questões políticas

Celso Pitta e o destino do lulismo

A herança pesada de Dilma diante da crise e da ascensão da direita

Fernando de Barros e Silva
ILUSTRAÇÃO: GLAUCO_2010_FOLHAPRESS

Em 1997, um tecnocrata de perfil apagado, fala meio truncada e expressão assustadiça foi conduzido ao comando da Prefeitura de São Paulo pelas mãos de seu padrinho. Paulo Maluf havia encerrado seu mandato com aprovação recorde, e anunciava com espalhafato o orgulho de ter passado as chaves da maior cidade brasileira a um negro.

Economista com passagem por Harvard, Celso Pitta havia feito carreira discreta à sombra do malufismo (primeiro nas empresas da família, depois como secretário de Finanças de São Paulo) e jamais imaginou que pudesse chegar tão longe. Maluf repetia a todos o que disse ter falado ao próprio: “Você tem tudo para se tornar o Nelson Mandela brasileiro.” Sob o escárnio da retórica patriarcal e triunfante, o que estava em jogo era a permanência de um esquema de poder (os petistas gostam de falar “projeto”) na prefeitura para dar suporte material às ambições políticas do padrinho (àquela altura Maluf sonhava intensamente com a Presidência da República). O esquema, como se sabe, desmoronou.

Sem dinheiro, com a prefeitura atolada em dívidas em razão da gastança desenfreada que haviam patrocinado no período anterior, padrinho e afilhado logo se desentenderam, até romper relações. O futuro Mandela passou a ser chantageado pela vereança malufista – boa parte da qual afundada, ela própria, na corrupção (o caso da Máfia dos Fiscais é dessa época). Pitta atravessou seu governo como um sonâmbulo, vagando entre escândalos. Teve contra si quatro pedidos de impeachment, todos arquivados, e chegou a ser apeado do cargo por algumas semanas, até recobrar na Justiça o direito de voltar à cadeira para se arrastar até o final do mandato. Tragado pela máquina que o engendrou, ele passou de herdeiro a coveiro do malufismo. Paulo Maluf, desde então, nunca mais se elegeu a um cargo do Poder Executivo. E Pitta foi esquecido em vida, muito antes de morrer, em 2009. Passemos a 2015.

 

A popularidade de Dilma Rousseff atingiu o volume morto. A presidente também parece uma sonâmbula no cargo. O início de seu segundo mandato é digno de Celso Pitta. Seria injusto, no entanto, compará-la sem mais ao pupilo de Maluf. Não pesa sobre Dilma, até o momento, nenhuma denúncia de corrupção. Pitta acumulou várias ao longo da vida. No caso da presidente, os malfeitos, para usar um jargão que é dela, ocorreram à sua volta, sem que ela soubesse. Assim foi com a acusação de tráfico de influência praticado por sua secretária-executiva, Erenice Guerra, dentro do Palácio do Planalto, quando era ministra da Casa Civil; assim foi com o prejuízo de 800 milhões de dólares na compra da refinaria de Pasadena pela Petrobras, quando ela presidia o Conselho de Administração da empresa.

Guardadas as enormes diferenças entre os personagens, a herança de Dilma, a primeira mulher presidente do Brasil, parece, como no caso de Pitta, pesada demais. Refém da arca fisiológica que Lula lhe legou, ela, a despeito de todas as concessões, perdeu o controle sobre sua base parlamentar – hoje não se sabe mais quem está e quem não está com o governo. Arrolados como suspeitos no escândalo do Petrolão, os presidentes da Câmara e do Senado decidiram dobrar sua aposta contra a presidente: nunca, desde o impeachment de Collor, o Executivo foi confrontado, derrotado e desmoralizado pelo Legislativo como agora.

Se a defesa é o melhor ataque, como se diz na gíria esportiva, também é verdade que o tombo é proporcional à altura. Tanto Eduardo Cunha como Renan Calheiros sabem disso muito bem. O cálculo, no caso deles, parece ser outro: quem cai antes? Ou quem tem mais condições de empurrar quem para o buraco?

