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Catolicismo clandestino

Padre Li quer voltar a celebrar a missa em mandarim no Rio

Bernardo Esteves
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL

A família se reuniu numa noite de janeiro, numa casa nos arredores de Pequim. No centro da sala, havia uma máquina de costura coberta por uma toalha clara, sobre a qual foram postas duas velas acesas. Estava em curso uma missa católica improvisada, celebrada por um padre trajado a caráter. À guisa de vinho canônico, usava suco de uva. As hóstias foram fabricadas com uma massa feita de água e farinha de trigo prensada entre dois ferros de passar quentes. Rezavam baixinho, para que os vizinhos não ouvissem. Eram quase 22 horas.

No meio da homilia, o sangue de todos gelou quando a campainha tocou. Não estavam esperando ninguém, nem na China aquilo era horário de visita chegar. Era a polícia. O padre mal teve tempo de tirar a túnica, enquanto sua irmã apagava as velas e recolhia a toalha que cobria o altar. Em questão de segundos os agentes estavam dentro da sala. Quiseram saber o que eles estavam fazendo. Ora, o que uma família costuma fazer quando se reúne: conversando. Os policiais não pareceram muito convencidos. Fizeram outras perguntas e, como não encontraram nada que os incriminasse, tomaram rumo. Não se sabe por que não desconfiaram da deslocada presença da máquina de costura.

Apenas as organizações religiosas aprovadas pelo governo são toleradas na China, e esse não é o caso da Igreja Católica Apostólica Romana. Com a chegada dos comunistas ao poder após a Segunda Guerra, foi criada a Associação Patriótica Católica Chinesa para abrigar seus fiéis. Essa igreja não reconhece a autoridade do papa, pois o governo chinês não abre mão de nomear padres e bispos. Por isso, a maior parte dos católicos chineses preferiu ficar na clandestinidade. “Fazemos parte da chamada Igreja Subterrânea ou do Silêncio”, explicou num português fluente o sacerdote Li Guozhong, radicado no Brasil há quase três décadas. Era ele quem celebrava a missa que por pouco não foi flagrada pela polícia naquela noite. “Os padres não têm liberdade e não há templos para celebrar a missa”, contou. “A gente reza mais em casa mesmo.”

Li reconhece que a situação dos católicos chineses melhorou com a abertura econômica do país nas últimas décadas, mas está longe do ideal. Nascido em 1963, foi criado em plena Revolução Cultural, marcada por um clima de medo e perseguição. Sua família é católica há cinco gerações, desde que foram convertidos por missionários europeus. Manter a fé nos tempos mais duros de repressão foi um exercício de perseverança. Li foi catequizado pelos pais e só foi conhecer um padre de verdade aos 17 anos, quando fez a primeira comunhão.

Mais que uma vocação, o sacerdócio foi para ele um destino. Por causa de complicações de saúde que ele teve dias depois do nascimento, sua mãe fez a promessa de oferecê-lo à Igreja caso sobrevivesse. De tanto ouvir a história na infância, acabou inculcando que queria mesmo virar padre. Quando chegou a hora de se ordenar, Li precisou deixar o país. E foi aí que o Brasil entrou em sua vida. O rapaz veio encontrar um tio, também sacerdote, que morava em São Paulo – havia deixado a China no final dos anos 40, quando os comunistas tomaram o poder para não largar mais.

 

Li Guozhong é um homem baixo de cabelo preto liso e repartido de lado. Vestido em sua batina, tem a aparência algo improvável. Vive no Brasil há 28 anos – mais tempo do que passou em seu país natal. Após um ano em São Paulo, mudou-se para o Rio de Janeiro, onde se ordenou em 1991. Durante doze anos, celebrou a missa numa paróquia de Ramos, e em 2004 tornou-se o pároco da igreja São Francisco Xavier, na Tijuca. Com duas décadas de sermões em português no currículo, a língua já não é um problema para ele. No início dos anos 90, decidiu se naturalizar brasileiro e acrescentou o prenome José ao seu nome chinês. Mas os fiéis teimam em chamá-lo de padre Li.

 

Além das dez missas que celebra toda semana em sua paróquia, ele costumava promover também uma celebração em mandarim nas tardes de sábado. Seu público-alvo não era muito numeroso. “Dos 5 ou 6 mil chineses que há no Rio, só uns 100 são católicos”, estimou, numa entrevista num escritório anexo à igreja São Francisco Xavier. A curiosa missa costumava atrair até alguns brasileiros, o que não surpreendia o padre Li. “A liturgia é a mesma em qualquer língua”, defendeu. “Mesmo que a pessoa não entenda, ela vê que está sendo feita a leitura do Evangelho ou a consagração.”

Durante anos ele rezou sua missa em mandarim num salão cedido pela paróquia do Sagrado Coração de Jesus, na Glória. Em 2007, no entanto, o espaço foi requisitado após uma troca no comando da paróquia. Com isso, a comunidade de católicos chineses não tem mais onde se reunir no Rio de Janeiro, para aborrecimento do padre Li.

Desde então, missa em mandarim, só em caráter extraordinário. A última foi uma celebração em ação de graças no mês de setembro, para marcar a despedida de dois irmãos de Li que passaram uma temporada no Brasil. Vieram comemorar o ordenamento de dois sobrinhos do padre, que devem levar adiante a vocação missionária da família. Os desavisados que entraram na igreja São Francisco Xavier naquele sábado não entenderam nada: tratava-se de uma inequívoca missa católica, rezada numa língua estranha que, definitivamente, não era latim. Quando muito, era possível identificar um “amém” aqui e um “aleluia” acolá.

Padre Li torce por uma solução satisfatória para o impasse que já dura quatro anos. Sua voz ganhou um tom melancólico ao tratar da questão. Quando manifestou o desejo de uma nova sede para a missão católica chinesa, ele escolheu as palavras para não melindrar a hierarquia eclesiástica. “Estamos esperando a diocese [do Rio de Janeiro] resolver a questão de um lugar para celebrarmos”, disse. “A igreja tem de estender a mão para todos, tanto aos chineses quanto aos brasileiros.”

Bernardo Esteves

Repórter da piauí desde 2010, é autor do livro Domingo é dia de ciência, da Azougue Editorial

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