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A cartilha do fogo

O périplo dos bombeiros para prevenir novos incêndios no Pantanal

Raquel Freire Zangrandi
CREDITO: ANDRÉS SANDOVAL_2021

O sargento Ésly Pio de Melo e sua equipe de bombeiros já tinham percorrido nove fazendas desde o começo de maio. No dia 13, com o celular à mão, ele buscava em um mapa o ponto exato de cada propriedade na região da cidade de Miranda, no Pantanal de Mato Grosso do Sul, a três horas de carro de Campo Grande. “Hoje vamos retomar a P-10, depois a gente segue pela P-11, P-12, P-13…” Como num jogo de Batalha Naval, cada fazenda é identificada por um pino amarelo no mapa. Mas em vez de serem atacados, os alvos, localizados via satélite, recebem avisos de alerta e orientações sobre incêndios.

A equipe de bombeiros visita as fazendas e preenche uma ficha com dados básicos das propriedades. O sargento anota os contatos e pergunta se, em caso de emergência, a fazenda poderia acolher brigadistas e ceder parte de sua estrutura para o combate ao fogo. No fim da visita, com uma fala didática, ele entrega uma cópia do Plano Estadual de Manejo Integrado do Fogo (Pemif). Trata-se de um decreto lançado em abril que regulamenta o uso do fogo pelos fazendeiros, estabelece normas de prevenção de incêndio e define ações de combate.

Implantado pelo Instituto de Meio Ambiente de Mato Grosso do Sul (Imasul), o decreto é uma medida para evitar que se repitam os incêndios que destruíram o Pantanal no ano passado. O documento reconhece a cultura da queimada para renovar o pasto, mas prescreve que seja feita fora do período crítico da seca e reportada às autoridades, que acompanharão o procedimento. Também regulariza a queima com fins ecológicos, cujo objetivo é reduzir a vegetação seca que serve de combustível às chamas. O plano conta com o apoio do “comitê do fogo”, formado por entidades públicas, privadas e do terceiro setor empenhadas na prevenção, e confere aos bombeiros o poder de fiscalizar e autuar os infratores.

O incêndio de 2020 devastou o bioma de água doce mais úmido do planeta, arrasando uma área maior que a de todo o estado do Rio de Janeiro. As imagens da destruição deixaram o país estarrecido: animais com as patas queimadas, em carne viva ou carbonizados, esqueletos de árvores, a floresta coberta por um tapete de cinzas, nenhuma ave no céu. A fase mais severa do fogo durou quatro longos meses, de julho a outubro. Em setembro, com a temperatura chegando a 42ºC (e sensação térmica de 50ºC), a cidade de Corumbá, a 200 km do epicentro do fogo, foi coberta de fumaça e o ar ficou insalubre. Para este ano, as notícias não são boas. Até agora, só choveu a metade do esperado, e o nível do Rio Paraguai, que atravessa o Pantanal, está abaixo de 50% do volume previsto nesta época.

Um relatório produzido em conjunto pelos ministérios públicos dos dois estados onde se localiza o Pantanal (MT e MS) concluiu que a maioria dos incêndios teve início dentro de propriedades privadas de forma deliberada, e não por causas naturais ou acidente, como a queda de um raio, faísca de rede elétrica etc. O promotor de Justiça do Núcleo Ambiental do MP em Mato Grosso do Sul, Luciano Loubet, vai ao ponto: “Quem pode auxiliar nesse combate é o proprietário rural, porque o fogo começa dentro da fazenda dele.”

 

A caminhonete vermelha dos bombeiros levanta um rastro de poeira nas estradas de terra seca. Guiados por GPS, eles vão de fazenda em fazenda. Alguns proprietários os recebem desconfiados, sem nem abrir a porteira, mas outros convidam para sentar na varanda, como Alcides Barbosa, dono de uma fazenda de 163 hectares e de quatrocentas cabeças de gado Nelore. O sargento Pio de Melo pergunta:

– Seu Alcides, o senhor faz uma queimadinha de vez em quando?

– Não… Eu não.

– Tá, mas se o senhor precisar fazer, tem que entrar no site do Corpo de Bombeiros e clicar em “Sistema Prevenir”, o.k.? Lá, o senhor pede autorização, que é de graça. Assim, tirando a licença, pode fazer a queima.

Para mapear a região de Miranda, o sargento e seus homens se hospedaram na Estância Caiman, um complexo de turismo ecológico e criação de gado, com reserva florestal, centro de pesquisa e preservação de animais e plantas nativos. Em 2019, ano em que o volume de chuvas foi muito baixo, a fazenda sofreu um incêndio de grandes proporções. O fogo começou numa propriedade vizinha, cruzou o Rio Aquidauana e chegou até a Caiman, onde queimou sem trégua por vinte dias seguidos. A fazenda de 53 mil hectares (onde caberiam, com folga, quatro Niteróis) teve 60% de sua área devorada pelas chamas.

Pio de Melo foi um dos que atuaram no combate ao incêndio. Natural de Aquidauana (MS), ele tem 40 anos e trabalha há dezesseis como bombeiro. Ele recorda que foi um fogo muito difícil de conter porque havia se espalhado por vários trechos de mata fechada. “Na área da reserva a vegetação era bem alta, o que fez o fogo se propagar muito rápido, e a gente não tinha nem acesso nem maquinário pra abrir passagem. Foi um combate lento. Teve dias de vento muito forte e seca intensa. Quando chegaram os recursos, já tinha queimado 40% da fazenda”, ele contou, sentado no gramado agora muito verde da Caiman.

Pouco depois, a fazenda encomendou um criterioso estudo que produziu um histórico da tragédia. Também fez um plano de prevenção e combate a incêndios, que inclui o controle da queima, o monitoramento via satélite e a abertura de aceiros, ou seja, faixas de terra sem vegetação que ajudam a frear o fogo. Os administradores da Caiman criaram também um grupo de WhatsApp com os fazendeiros vizinhos para que, ao menor sinal de fumaça, o alerta circule. Foram medidas que anteciparam as recomendações do decreto do governo estadual neste ano.

 

Antes da despedida, a equipe de bombeiros fez uma demonstração de combate ao fogo para as crianças da escola municipal da fazenda Caiman. A simulação ao ar livre envolveu palito de fósforo, fogo e emoção. A professora Rosalina Viana e sua turma acompanharam cada gesto daqueles homens paramentados em uniformes pesados e com aparelhos estranhos, como o abafador e o assoprador. O primeiro é um cabo de madeira em cuja ponta está acoplada uma placa de borracha grossa e cheia de furos. Parece uma palmatória gigante: uns “tapas” dados com ele no mato em chamas ajudam a abafar o fogo. O assoprador lembra um megassecador de cabelo, que em vez de ar quente, expele ar frio para apagar o fogo.

Enquanto os alunos assistiam à demonstração, bem-comportados à sombra de um pé de amora, o mascote da turma, Guilherme, de 4 anos, saltitava feito espoleta para lá e para cá. A professora, que é mãe dele, já estava desistindo de controlar aquela bomba de energia infantil, quando o fogo do guri baixou – era a hora de fazer a foto com os bombeiros, e o pequeno foi correndo se juntar à turma.

Raquel Freire Zangrandi

Produtora-executiva da piauí

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