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Ceci n’est pas une poire

Um retratista da polícia insiste em trabalhar com lápis e papel

Camila Régis | Edição 61, Outubro 2011

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Com um lápis 2B na mão direita, o paulistano Yoshiharu Kawasaki esboçou num bloco de notas traços grosseiros que remetiam a uma pera. Logo depois, desenhou outro rabisco amorfo que se assemelhava a uma maçã. Questionou então o interlocutor sobre o que acabara de desenhar e sorriu ao ouvir o nome das frutas que esperava como resposta. Para dar força a seu argumento, tomou o tempo de, por cima dos traçados toscos, desenhar novas versões das frutas, agora primorosas e inequívocas. “Todo mundo sabe que aquele desenho não é uma pera ou uma maçã. Na verdade, um desenho é sempre uma impressão. Somos induzidos a pensar assim. Essa é a função do retrato falado.”

Há vinte anos, Yoshiharu Kawasaki é retratista da Polícia Civil de São Paulo, lotado no Departamento de Investigações sobre Crime Organizado – o DEIC, localizado no bairro do Carandiru, na Zona Norte da capital. Aos 47 anos, ele é um baixinho simpático, de cavanhaque meio grisalho, que os colegas preferem chamar de Yoshi – “quer dizer dinossauro do Mario Bros em japonês”, brinca o desenhista.

Yoshi é o autor de obras de projeção nacional. Em julho de 1998, emissoras de televisão, jornais e revistas de todo o Brasil veicularam o desenho que ele fez de um rapaz moreno, de barba rala e cabelos enrolados. O retrato falado do motoboy Francisco de Assis Pereira, o Maníaco do Parque, ainda é sua obra mais conhecida, embora poucos lhe atribuam a autoria.

 

Os colegas de Yoshi já não se valem tanto do lápis e do papel. Entre eles, impera o uso de programas de computador em que o retratista monta o rosto do acusado escolhendo entre vários modelos disponíveis de cabelo, nariz, olhos, boca e outros traços. Mas Kawasaki se sente desconfortável com os retratos falados digitais. “O que sai do computador é uma foto”, comparou, enquanto brincava com uma lapiseira cinzenta de grafite 0,5 milímetro. “Isso cria muita expectativa na vítima. Ela acha que o acusado vai ser preso no dia seguinte.”

No DEIC, Yoshi é o último retratista a fazer uso apenas do lápis e do papel. Outros dois colegas também recorrem à técnica esporadicamente, mas têm nos softwares seu principal instrumento de trabalho. Não que Yoshi não domine essas ferramentas. Ele até sabe usar os programas que fazem retratos falados digitais. Mas se diz pouco à vontade com o mouse. “O comando para fazer essa coisa qual é?”, confunde-se. “Até eu lembrar e pesquisar 100 tipos de olhos, a pessoa já perdeu o foco do que estava falando.”

 

Yoshi pratica desenho desde os 6 anos. Sua intimidade com o lápis ganhou reconhecimento profissional quando um superior pegou-o rabiscando, distraído, a mesa de fórmica do refeitório, nos anos 80. Trabalhava então como técnico em eletrônica na Dynacom, empresa brasileira que fabricava videogames e outros eletrônicos. Em vez de puni-lo, o chefe enxergou seu talento e preferiu promovê-lo. Yoshi passou a desenhar circuitos impressos para a empresa. Ali ficou até 1991, quando passou num concurso para a Polícia Civil.

 

Na repartição, seus dedos ágeis são valorizados também pela habilidade para a acupuntura. Depois que Yoshi fez cursos para aprender a manejar as agulhas, é comum vê-lo no 1º andar do DEIC exercendo a técnica da medicina chinesa entre um retrato e outro. Os pacientes são em sua maioria investigadores na pausa para o café, policiais em horário de folga e até algumas vítimas.

 

Para construir retratos, o segredo de Yoshi é não se ater apenas aos traços faciais. Ele só começa a desenhar depois de perguntar às testemunhas detalhes que podem parecer desnecessários a um leigo, como o peso, o jeito de andar ou alguns trejeitos dos suspeitos a serem retratados. Saber que um acusado é risonho ou sisudo, por exemplo, pode inspirar covinhas e rugas determinantes para sua identificação.

Ninguém pode acusá-lo de ineficácia. Cerca de 30% dos casos em que ele atua são resolvidos – taxa que julga satisfatória. No total, estima já ter feito uns 6 mil desenhos nas suas duas décadas como retratista da polícia. Sua consagração maior foi ter ajudado a identificar um suspeito com um desenho do único aspecto que a vítima conseguiu presenciar – as costas do criminoso um pouco calvo. Pouco tempo depois, o sujeito – acusado de homicídio duplamente qualificado, com requintes de crueldade – teve sua nuca reconhecida em Goiânia e foi detido pelos policiais.

 

O desenhista já teve também seus dotes artísticos recrutados para tarefas extrapoliciais. Na edição de 2009 da Flip, foi contratado por um site de literatura para desenhar as personagens literárias favoritas descritas pelo público – deu vida a Capitu, Macabéa e outras figuras da ficção. Sua missão mais inglória, no entanto, foi ilustrar um chupa-cabra para a reconstituição feita por uma emissora de tevê. Yoshi não conta esse trabalho entre seus maiores êxitos: seu desenho em nada ajudou a encontrar a criatura. Talvez aquilo não fosse um chupa-cabra.

Camila Régis

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