esquina

Calma, Monga

Existe futuro para a mulher-macaco?

Beatriz Antunes
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2009

No parque de diversões Playcenter, em São Paulo, três meninos esperam na fila da Monga. “A gente chegou às nove”, explica Tiago, que saiu de Campinas para ver a atração pela primeira vez. Os alto-falantes anunciam as normas de segurança: não é permitido filmar, fotografar, tocar nos personagens e correr.

Os meninos entram em um ambiente refrigerado, onde são recebidos por um ator vestido como um guia de safári. Ele informa que ainda é possível desistir: “Quem estiver com medo pode esperar.” Como ninguém desiste, o homem avisa aos cardíacos que o espetáculo tem cenas “de impacto”. Explica o que se verá: um vídeo de dez minutos repleto de perseguições e closes sangrentos que conta a triste epopéia de Julia Pastrana, cientista que, em expedição ao Congo, foi mordida por um feroz macaco da espécie “monga”. O incidente alterou o seu código genético e a transformou em uma monga (assim mesmo, com minúscula, pois no Playcenter Monga não é nome próprio, mas espécie). Na sala ao lado, o público poderá ver a cientista receber a dose de um antídoto recém-descoberto. “Lembrando que não é permitido correr no interior do laboratório”, sublinha o guia.

De fato, na sala contígua, está o macaco. De estatura respeitável e pelagem sedosa, mais se assemelha ao Pé Grande, ou ao Abominável Homem das Neves. “Fiquem juntos, a experiência é perigosa!”, adverte o rapaz. De uma mesa de controle com botões coloridos, ele leva uma enorme seringa ao braço direito do monstro. O líquido verde fluorescente entra na corrente sanguínea e, pouco a pouco, a besta assustadora se transforma numa jovem magra e de pele alva. Julia Pastrana veste short cáqui e camisa branca. Seus braços estão acorrentados. Infelizmente, o retorno dela ao mundo dos sapiens é brevíssimo, pois o antídoto não é bom. Aos poucos, Pastrana retoma a forma de monga, um fato que deixa o guia bastante assustado. “O animal é perigoso e pode quebrar as correntes!”, ele se esgoela, mas sua voz é abafada pelos urros terríveis que saem da jaula. Mudar de espécie a cada minuto parece ser doloroso, Pastrana/monga está fora de si. “Não! Não! O que aconteceu? Não tenho mais controle da máquina!”, desespera-se o guia. A platéia corre em direção à saída e, aos gritos, quase atropela Tiago, que, por causa da baixa estatura, viu pouco. Ainda assim, não passa recibo: “Monga é pra criancinha…”

 

Julia Pastrana existiu. Nascida no México em meados do século XIX, ela sofria de hipertricose, doença genética extremamente rara que se caracteriza pelo aparecimento de pelos longos e abundantes pelo corpo. Circulando pelos picadeiros ambulantes do país, atraiu a atenção de Theodore Lent, empresário de entretenimentos mambembes. Lent percebeu que Pastrana era sinônimo de moeda sonante e a pediu em casamento – o maxilar proeminente e os fios lanuginosos que brotavam das maçãs do rosto, do queixo e das sobrancelhas não eram razão suficiente para obstar um bom investimento. Ele alçou a esposa ao estrelato e a levou a dançar e cantar em palcos europeus (ela era mezzosoprano). A vida de Pastrana terminou bruscamente aos 26 anos, em Moscou, de complicações pós-parto, depois de dar à luz um menino que herdara a sua hipertricose e que não viveu mais de três dias. Empreendedor, Lent embalsamou mulher e filho, e seguiu cobrando entrada a quem quisesse ver sua família disposta numa vitrine.

Ingrid Aquino, a atriz que há mais de um ano interpreta Julia Pastrana no Playcenter, sabe pouco sobre a vida da mexicana. Para fazer a performance, estudou o comportamento de primatas. Revelada no papel de Possuída, personagem do Castelo dos Horrores do Playcenter, foi contratada em 2008 para ficar à disposição da Indiana Mystery, produtora responsável pela operação do espetáculo. O papel “estava guardado para mim – quem me disse foi o Baiano”, conta ela, referindo-se a uma entidade com quem se encontra regularmente em sessões espíritas. Aos 20 anos, não abre mão do salário de mil reais por seis horas de trabalho em regime de CLT: “Só troco o certo pelo mais certo ainda.”

