esquina

Café Terrace at Night

A morte assombra todo mundo, mesmo num simples gesto de carinho

Ana Paula Maia
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2020

De Curitiba

No começo, ainda parecia distante. Era uma epidemia na China. Do outro lado do mundo. As tensões no mercado financeiro deram os primeiros alertas, e as oscilações nas bolsas de valores começaram por todo canto. A China parou. O rumor de que a epidemia poderia ser contida e não se espalhar pelos continentes era comum nas conversas. Descendentes de orientais, porém, passaram a sofrer agressões, como se fossem, todos eles, portadores de vírus. As pessoas começavam a temer o contágio, embora tudo parecesse ainda muito distante.

Eu estava com muito trabalho acumulado na minha mesa e me organizei para colocar as coisas em ordem. Assim passei o Carnaval, num isolamento criativo, imaginando que até o final de março teria concluído todas as tarefas. Ao mesmo tempo que me isolei para trabalhar, passei a acompanhar, pela imprensa e a tevê, o início da expansão do coronavírus fora da China. Uma parte do mundo se preparava para o pior.

Eu percebia que, no Brasil, as pessoas não estavam cientes da gravidade da situação. Quando manifestava minhas preocupações, deixando de cumprimentá-las com apertos de mãos, abraços ou beijos no rosto, parecia que eu estava exagerando. Que tinha entrado numa onda de paranoia. Mas permaneci cautelosa. Era questão de dias até que a pandemia nos atingisse em cheio.

Uma semana depois do Carnaval, notei que as atitudes tinham mudado. E foram mudando mais ainda nos dias seguintes, quando o número de contaminados aumentou. Começou-se a temer que, aqui, a progressão da doença poderia seguir o ritmo trágico da Itália e da Espanha.

Em Curitiba, onde moro, as medidas preventivas são tomadas de acordo com o avanço da doença no Rio de Janeiro e em São Paulo. Já estamos isolados, e a cidade como um todo, por ter normalmente um ritmo menos acelerado, parece sentir menos o impacto do esvaziamento das ruas comparada com outras capitais mais populosas do país. Mas e o impacto em cada pessoa: não será o mesmo?

Eu sou do Rio de Janeiro. E meu coração fica divido entre as duas cidades. Conheço muito menos Curitiba do que o Rio, onde vive minha família, onde estão minhas memórias e imensa parte da minha história. Mesmo a distância, minha relação com a cidade ainda é constante. Penso na vulnerabilidade do Rio, com suas regiões pobres e populosas, onde as pessoas não podem se isolar de fato. Penso nas dificuldades que o Rio tem passado nos últimos anos e em como essa pandemia abalará profundamente o que já está tão frágil.

 

Ontem, dia 20 de março, senti uma angústia pesada. Passei o dia tentando me organizar. Verifiquei os armários e fiz uma lista do que comprar. Há anos não cozinho regularmente e demorei para pensar em tudo o que sei fazer. Precisei ir duas vezes ao supermercado num período de menos de uma semana.

Na primeira ida, comprei alguns itens para cozinhar por cinco ou sete dias, imaginando que, caso fechem os restaurantes, eu terei o que comer. Seis dias depois, retornei e comprei o suficiente para um mês, pois todos os lugares estão fechando por duas semanas, ou por um mês, ou por um tempo inderterminado.

Ninguém sabe quando vamos retornar às ruas. Sinto que daqui a trinta dias ainda estaremos confinados, talvez daqui a sessenta dias. Na semana passada, resolvi o máximo de questões pendentes, desde levar um dos meus notebooks para formatar até fazer as unhas das mãos e dos pés. Pintei de vermelho, numa paleta viva e esfuziante, até porque não sei quando o farei novamente.

 

Nos dias anteriores à quarentena, quando pouco se falava disso, tive a sensação de que alguma coisa ia mudar a minha vida. Ao andar pela cidade para cuidar de algum assunto prático, eu senti a aproximação de algo inevitável e, a cada passo que dava, pensava em como é bom respirar o ar das ruas. Andei o máximo que pude naqueles dias.

Mesmo estando acostumada com o isolamento, que me é necessário para escrever, tenho tido certo incômodo. Sinto que agora, nas cidades, só os pássaros são livres. O canto deles ecoa no ar e é possível ver um e outro voando. Uma liberdade que perdemos. Se eu queria um tempo para escrever e refletir, esse é o momento ideal, apesar de ser tão triste ver pela televisão que estamos à beira de um colapso.

Penso em quantos morrerão. Contabilizo prováveis números. Eu, que sempre escrevo sobre a morte, vejo agora, mais do que nunca, como ela está assombrando todo mundo, mesmo quando queremos fazer apenas um gesto de carinho. O mundo tão tecnológico nos obriga neste momento a algo ainda mais difícil: nos afastarmos um dos outros, nos isolarmos, estarmos apenas conosco.

Aproveito para deixar o sol entrar pela janela e tocar o sofá até que um cheiro agradável se espalhe pelo apartamento, um cheiro de coisas frescas e renovadas. A vizinha idosa do apartamento acima do meu ainda toca seu piano regularmente às seis da tarde, e o rapaz do prédio em frente faz ioga todos os dias na varanda. São pequenos acalentos em dias de reclusão.

Comecei a montar um quebra-cabeça de mil peças que comprei em janeiro. A desculpa para não ter começado era que me faltava uma mesa livre para montá-lo. É a representação de uma pintura de Van Gogh que na embalagem foi nomeada em inglês: Café Terrace at Night. É uma pintura linda de um café numa rua estreita à noite, com céu estrelado e pessoas sentadas em mesinhas na calçada, enquanto outras caminham despreocupadas pela rua. A pintura representa tudo o que não podemos fazer neste momento. Observando mais atentamente a embalagem, vejo escrito na lateral: Made in Italy.

Penso na Itália e em todos os seus mortos por causa do coronavírus sendo levados em caminhões enfileirados, uma espécie de comboio fúnebre, para serem cremados. Não é possível enterrar os mortos na Itália ou mesmo se despedir deles.

Esvaziei uma mesa e espalhei as peças. Dividi por cores. Depois de uma hora, não consegui juntar nenhuma. Me senti tão desanimada. Dois dias mais tarde recolhi todas as peças e guardei novamente na caixa. Mas não desisti totalmente. Nas próximas semanas talvez eu volte ao jogo, quem vai saber.

Por enquanto, observo a reprodução do quadro de Van Gogh, imaginando quando voltaremos a nos sentar despreocupadamente nos cafés sob o luar. Seja aqui ou em qualquer outra parte do mundo.

Ana Paula Maia

É escritora e roteirista. Publicou sete romances, entre eles Enterre Seus Mortos

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