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Cabeça erguida, cidadãos!

Metrô de São Paulo distribui videopílulas de fisioterapia

Bruno Cirillo
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL

Por volta das 8h30 de uma quinta-feira de dezembro, num trem da linha norte-sul do metrô paulistano, entupido de gente, as lições de cidadania no transporte público veiculadas pela TV Minuto não atraem os passageiros. Contudo, pescoços se espicham quando, nos oito monitores do vagão, surge uma jovem cabisbaixa, andando tristemente por uma avenida qualquer.

O cenário é cinzento, assim como o estado de espírito da moça. Ela mal percebe que esbarra nos outros. Vista de perfil, de olhos fixos no chão, queixo enterrado no peito, a coitada parece um L invertido, lembra um ponto de interrogação. Nesse instante, a legenda adverte: Andar olhando para baixo lesa a coluna. Surge um homem de jaleco branco sobre terno e gravata. Afetuoso, ele contorna os ombros da mulher com o braço direito e, com a mão esquerda, levanta-lhe delicadamente o queixo, para então apontar a direção em que ela deve olhar – é para lá, para a frente. Ande com a cabeça erguida, exorta a legenda. A moça retoma seu caminho, agora com passos firmes, pescoço reto e o sorriso confiante dos que enxergam o horizonte. Alguns passageiros em pé esticam a coluna; outros, sentados feito sacos de batata, também se endireitam. Já sem o jaleco, mas sempre sorrindo com benevolência, o homem aparece sozinho na tela, enquanto a legenda informa que ele é fisioterapeuta, mestre, PhD e presidente do Crefito-SP. Tudo isso em exatos trinta segundos.

Na versão YouTube da cena, no alto da tela se lê um discreto www.gillucio.com.

 

Essa e outras nove videolições de fisioterapia – todas escritas, protagonizadas e coproduzidas por Gil Lúcio Almeida, presidente do Conselho Regional de Fisioterapia e Terapia Ocupacional de São Paulo – integram a programação diária da TV Minuto, empresa que explora os monitores dos 109 trens do metrô de São Paulo. São 5 232 telas de 17 polegadas, voltadas para cerca de 3,3 milhões de passageiros por dia. Por contrato, 50% da grade se destinam a transmissões comerciais e 25%, a vídeos institucionais sobre transporte público. O quarto de conteúdo restante deve ser diversificado e não comercial. É onde se encaixam os vídeos do fisioterapeuta.

O Crefito-SP tem endereço valorizadíssimo, numa paralela da avenida Paulista. “Nós éramos desconhecidos na sociedade. Hoje as pessoas vêm aqui e perguntam pelo andar do Crefito. Não é o andar, é o prédio inteiro!”, orgulha-se Gil Lúcio. Seu gabinete, no 10o. andar, é ornamentado por um quadro de um velho conhecido – Romero Britto –, que pintou para a entidade uma versão do famoso The Hug (O Abraço), uma multicolorida figurinha de braços abertos, sorridente, no estilo desenho animado, que distingue o artista. A obra será reproduzida na fachada do edifício.

Vestindo um terno preto risca de giz, camisa social lilás-clara e gravata lilás-escura, Gil Lúcio senta-se com elegância no sofá de três lugares que domina a sala. Posiciona-se de lado, dando as costas para o braço de couro preto. Seu flanco direito apruma-se perfeitamente com o encosto do estofado, desde a cintura até a axila. As pernas se cruzam à vontade, a direita pendendo sobre a esquerda. O braço direito repousa no topo do sofá, à altura do ombro, estendendo-se até a metade do assento do meio. Livre de posicionamentos estratégicos, a mão esquerda é usada para uma gesticulação que, involuntariamente, destaca um imponente relógio de pulso. Gil Lúcio mantém a postura ao longo de uma hora.

“Quando o Neil Armstrong pisou na Lua, quarenta anos atrás, e disse que estava dando um pequeno passo para o homem, mas um grande passo para a humanidade, eu soube que percorreria o caminho da ciência”, historiou, sorridente. “Só não imaginava que estudaria justo os tipos de movimento feitos pelo Armstrong na Lua.” Em 1969, ano do marco lunar, o menino Gil engraxava sapatos na pequena Itaú, no sudoeste de Minas. Também foi vendedor ambulante de frangos e cabides. Aos 14 anos, deu um passo, se não para a Lua, para o território paulista. A família se mudou para São Carlos, onde ele virou office-boy e, no ensino médio, fez o curso técnico de mecânica. O trajeto acadêmico foi traçado sem desvios: graduação em fisioterapia e mestrado na Federal de São Carlos, doutorado na Iowa State University, pós-doutorado em Chicago. Atualmente, Gil Lúcio leciona em duas universidades estaduais (Unesp e Unicamp) e coordena um laboratório numa instituição privada.

A experiência em teatro de improviso, na juventude, o ajudou a produzir as videoaulas. É tão pragmático, objetivo e rápido nas gravações que poderia se candidatar ao Guinness: “Consigo fazer trinta vídeos em uma hora!”, afirma, e isso porque, além de saber exatamente que mensagem quer passar, a moça com quem contracena também é fisioterapeuta.

De fato, percebe-se que, fisioterapicamente, ela tem muita facilidade tanto para ser incorreta como para fazer a coisa certa. Na lição dos calcanhares, por exemplo, aparece andando como se pisasse em ovos, a ponto de o saltinho do sapato não tocar o chão. O alerta é direto: Não ande na ponta dos pés. Toque o solo com o calcanhar. Um segundo depois, veem-se pés que palmilham suavemente a calçada, com uma equânime distribuição do peso desde os calcanhares até os dez pododáctilos.

A lição dos pés chaplinianos, que avançam em direções divergentes, é outro exemplo de boa atuação. A legenda não tergiversa: Andar errado lesa o corpo. Sempre de terno e jaleco, Gil Lúcio passa o braço em torno dos ombros da moça e a faz perceber o vício locomotor. Evite girar os pés. Mantenha a sua passada, orienta a legenda. Um passo correto, uma longa caminhada. A câmera focaliza o chão: com pés paralelos, quatro pernas caminham juntas, didaticamente. Quando as pernas masculinas percebem que as femininas aprenderam a lição, reduzem a velocidade e deixam que elas sigam os próprios passos. O fisioterapeuta sorri, feliz como um pai que vê o filho se equilibrar pela primeira vez na bicicleta sem rodinhas.

Segundo Gil Lúcio, que se considera um cientista do povo, novas pílulas de sabedoria fisioterápica estão em preparação: “É o que eu faço, passo a linguagem científica para a linguagem popular.” E ele não teria por que refrear a vaidade, pois é um dos poucos e bons em condições de explicar, tim-tim por tim-tim, o que pode fazer um Homo erectus para honrar a espécie.

Bruno Cirillo

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