 

Todos os governos precisam dos serviços do PMDB. Mas ninguém o leva a sério desde… a morte de Ulysses Guimarães, se quisermos fixar uma data de outra era geológica. De lá para cá, o PMDB se tornou isso: o maior conglomerado de bucaneiros do espectro partidário, um imenso parasita do Estado, que usa seu tamanho para vender governabilidade no atacado e faturar no varejo da política.

O deputado Jarbas Vasconcelos, ex-governador de Pernambuco e voz dissonante no partido, certa vez declarou que o PMDB se especializou “nessas coisas pelas quais os governos são denunciados: manipulação de licitações, contratações dirigidas, corrupção em geral”. Isso foi em 2009. O leitor julgue se a sentença está com o prazo de validade vencido.

O fato é que, apesar de ser o que é, o PMDB conquistou ares de respeitabilidade desde que a crise começou. Calheiros se sentiu à vontade para dar lições de moral e boa governança a Dilma. Proclamou ser chegada a hora do programa “Menos Ministérios” – “no máximo vinte” dos 39 atuais (só não explicou quantos deles para o próprio PMDB) –, e foi além: “menos cargos comissionados, menos desperdício e menos aparelhamento do Estado”. Um artista. Quem, a essa altura, vai ser contra a lembrança de que o bom exemplo começa em casa? O governo não tem argumentos.

 

Mas quem caiu nas graças de certa imprensa no curso da crise foi Eduardo Cunha. É o presidente da Câmara, e não o PSDB, quem dá hoje o tom da oposição ao governo no Congresso. É ele quem encarna e galvaniza dentro do sistema político o sentimento antipetista.

Cunha é uma espécie de genérico de Carlos Lacerda. Faz um tremendo sucesso num momento em que tudo na vida do país parece ser de segunda mão. Com ele, diante das incertezas políticas do quadro atual, o PMDB vislumbra a possibilidade de aglutinar em torno de si algo parecido com um projeto. Não mais o projeto nacional-desenvolvimentista, ao qual um dia sua imagem foi associada, mas um arremedo de projeto liberal-conservador, em sintonia com os ventos que sopram das ruas, que fale tanto à população evangélica, particularmente sensível à pauta dos costumes, como à massa crescente de insatisfeitos, para quem o Estado é um estorvo e pagar imposto equivale a alimentar a máquina do assistencialismo petista. Eduardo Cunha é um reacionário militante e ruidoso (“Aborto, nem que a vaca tussa”, disse recentemente), um quadro em ascensão da direita ideológica. É claro que a Lava Jato pode abatê-lo em pleno voo.

A vitória de Cunha deu vazão a um ressentimento generalizado em relação ao PT no Legislativo. Pelas expressões de satisfação e euforia da arraia miúda a cada pequena derrota que o Congresso impinge ao governo, tem-se a nítida sensação de que só esperam pelo momento do apito para pular de vez do barco. Nas ruas, por sua vez, o desrecalque assumiu contornos de ódio: “Malditos”, dizia um cartaz na avenida Paulista; “Filhos Dilma PuTa”, acusava outro; “Ei, Dilma, vai tomar no cu!” ou “Lula, cachaceiro, devolve meu dinheiro!” tornaram-se gritos de guerra recorrentes e triviais, entoados em fúria cívica por grupos vestidos de verde e amarelo nos vagões do metrô, sob o vão do Masp, na companhia das crianças.

 

No dia 15 de março, quando o Tucanistão desceu de seus apartamentos para ocupar a avenida, a crise galgou alguns degraus e mudou de patamar. O que se viu na Paulista foi a maior mobilização de rua desde a campanha pelas Diretas e a primeira manifestação de massa de direita no Brasil em cinquenta anos. Que ninguém se iluda: ali algo começou a tomar forma.

Não significa, obviamente, como notou o cientista político Cláudio Couto no Estado de S.Paulo, que todos os manifestantes fossem de direita. A força do que aconteceu está exatamente nisso: “A direita capitaneou uma mobilização que a ultrapassa.”

