diário

Caleidoscópio da abertura

No final do governo militar, as articulações para conduzir Tancredo Neves à Presidência

Celso Furtado
Tancredo Neves foi “incisivo, tocando no essencial, mas ao mesmo tempo vago”, escreveu Celso Furtado sobre a primeira reunião da Comissão para o Plano de Ação do Governo, em 11/12/1984, da qual participaram Ulysses Guimarães e Aécio Neves
Tancredo Neves foi “incisivo, tocando no essencial, mas ao mesmo tempo vago”, escreveu Celso Furtado sobre a primeira reunião da Comissão para o Plano de Ação do Governo, em 11/12/1984, da qual participaram Ulysses Guimarães e Aécio Neves FOTO_EDUARDO TAVARES_FGV_CPDOC

Desde a anistia política de 1979, Celso Furtado (1920-2004) passou a vir com mais regularidade ao país. Manteve os compromissos acadêmicos na França, algumas orientações de tese na Universidade de Paris I e seminários de economia internacional, mas condensava-os de modo a alongar as temporadas no Brasil. Em 26 de agosto de 1981, filiara-se pela primeira vez a um partido político, o PMDB, liderado por Ulysses Guimarães. Foi este o ponto de partida de uma estreita colaboração com o grupo dos chamados “autênticos” do partido. Envolveu-se ativamente na vida partidária, na elaboração de programas, em campanhas eleitorais, e palmilhou o país em inúmeras conferências e debates. Em 1984, o Brasil vivia o último ano do governo militar, e era amplo o leque de conjecturas sobre o futuro. Derrotada a emenda parlamentar das Diretas Já, iniciavam-se os arranjos para a escolha de candidatos à eleição indireta a presidente da República. Os herdeiros do regime apostavam as fichas em Mário Andreazza ou em Paulo Maluf, ou, como outsider, em Aureliano Chaves; do lado da oposição, o nome de Tancredo Neves conquistava a unanimidade, mas, como se percebe nestes diários, também nutriram leves esperanças presidenciais o governador Franco Montoro e Ulysses Guimarães. Por um dos improváveis casuísmos da política brasileira, José Sarney, medalhão vindo do PDS, braço partidário da ditadura, é que viria a ser o vice na chapa de Tancredo Neves.

O enredo dessa conturbada transição que encerrou dois decênios de regime militar e levou o país à redemocratização, suas composições políticas, a intrincada crise da dívida externa, a montagem sutil da comissão de economistas que auxiliaria o presidente eleito nos primeiros meses de governo formam a matéria destes diários que se estendem por pouco mais de um ano, de julho de 1984 a outubro de 1985. Falecido Tancredo Neves e instalado no Palácio do Planalto o presidente José Sarney, Celso Furtado retomaria o caminho do exterior, não mais como exilado, e sim como embaixador do Brasil junto à Comunidade Econômica Europeia, em Bruxelas. É aí, numa noite de outono, que escreve a anotação que fecha estes diários: a saborosa conversa com o historiador Fernand Braudel, num encontro em Châteauvallon.

MATÉRIA FECHADA PARA ASSINANTES
Para acessar, assine a piauí

Celso Furtado

Foi economista, escritor e professor de teoria e política econômica. Entre outros, é autor de Formação Econômica do Brasil

Leia também

Últimas Mais Lidas

Maria vai com as outras #1: Poder

A prefeita Márcia Lucena e a delegada Cristiana Bento contam como exercem o poder em profissões quase sempre ocupadas por homens

Foro de Teresina especial: aguarde

O programa, que contou com a participação da jornalista Maria Cristina Fernandes, foi gravado ao vivo durante o evento que reuniu os melhores podcasters do país

Entre gargalhadas, cotidiano e estratégia: os podcasts de humor

Linguagem politicamente incorreta e medo da repetição estão entre as preocupações dos realizadores 

Em podcasts jornalísticos, muito planejamento e pouco improviso

Produção diversificada e roteiro bem construído ajudam a resumir informação e análise

Um podcast pra chamar de seu: os temas de cada tribo

Futebol, feminismo e história motivam conteúdos produzidos para grupos específicos; para realizadores, nem todo patrocínio é bom

Podcast, um novo modelo de negócio

Mesa de abertura da segunda edição do evento discutiu estratégias de financiamento 

Acompanhe a transmissão ao vivo da segunda Maratona Piauí CBN de Podcast

Encontro está sendo transmitido em áudio e em vídeo nos sites e redes sociais da piauí e da CBN

Sem saúde nem plano

Por que os planos de saúde privados se tornam inviáveis a partir dos 60 anos e como algumas operadoras conseguem cobrar menos

Foro de Teresina #64: A fritura de Moro, a expulsão de Frota e o acordo de Itaipu

O podcast de política da piauí discute os principais fatos da semana

Mais textos
1

A vovó fashion

Uma influencer e seus looks ousados

2

A imprevidência chilena

Elogiado por Bolsonaro e Guedes, regime de capitalização implantado no Chile tem aposentadoria média inferior ao salário mínimo

3

Acordo de WhatsApp para manter Frota no PSL não resiste a canetada de Bolsonaro

Bancada selou em grupo de aplicativo permanência do deputado, que acabou expulso depois de criticar Eduardo; outros parlamentares devem ser enquadrados

4

Sem saúde nem plano

Por que os planos de saúde privados se tornam inviáveis a partir dos 60 anos e como algumas operadoras conseguem cobrar menos

5

Foro de Teresina #64: A fritura de Moro, a expulsão de Frota e o acordo de Itaipu

O podcast de política da piauí discute os principais fatos da semana

6

O pit bull do papai

Os tormentos e as brigas de Carlos Bolsonaro, o filho mais próximo do presidente

7

Um novo epílogo para Eike Batista

Investigação que levou empresário de volta à cadeia mostra como ele enganou investidores e manipulou preço das ações

8

Operação zangão

O combate ao furto de abelhas no interior de Minas Gerais

9

Por que João Gilberto é João Gilberto

Diretor artístico da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo comenta, ao violão, legado do inventor da bossa nova; veja os vídeos