esquina

Cavalo sem cheiro

Animal que pertenceu a Figueiredo vira mascote em Copacabana

Claudia Maximino
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2013

Alheio às polêmicas que marcaram seu passado, aos musicais que agora lotam o teatro ao lado e ao burburinho de quem gostaria de levá-lo para casa, um cavalo vistoso mora numa loja de antiguidades, entre candelabros, louças e peças entalhadas. O animal, de 1,85 metro de altura por 1,98 metro de comprimento, chama a atenção de quem passa. Mães levam os filhos para vê-lo, e o primeiro-ministro do Vietnã, quando veio ao Rio de Janeiro para a Conferência Rio+20, passou para admirá-lo.

Além da imagem impressionante do cavalo, de olhos doces e expressivos, conta pontos para sua fama o fato de ter pertencido, como explica uma plaquinha, ao ex-presidente João Baptista Figueiredo, o mesmo que, quando saiu do governo em 1985, pediu para ser esquecido. É um animal inodoro, para provável desgosto do general, que certa vez declarou preferir o cheiro de cavalo ao do povo.

O quadrúpede feito de pinho-de-riga é oco e constituído de inúmeras partes de madeira, que, perfeitamente unidas, imitam músculos. Pela curvatura do pescoço e o tamanho diminuto da cabeça e das orelhas, deduz-se que foi inspirado em um exemplar da raça árabe. Em sua moradia original, próxima das cocheiras da propriedade que pertenceu ao ex-presidente, o Sítio do Dragão, em Petrópolis, o cavalo foi colocado de pé para parecer que empinava. Desde 2001, quando passou a morar numa das maiores lojas do Conjunto Cidade de Copacabana, conhecido como o Shopping dos Antiquários, voltou à horizontal e aparenta estar mais calmo, sem perder o vigor. O trabalho do artesão impressiona, mas ninguém tem ideia de quem seja. “Nem os filhos do presidente sabiam”, conta Manuel Machado, dono da loja que atua no ramo há mais de cinquenta anos. “Dizem que foi um empresário que deu a peça para o Figueiredo.”

 
Machado comprou o cavalo em maio de 2001, depois de baixada a poeira de uma polêmica disputa na casa de leilões Roberto Haddad. Dois meses antes, a ex-primeira-dama Dulce Figueiredo, falecida em 2011, anunciara a venda de centenas de peças do espólio do marido. Segundo rumores da época, ela não conseguia viver com a pensão de pouco mais de 8 mil reais deixada pelo general, morto em 1999. Os objetos incluíam duas telas de Di Cavalcanti, uma bandeja de prata presenteada pelo ditador chileno Augusto Pinochet (com preço mínimo de 300 reais e arrematada por 6 200 reais), uma caneta-tinteiro doada pelo rei Juan Carlos da Espanha e uma estátua de são Roque, de 1 metro de altura, esculpida em Portugal no século XVIII, agrado do finado político baiano Antonio Carlos Magalhães.

Com medo de que 31 peças importantes do acervo do ex-presidente se perdessem, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, Iphan, embargou o leilão. Roberto Haddad conseguiu na Justiça uma liminar que garantia ao Iphan a preferência na compra, contanto que aceitassem pagar o lance mais alto. Uma pequena escultura em bronze de um cavalo carregando um caubói que atira para trás tornou-se a grande atração – mais por causa da origem que por seu valor artístico.

Em 1982, durante uma visita à Granja do Torto em Brasília, o então presidente americano Ronald Reagan se apaixonou pelo cavalo Gymnich, um belo espécime da raça hanoveriana, de propriedade do general. Figueiredo, envaidecido pelos comentários de Reagan, resolveu doá-lo ao ocupante da Casa Branca. Como a lei americana não permite que os presidentes recebam presentes acima de 150 dólares, Reagan não levou o cavalo, mas retribuiu a generosidade do brasileiro com a escultura de Harry Jackson, autor de inúmeras peças de caubóis e índios americanos. Com o lance mínimo de mil reais, o cavalinho de bronze acabou vendido por 300 mil reais para o empresário gaúcho Lírio Parisotto. Por esse preço, o Iphan desistiu de comprá-lo para o acervo do Museu da República.

 
Dois meses mais tarde, em novo leilão, foram oferecidas 239 peças do Sítio do Dragão, onde Figueiredo passou muito tempo depois de sair do governo. Até a propriedade foi colocada à venda, mas ninguém se interessou em pagar os 5 milhões de reais pedidos na época. Ali, em meio a outras seis pequenas esculturas de cavalos, o animal em tamanho natural foi a estrela da noite. No entanto, acabou arrematado por apenas 14 mil reais. “Comprei no susto. Acho que o povo se distraiu na hora e eu levei”, brinca Machado, que ouviu uma profecia do leiloeiro logo depois de soar o martelo: “Você ainda não sabe o que tem nas mãos. Vai ser uma surpresa, você nunca vai ter coragem de vender esse cavalo.”

Antes mesmo de levar a peça para a loja, Machado recebeu o telefonema de um criador de cavalos. O sujeito queria trocar a escultura de madeira por um de seus melhores animais. Vivo. “E o que é que eu ia fazer com um cavalo de verdade numa loja de antiguidades?” O bicho de pinho-de-riga, que já esteve exposto no corredor do shopping, agora divide espaço na vitrine com candelabros, lustres e pratarias, e virou o chamariz da loja. “É a minha maior propaganda, conhecido no mundo todo. Saiu até em uma revista italiana”, festeja Machado.

Oito em cada dez pessoas que entram na loja perguntam pelo preço da escultura. Três universidades, vários empresários e até um bicheiro já tentaram levá-la. A maior oferta que Machado diz ter recebido foi de 1 milhão e meio de reais. “Todo mundo quer, mas quanto mais eles querem comprar, mais eu não quero vender. Não posso vender a caneta com que eu escrevo”, diz o antiquário, realizando a profecia do leiloeiro.

Claudia Maximino

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