A certa altura, um dos carros de som que estavam na avenida puxou um Pai-Nosso. Parte da multidão entrou na reza. “Perdoai as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido. E não nos deixeis cair em tentação, mas livrai-nos do mal – e do comunismo!”, berrou o locutor, antes de emendar com um “amém” eufórico, daqueles de festa do peão em Barretos. Instantes depois, insuflados pelos organizadores, manifestantes passaram a cantar uma versão de Para Não Dizer que Não Falei das Flores, o clássico de Vandré. Na paródia, o refrão “Vem, vamos embora, que esperar não é saber/Quem sabe faz a hora, não espera acontecer” se transformou em “Dilma, vai embora, que o Brasil não quer você/E leva o Lula junto, e os vagabundos do PT”.

Emulando a Marcha da Família com Deus pela Liberdade, às vésperas do golpe de 1964, ou escarnecendo do hino da esquerda contra a ditadura em 1968, às vésperas do AI-5, os manifestantes tomavam posse simbólica das ruas: a direita voltou – este é o recado do morro.

 

Em 2013, comentando no calor da hora as manifestações de junho que haviam virado o país de pernas para o ar, o crítico Roberto Schwarz manifestou da seguinte forma a sua surpresa: “Foi tudo muito rápido. Em duas semanas, o Brasil que diziam que havia dado certo, que derrubou a inflação, que incluiu os excluídos, que está acabando com a pobreza extrema, que é um exemplo internacional – este Brasil foi substituído por outro país muito pior, em que o transporte popular, a educação e a saúde são um desastre, em que a classe política é uma vergonha, sem falar na corrupção. Qual das duas versões estará certa? É claro que todos esses defeitos já existiam antes, mas eles não pareciam o principal; e é claro que aqueles méritos do Brasil novo continuam a existir agora, mas parece que já não dão a tônica.”

O diagnóstico feito em cima do laço captava com precisão as contradições daquele momento. Mas de lá para cá a situação só se deteriorou. A inflação voltou a nos assombrar; a imagem internacional do país se desmanchou (e só não está completamente arruinada porque a condução da economia foi entregue nas mãos de um liberal fisgado do sistema financeiro); a corrupção mudou de escala, explodiu a ponto de transformar a soberba de Delúbio Soares numa profecia que, enfim, se realizou: o mensalão virou piada de salão; por fim, as conquistas sociais da última década estão mais do que nunca ameaçadas. É muito provável que em poucos meses, talvez antes, tenhamos uma péssima surpresa quando alguém aferir o que sobrou, ou a que foi reduzida a classe C. O que está em xeque – no momento em que a corrupção atinge os píncaros e a promessa de um país melhor, mais decente e socialmente justo, embica para baixo – é, para falar sem eufemismos, a versão petista do “rouba, mas faz”. O “rouba, mas distribui” parece ter entrado em colapso.

A aproximação entre Lula e Maluf é sempre chocante. Não são nem nunca foram pessoas iguais. Mas já foram mais diferentes, e antípodas durante muito tempo. Quem tornou a comparação possível não foi Maluf, que pouco mudou desde a ditadura, mas Lula, talvez o maior líder popular que o país já conheceu, no momento em que aceitou se associar e patrocinar a sobrevida do que há de pior na política brasileira, tudo em nome… em nome de quê, afinal?

Há um aspecto, no entanto, em que Lula e Maluf se confundem. Tanto Pitta quanto Dilma são quase caprichos de seus criadores. A despeito da distância entre eles, o prefeito negro e a presidenta chegaram lá para perpetuar ou afirmar o poder do chefe. A conquista das minorias historicamente subjugadas vem carimbada, em ambos os casos, com o selo do paternalismo, de forma que o gesto de emancipação anunciado pelo marketing não passa, na verdade, de uma maneira de reiterar o conservadorismo arraigado no país. Dilma mereceria sorte melhor, mas teria que nascer de novo para se livrar a essa altura da tutela do padrinho. É provável que passe à história como coveira do lulismo.

Fernando de Barros e Silva

Fernando de Barros e Silva é diretor de redação da piauí desde janeiro de 2012 e autor de Chico Buarque (2004), da PubliFolha

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