A atual Monga – vamos respeitar a tradição e tratá-la pelo nome – custou 1 milhão de reais ao Playcenter. Veio substituir uma versão modesta que, no passado, era operada em parceria com um pequeno empresário de espetáculos itinerantes, Romeu del Duque. Em 1973, Del Duque instalou sua Monga ao lado da roda-gigante e durante anos reinou absoluto. Afastado há quase duas décadas do Playcenter, não vê com bons olhos tanta novidade: “Esse negócio de short e camiseta, de mudar o macaco… O pessoal que está aí agora não sabe nada de Monga”, afirma, desgostoso. Tem autoridade para se manifestar, pois foi empresário de uma das mais bem-sucedidas Mongas do Brasil.

Em 1991, Beto Carrero andava atrás de mão de obra especializada. Pegou o telefone e lançou de chofre: “Preciso de uma Monga para trabalhar no parque. Você aceitaria se mudar para Santa Catarina?” Dirce Fátima de Arruda não podia acreditar. Mais do que uma oferta de emprego, o convite era a coroação de uma carreira. “Mas eu não podia criar as minhas filhas naquele frio. Então ele me pediu para ir treinar Mongas pra ele”, conta.

Ao chegar lá, Dirce percebeu que, embora uma ou outra aspirante tivesse algum talento, nenhuma delas estava pronta. Concentrou a atenção no quadril. Com doze anos de jaula, aprendera tudo o que sabia com suas duas musas, Rita Cadillac e Cindy Lauper. “A minha Monga sempre foi dançante”, explica. De 1979 a 1991, Dirce viveu na estrada, dentro de um ônibus que era ao mesmo tempo casa e palco. Cozinhava para os três homens com quem morava: Romeu del Duque, o dono do negócio; Cláudio Antônio de Arruda, irmão de Dirce, a quem cabia o papel de macaco, ou, no jargão da indústria, de “segundo”; e Céu Azul, um ex-palhaço que fazia a “porta”, aquele que se encarrega de recolher os ingressos na entrada. “Fui a melhor Monga do Brasil”, relembra a estrela.

No papel da versão primata de Monga, Cláudio Antônio, se não o melhor do Brasil, era ao menos “um bom macaco em cena”, como assegura o ex-patrão Del Duque. Sua função era passar a primeira parte do espetáculo escondido numa cabine lateral, propositadamente fora do raio de visão da platéia. Dentro da fantasia de macaco, esperava a hora precisa de se exibir. “Os institutos com seus grandes e famosos cientistas afirmam: o homem é o grande remanescente dos monstros. Profundamente adormecida, sem saber o que está se passando, ela começa a se transformar. Notem!”, dizia Del Duque ao microfone, operando as teclas de comando da mesa de luz que dava curso ao jogo de espelhos. O truque era simples, mas eficiente. As luzes que incidiam sobre o interior da jaula de Dirce eram reduzidas até se apagarem, enquanto Cláudio Antônio, no seu canto escuro, era progressivamente iluminado. Refletida no cristal translúcido através do qual a platéia via a cena, a imagem dos irmãos começava a se mesclar. “Notem o que ocorreu com a jovem! Dos pés à cabeça, totalmente transformada nesse macaco, nesse gorila…” Banhado pela luz forte dos refletores e suando dentro da fantasia de lã sintética, Cláudio Antônio esperava pelo blecaute total da jaula de Dirce. Agora, a platéia tinha diante de si apenas o macaco. Era a vez dele: “Observem que ela agora se movimenta e se bate de um lado para o outro…” Cláudio Antônio se agitava e se debatia. “Vamos, fera, calma. Vamos, calma, pare! Não, Monga! Não!”

Por volta de 1990, o ônibus estacionou em São Paulo e nunca mais voltou a rodar. Del Duque comprou uma chácara no interior e vive bem com o dinheiro que ganha no parque de diversões Beija-Flor, que montou à beira da Marginal Tietê. Cláudio Antônio, que ainda trabalha com ele, ajuda na manutenção e assume o parque quando o patrão está viajando. Nenhum dos dois sente falta da Monga.

Dirce sente. Depois de passar três meses em Santa Catarina dando consultoria para Beto Carrero, ela se mudou com as filhas para o interior de São Paulo e ainda acha que existe um futuro para a mulher-macaco. “Eu sugeri pro dono desse parque que chegou aqui em Ourinhos que ele abrisse uma jaula da Monga. Ele não deu resposta, mas estou esperando.”

Beatriz Antunes

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