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Cavalos-marinhos

Um músico trans e uma cantora travesti esperam um filho

Marcella Ramos | Edição 179, Agosto 2021

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No dia 5 de junho, quando fez 27 anos, a cantora sergipana Isis Broken postou no Instagram um vídeo de um minuto e treze segundos em que aparece numa praia, radiante num vestido branco e segurando flores. Ao lado de seu parceiro, o músico paulista Lourenzo Gabriel, de 23 anos, ela diz que, entre os cavalos-marinhos, são os machos que engravidam, enquanto as fêmeas continuam esbeltas. “O mundo animal sempre dá um jeito de nos mostrar que somos agentes em constante processo evolutivo”, diz. Foi com esse vídeo que o casal revelou que a cantora, uma travesti, seria mãe, e que o músico, um homem trans, estava grávido e seria pai.

A música de Broken é uma mistura original de rap, bruxaria e cangaço. Seu primeiro álbum será lançado no mês que vem, mas ela já teve dez indicações a prêmios nacionais e internacionais. Em outubro de 2020, Gabriel começou a segui-la nas redes sociais. Quatro meses depois, foi encontrá-la em Aracaju – e não voltou mais a São Paulo.

Algumas pessoas trans têm disforia com relação ao corpo. Isso quer dizer que sentem um forte mal-estar psíquico devido à incongruência entre o indivíduo que são e o corpo com o qual nasceram. Gabriel era uma dessas pessoas e por isso começou a fazer tratamento hormonal a partir dos 20 anos. Quando foi para Aracaju, em fevereiro deste ano, ele já estava acostumado com a “passabilidade”: ser visto pela sociedade não mais como mulher, mas como homem. Mas, quatro meses antes, havia interrompido o uso de testosterona, o principal hormônio masculino.

Logo que se conheceram, os dois não acreditavam ser possível engravidar. Broken nunca fez uso de hormônio, mas Gabriel talvez já estivesse estéril por causa de seu longo tratamento. Entretanto, um mês e meio depois do primeiro encontro, o músico começou a sentir fortes dores no abdome. Fez um teste de gravidez, e o resultado foi positivo.

A primeira reação do casal foi um misto de susto, entusiasmo e apreensão. “Meus seios iam crescer, meu quadril ia se alargar, minha barriga ia ficar grande”, descreveu Gabriel à piauí. Ele também não poderia continuar com o tratamento hormonal durante a gestação. Ou seja, toda mudança que já alcançara seria revertida – a “passabilidade” teria que retroceder. “E eu não sabia como ia lidar de novo com as pessoas me vendo como mulher.”

Em julho passado, com cinco meses de gravidez, Gabriel ainda conseguia disfarçar a barriga e os seios. E havia encontrado meios de se tranquilizar. “Independente das modificações que meu corpo sofrer, eu continuo sendo homem. Sei que nossos corpos também foram feitos para passar por esse processo, homens também podem engravidar”, disse.

No início, Broken ficou tão apreensiva quanto o parceiro. “Eu sentia que eu não tinha competência para ser mãe”, contou. “Mas, se já tenho 27 anos, quando é que eu estaria preparada?” Aos poucos, ela passou a entender que seu medo estava ligado às imposições de uma sociedade ciscentrada, que define os gêneros como sendo aqueles com os quais nascemos – ou masculino ou feminino – e não consegue aplicar a Broken o papel de mãe. As pessoas, disse ela, “reservam os nossos corpos [das travestis] apenas para o sexo de não procriação, a serviço do homem cisgênero, que usufrui desse sexo estéril. Assim nos roubam a vontade de ser mãe”.

 

No fim de abril, Gabriel começou a ter sangramentos e precisou ir ao médico para consultar sobre a gravidez pela primeira vez. Ao chegar à Unidade Básica de Saúde (UBS), apresentou a carteira do SUS de São Paulo, na qual constava seu nome social. A carteira foi recusada. Exigiram que ele apresentasse outra, com nome de batismo e sexo feminino – apesar de o decreto nº 8727, de 2016, definir como norma à administração pública aceitar o nome social de pessoas trans e travestis. Gabriel obteve uma nova carteira e voltou ao SUS. Foi atendido por uma enfermeira que o tempo inteiro o chamou de “ela” e de “mãe”.

Duas semanas depois, o sangramento se intensificou, e o casal procurou uma maternidade. Quando Gabriel foi chamado para o atendimento, o seu nome de batismo ecoou pela sala lotada. As pessoas na sala se entreolharam espantadas, enquanto ele se dirigia ao consultório. Broken ouviu uma mulher comentar: “Mas ele é um homem. Como é que pode engravidar? Então, ele não é um homem.”

Ao examinar o sangramento, a médica orientou Gabriel a marcar um ultrassom, para saber sobre o estado de saúde do feto. No fim de maio, quando foi chamado pelo SUS para fazer o exame, Broken achou que poderia acompanhar seu parceiro na hora do ultrassom, mas a equipe médica proibiu. Chorando, a cantora deu seu celular para que ele gravasse o atendimento. Apenas quando já estava dentro do consultório Gabriel descobriu que não faria um ultrassom comum, mas o transvaginal, por causa do tempo avançado da gravidez. “E em momento nenhum o médico olhou para a minha cara. Ele fazia as perguntas para as meninas que estavam na sala, não para mim”, recordou. O feto, felizmente, estava saudável.

 

Foi depois do exame que o casal postou o vídeo contando sobre a gravidez. Mas logo Broken e Gabriel perceberam que haviam criado para seus seguidores uma imagem edulcorada da situação que enfrentavam. “A gente romantizou demais um processo que não estava sendo nada romântico.” Àquela altura, Gabriel estava com quatro meses e ainda não havia feito nenhum outro exame pré-natal, fora o ultrassom. Aconselha-se que o pré-natal deva ser feito mensalmente, logo após a descoberta da gravidez, mas só de pensar em voltar ao médico o casal já se estressava.

No Instagram, Broken publicou uma série de vídeos e textos denunciando os episódios de transfobia durante os atendimentos e ainda registrou um boletim de ocorrência. Os posts viralizaram, e o casal começou a receber apoio de diversas partes do Brasil, inclusive de médicas obstetras que se dispuseram a acompanhar a gravidez de Gabriel e o nascimento de Apolo, o nome escolhido para a criança, que já foi motivo de crítica por parte de algumas pessoas. “Só porque somos um casal trans temos que escolher um nome agênero? Essa noção é muito limitante e a nossa gestação é tudo menos limitante”, defendeu Broken.

Recentemente, o casal decidiu fazer um documentário sobre a gestação. Para se informar, procuraram filmes com relatos sobre casos parecidos com o deles. Só encontraram comédias em que homens cis fingem estar grávidos. “Eu acredito que nem toda transfobia é intencional, há também falta de informação. Fazer esse filme seria uma forma de informar”, disse Broken. Ela também está escrevendo um livro com a história da gravidez e já sabe qual será o título: Maternidade Travesti.