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    ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2009

esquina

Cabeludos, peçonhentos e indefesos

Ah, se o Homem-Aranha existisse

Cristina Tardáguila | Edição 39, Dezembro 2009

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Na tarde de 11 de novembro, o biólogo Thiago Moreira atendeu um telefonema no laboratório de aracnologia do Museu Nacional, no Rio, e saiu esbaforido. Dentro de duas malas pretas despachadas para Londres, a Polícia Federal acabava de encontrar quase mil caixinhas de papelão, não maiores do que um sabonete comum, todas recheadas de aranhas-caranguejeiras vivas. Para tipificar o crime ambiental, precisava-se com urgência de alguém que soubesse tudo sobre animais peludos e peçonhentos. Lá se foi Thiago para o Galeão.

Na delegacia do aeroporto, o especialista de 28 anos e rabo-de-cavalo escorrendo pelas costas procurou ser o mais objetivo possível. Sim, entre aqueles aracnídeos que lutavam para enfiar as patinhas pelas frestas das caixas empilhadas, havia espécimes de no mínimo dois gêneros brasileiros: o Eupalaestrus e o Nhandu carapoensis.E, sim, naquele momento, aprisionados e sem água, eles estavam submetidos a intensos maus-tratos.

Fazendo-se de sonso, o britânico Lee Ardern, dono do carregamento, exibia uma nota fiscal no valor de 4 550 dólares, emitida pela empresa paraguaia Chaco Import-Export em favor de uma empresa do País de Gales, a Gaia Biological – “O maior fornecedor de tarântulas da Grã-Bretanha”, diz o site deles. Tanto no Paraguai, a origem da remessa, como no Reino Unido, o destino final, a lei permite o comércio de animais silvestres. Ardern dizia estar no Rio de Janeiro apenas para uma conexão aérea e esperava que o papel que ele sacudia no ar o livrasse logo de todos os problemas alfandegários.

Mas isso era problema da polícia. Para Thiago, o que interessava era saber dos bichos. Preocupadíssimo, antevia um doloroso e inútil sacrifício de centenas daqueles seres aos quais, por paixão, decidira dedicar a vida.

Para que qualquer bicho pudesse servir a um estudo científico, três informações eram imprescindíveis: o local, a data e a forma de coleta, isto é, como o haviam tirado da natureza. Na falta delas, o método científico ficaria comprometido e o trabalho não teria validade. Thiago tentou extraí-las do negociante britânico, mas o homem aparentemente não tinha o hábito de fazer perguntas aos seus fornecedores. Bastava-lhe que a mercadoria estivesse viva. Comprada no Paraguai por cerca de 5 dólares, cada caranguejeira que resistisse ao claustro de papelão seria revendida na Grã-Bretanha por não menos de 50 dólares e terminaria seus dias como pet de algum adolescente de inclinações góticas – infelizmente, a seleção natural, num dos seus maus momentos, não dotara estas aranhas de veneno letal para humanos.

Era desalentador. “Se o cara tivesse me passado os dados”, diria Thiago, “essas aranhas seriam consideradas um tesouro zoológico inestimável, uma coleção sem igual no Brasil, uma fonte inesgotável de informações para estudos morfológicos e de desenvolvimento.” Sem ficha, eram uma inutilidade. Aborrecido e triste, o biólogo pediu licença aos policiais e levou embora as caranguejeiras. Queria voltar para o laboratório o quanto antes e pensar.

 

Até aquela tarde, o Museu Nacional – destino habitual de todos os animais invertebrados, vivos ou mortos, apreendidos pela polícia do Rio (os vertebrados vão para o zoológico) – conservava em suas estantes menos de mil caranguejeiras. Quando Thiago cruzasse o sombrio corredor de acesso ao setor de aracnologia com duas malas debaixo do braço e destrancasse a porta guarnecida com um pôster do Homem-Aranha, duplicaria instantaneamente o acervo da instituição.

Grave encrenca, pois o Museu Nacional não estava preparado para acolher uma população aracnídea viva. “Nós pensamos muito”, explicou Thiago, “e concluímos que só havia uma solução: fixar as caranguejeiras.”

No jargão científico, fixar um animal significa jogá-lo num recipiente cheio de álcool e aguardar seu último suspiro; o bicho se debate e morre, e seu corpo é conservado para sempre nessa suspensão malcheirosa. Foi o que fizeram Thiago e sua equipe com mais de 800 aranhas: “Era cerda urticante voando pra todo lado. Teve gente que empolou, gente com muita alergia…” O biólogo sabia onde é que ia pegar de verdade: “Fixar faz parte da minha profissão”, disse, “e normalmente não me comove. Mas esses bichos nunca serão úteis à ciência. Morreram em vão.”

As cinquenta caranguejeiras poupadas foram alojadas em caixas de plástico com um pouco de terra, musgo, palha e um algodão embebido em água potável. Seus raros movimentos não exigem grande esforço – quem as observa suspeita de letargia. O que andavam comendo? “Bom, desde que chegaram aqui, nada”, respondeu Thiago.

Os problemas se acumulam: “Primeiro tivemos que improvisar os viveiros, depois tivemos que fixar 90% das aranhas – essa perda incrível – e agora precisamos garantir a alimentação.” É que as caranguejeiras se alimentam de artrópodes – baratas & cia. – e a despensa do museu não os tem em estoque suficiente para encher a barriga de tantos comensais. “E como se fosse pouco”, Thiago completa, “ainda temos que aguentar aquelas pessoas que batem aqui pedindo uma ‘aranhinha’ para o filho ou o sobrinho.”

As novas caranguejeiras mortas estão no porão do laboratório, em doze vidros, veladas pelo Homem-Aranha fixado nas paredes.  O negociante britânico que desencadeou o massacre fez acordo com o juizado federal e, com dez salários mínimos, evitou a pena de seis meses a um ano na prisão. Peter Parker não deixaria tão barato.