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Caipirinha para PhDs

Uma favela para americano nenhum botar defeito

Tania Menai | Edição 33, Junho 2009

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As jarras de caipirinha só duram o tempo de chegar às mesas. Cestinhas de plástico amarelo trazem pão de queijo, mandioca frita e bolinho de bacalhau. Cadeiras de aço enferrujado, toalhas de mesa floridas e fotos de Ayrton Senna e Pelé, além de um sósia do jogador atrás do balcão,  garantem ao ambiente o ar recherché de botequim surrado. Não fossem as paredes verde-amarelas e as prateleiras repletas de leite Sococo e caixas de bombom Garoto, ele poderia estar em qualquer esquina folclórica do Brasil. Mas esse boteco, de fato, não fica na esquina. Fica ali no corner. Mais precisamente, o da Whyte com a South Fifth, em Williamsburg, no Brooklyn, Nova York.

Para chegar lá, basta pegar o metrô em Manhattan e andar algumas quadras – todas planas, apesar do que sugere o nome do restaurante: Miss Favela. Fundado há um ano, seus donos são os mesmos do restaurante Felix, no SoHo, famoso por promover uma curiosa fusão entre cozinha brasileira e cozinha francesa e pelos telões que instala durante a Copa do Mundo.

No Miss Favela, o barato é disputar uma mesa aos sábados, quando há música ao vivo e feijoada completa. Sai a 21 dólares por cabeça. Cartão de crédito, nem pensar: como se diz em inglês, ali é cash only. Até agora não houve reclamações sobre a balbúrdia. Ao contrário, parece até que a barulheira festiva do Miss Favela tem sido bem recebida pela vizinhança, um tanto inóspita.

Hello everybody! Let me give you an abraço!“, diz o americano Kenneth Erickson, ou Ken, cientista político especializado em América Latina. De gola rolê e manga comprida, ele chega para a feijoada do primeiro sábado ensolarado do ano, no final de abril. O almoço reúne o animadíssimo BONY, ou Brazilianists of New York, uma turma de acadêmicos americanos que se dedicam a antropologia, história, arqueologia e ciências políticas e sociais. Com mais de seis décadas na carteira de identidade e apaixonados pelo Brasil há pelo menos quatro delas, vários membros da trupe se conhecem desde os anos 60, quando cursavam a Universidade Columbia, em Nova York.

O BONY, hoje com umas dez pessoas, nasceu com finalidade bem definida: pura diversão. Em 2007, Maxine Margolis, antropóloga emérita da Universidade da Flórida e autoridade em imigração brasileira nos Estados Unidos, encontrou Ken, por acaso, no restaurante de cozinha brasileira Circus, em Manhattan. Combinaram então encontros mensais em lugares brasileiros e chamaram outros entusiastas para engrossar o grupo. Os BONYs já se refestelaram no Alfama, de cozinha portuguesa, no Via Brasil e no Zebu Grill, mas, como churrasco tem limite, permitiram-se infidelidades gastronômicas com menus marroquinos e chineses.

Apelando à imagem de Iemanjá para reforçar a cor local, o Miss Favela vive entupido de brasileiros com banzo. O cardápio oferece frango com quiabo, carne-seca, mandioca e picanha fatiada. O público é tão alternativo quanto Williamsburg, um trecho da cidade surpreendentemente livre de Starbucks, GAPs ou McDonalds, por conta de uma lei local que proíbe lojas de rede e cadeias de fast-food de se instalarem no bairro. Seu morador mais típico se veste numa das dezenas de brechós das redondezas, anda de bicicleta e tatua qualquer pedaço de pele ainda disponível.

 

Os BONYs dispensaram batas africanas, vestidos vintage e tatuagens vistosas, o que não os apartou da animação reinante. Não se importaram nem com o grupo de samba que instalou duas caixas de som ao lado da mesa deles. A coleção de PhDs aumentou o volume e passou a gritar como torcedores no Maracanã, vencendo assim a poderosa muralha sonora de tambor, pandeiro, vocalista e batucada selvagem que os sitiava.

Parecem realmente em casa. “Alguém quer frango a caipirinho? I mean, a passarinho?”, Ken pergunta, aos berros. A seu lado está Leni Silverstein, consultora na área de filantropia na América Latina. Em frente a ela, J. Michael Turner, fundador da Iniciativa Global Caribenha e Afro-Latina (Galci), organização ligada ao Hunter College cuja missão é desenvolver políticas de combate à desigualdade racial no continente. Ao lado de Turner, Margaret E. Crahan, pesquisadora do Instituto de Estudos Latino-Americanos da Universidade Columbia. A mesa é completada pelo arqueólogo Jerald T. Milanich (casado com Maxine Margolis), curador emérito do Departamento de Arqueologia do Museu de História Natural da Flórida. Milanich faz escavações meticulosas no seu prato de feijão com arroz. Quando diz alguma coisa, mistura sem cerimônia português com inglês: “My netinhos are very cute.”

Lá pelas tantas, de nada adiantaria o olhar da garçonete convocando-os a liberar logo a mesa para aliviar a fila. Não se sabe se nos livros ou se por aí, pela vida, o fato é que os PhDs aprenderam que mesa de botequim foi feita para se ficar um tempão nela. Quando estavam prestes a fechar para balanço, um deles, talvez movido pelo velho hábito de pesquisar textos robustos, decidiu dar uma última e criteriosa passada de olhos pelo cardápio – e lá estava a batida de maracujá. Excitação visível entre os comensais, desapontamento idem no rosto da garçonete, obrigada a trazer a beberagem. Terminada a festança, voltaram todos para Manhattan cruzando a pé a ponte de Williamsburg, logo ao lado do Miss Favela.

A próxima parada dos BONYs terá cor local genuína: eles estão de malas prontas para embarcar para o Rio de Janeiro. Entre 11 e 14 de junho o grupo estará na PUC carioca, para um congresso sobre desigualdade social organizado pela Latin American Studies Association. Estrategicamente, todos reservaram hospedagem perto do bar Garota de Ipanema.