passa por provas constantes. A paranaense Elza Oliveira, de visita à filha na França, fez questão de ver a artista de perto. Tentou simular normalidade enquanto observava os produtos nas prateleiras, mas não conseguiu conter o choro. “É ela mesmo!”, emocionou-se. “Meu Deus, tô arrepiada, coração batendo forte.”

Gretchen já se acostumou ao assédio. “Isso é comum aqui, elas me adoram”, disse, sem modéstia. Apesar da placa em francês que proíbe fotos, ela aceitou fazer um registro com a admiradora. Seu visual, com maquiagem completa, relógio dourado e cinto Calvin Klein, parecia calculado para os momentos em que Maria Odete precisa voltar a encarnar Gretchen.

 

Na esquina das ruas Lénine e Jean-Jacques Rousseau, a loja Rio Brasil oferece tudo o que um imigrante saudoso precisa para aplacar o banzo: feijão, farofa, goiabada, guaraná, cachaça, sandália de dedo e palha de aço. Os itens mais procurados, segundo Gretchen, são picanha, batata palha, produtos para cabelo e rosquinhas Mabel. “Mas os campeões de vendas absolutos são os biscoitos Passatempo recheados.”

Aos sábados, a loja enche de brasileiros que vêm tomar cerveja nacional e assistir aos programas da Record pela TV a cabo. Numa segunda-feira recente, com o movimento menos intenso, Gretchen ficou à vontade para conversar, ver tevê e jogar no iPad um jogo parecido com Candy Crush.

Os clientes são brasileiros na maioria, mas a comerciante arrisca que um terço seja de nativos, o que a obriga a rebolar para falar francês. Não havia de ser trivial para quem já cantou em seis línguas, inclusive hebraico? Gretchen discordou. “Falar e entender são outros quinhentos”, ressaltou a cantora. Ela até mostrou certa desenvoltura com o idioma de Racine. “Mas é só o básico e são sempre as mesmas palavras”, disse, desta vez modesta.

Quando o francês empaca, ela apela para o marido, o português Carlos Marques, 52 anos de vida e 35 de França. Gretchen o conheceu em Portugal, para onde se mudara em setembro do ano passado, e decidiram se casar. Carlos morava na Côte d’Azur, onde tem uma empresa de construção, mas o casal encontrou um meio-termo e foi morar em Champigny-sur-Marne, a 16 quilômetros do Centro de Paris. Ali, estariam perto de um amigo da cantora que havia lhe proposto abrir a loja em Ivry, reduto de imigrantes brasileiros.

Carlos é um homem calvo que veste roupas justas e fuma cigarro eletrônico. Naquele dia, estava na loja ajudando Gretchen e não se opôs a falar do casamento – desde que não fosse abordada a vida pregressa da esposa. Mais tarde a cantora esclareceu: os assuntos tabus são o filme adulto que ela fez em 2006 e o número de seus casamentos – os sites de fofoca falam em até dezessete; ela se negou a fazer a conta.

 

Apesar de morar numa das capitais que mais atraem turistas no mundo, Gretchen não esconde seu desgosto por Paris. Reclama do frio, das porções miúdas da cozinha francesa e da predileção dos locais por salada. A moda parisiense, com calças, lingeries e biquínis pouco adaptados às beldades de quadril largo e cintura fina, também é alvo da contrariedade da brasileira. Mas ela não se deixa aborrecer demais com a situação. “Passei minha vida inteira fazendo coisas de que não gostava, morar em Paris é só mais uma”, disse. “E ainda é das mais tranquilas. A gente tem que fazer várias renúncias na vida.”

A temporada no estrangeiro fez a cantora valorizar os fabricantes nacionais. Vestindo uma calça “da marca das funkeiras do Rio”, Gretchen exaltou os méritos da indústria brasileira e contou que seus clientes preferem produtos Boticário e Natura aos perfumes e cosméticos franceses.

Gretchen nunca pôs os pés na Torre Eiffel e quem quiser contrariá-la só precisa fazer um convite para um programa turístico em Paris. “Não gosto de coisa velha, acho horrível château de não sei o quê, museu de não sei o quê, não sou muito de história.” A cantora não vê nada de romântico nas pontes sobre o Sena onde os turistas apaixonados adoram se fotografar. “Romântico é a gente ver a lua cheia de Itamaracá no verão.”



Rodrigo Vizeu

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