carta do reino unido

Cenas de um Brexit sem fim

As consequências da pequena rebeldia britânica

Tom Whyman
O que ocorrerá no Reino Unido? O Brexit pôs a nu o egoísmo e a incompetência da classe governante britânica, gente que não tem nenhum interesse genuíno pelo bem-estar dos seus cidadãos, mas também tornou fútil toda possibilidade de resistência ao establishment político
O que ocorrerá no Reino Unido? O Brexit pôs a nu o egoísmo e a incompetência da classe governante britânica, gente que não tem nenhum interesse genuíno pelo bem-estar dos seus cidadãos, mas também tornou fútil toda possibilidade de resistência ao establishment político Imagem: JOHN SPRINGS_RANSOM ART_WWW.MARKRANSOM.CO.UK

num artigo que escrevi para esta revista, em 2016, comparei a sensação que o Brexit produzia em mim com a de “levar um murro na cara, só que bem devagar” ou, quem sabe, com a de “um animal que está preso, e o espaço confinado onde ele se encontra está começando a se encher de água”. Agora, quase três anos depois, a boa notícia é que o Brexit não me provoca mais essa reação. O pânico passou e acabou substituído por outro sentimento. O Brexit, hoje, me parece antes uma piada estúpida e longa demais – como se todo o Reino Unido tivesse se convertido numa série de humor vulgar e mal produzida que nunca termina.

À medida que o processo atravessa o que deveriam ser seus momentos finais (ou foi isso, pelo menos, o que nos disseram), o país parece assolado por metáforas que, se tivessem sido produzidas por algum escritor e não por fatos reais, seriam criticadas por seu caráter óbvio e excessivo: no início de abril, a Câmara dos Comuns foi obrigada a encerrar sua sessão diária depois que um cano rompeu e começou a vazar na tribuna de imprensa; poucos dias depois, um caminhão carregado com 17,4 toneladas de peças de toucinho (a carne de porco curada que tem, entre seus nomes locais, o de gammon, que – por vários motivos singulares demais para serem explicados a um não britânico – acabou por tornar-se sinônimo de “cidadão de meia-idade furiosamente partidário do Brexit”) explodiu em chamas perto da cidade de Plymouth, no sudoeste da Inglaterra.

“Quem consegue entender o Brexit?”, perguntou Danny Dyer, um ator muito popular na Grã-Bretanha, num programa político da tevê em meados do ano passado. “Ninguém tem a mais vaga ideia de como vai se dar essa porra de Brexit… é tudo uma comédia. Ninguém sabe do que se trata. Parece uma charada, uma piada de mau gosto.” Pronunciadas com o forte sotaque popular londrino de Dyer, essas palavras davam a impressão de brotar do inconsciente de toda a nação – embora não com força suficiente, ao que tudo indica, para que nossa classe jornalística, ou nossos políticos, se dessem ao trabalho de tomar alguma providência.

 

6 de dezembro de 2016
Seis meses depois do referendo sobre o Brexit

uma entrevista à BBC a bordo de um navio de transporte de helicópteros na costa do Bahrein, Theresa May tentou definir a estratégia ainda nebulosa de seu governo para o Brexit. Meses antes, ao se tornar primeira-ministra logo após a vitória da opção pela saída da União Europeia, ela havia sido saudada – apesar de sua atuação funestamente reacionária como ministra do Interior – como uma liderança firme e confiável. No navio, May disse que não promoveria um Brexit “duro ou suave”, um Brexit “cinza ou branco”, mas um Brexit “vermelho, branco e azul”, as cores da bandeira do Reino Unido. Mas se recusou a explicar o que aquelas palavras significavam exatamente – se é que elas queriam dizer alguma coisa.

 

É bem estranho escrever um artigo aparentemente retrospectivo sobre o Brexit para leitores de um outro país, tão distante da Europa e que nem se julga conectado a esse tipo de problema. Do ponto de vista estritamente técnico, o Reino Unido deveria ter deixado a União Europeia em 29 de março de 2019, dois anos depois de ter invocado o artigo 50 – o mecanismo constitucional que rege sua retirada da UE. Apesar disso, ainda não sabemos, no momento em que escrevo este texto, que “tipo” de Brexit irá ocorrer, ou mesmo se a saída da União Europeia realmente vai acontecer. O prazo inicial foi estendido uma primeira vez para o dia 12 de abril e, depois de nova prorrogação, agora a nossa saída está prevista para o dia 31 de outubro – embora ainda haja, tecnicamente, muita coisa que possa provocar a saída da UE ainda antes disso.

Como pode alguém – tenha essa pessoa cidadania britânica ou não – explicar ao mundo o que está acontecendo? O Brexit mantém com o conhecimento uma relação comparável à que um buraco negro tem com a luz: ele impede que dele se extraia qualquer clareza, engole toda e qualquer ideia e emperra a razão. Não há quem entenda o Brexit: algum aluno brilhante do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) pode vir um dia a tornar mais perfeita a comparação entre o Brexit e um buraco negro, desenvolvendo um algoritmo que nos permita representá-lo de maneira adequada. Por enquanto, o melhor que se pode fazer é tentar explicar por que o Brexit produz essa sensação de falta de compreensão em cada um de nós.

Pode-se identificar um grande medo, ao menos: para as pessoas do centro à esquerda, o temor é de que o Reino Unido se retire da União Europeia sem que se chegue a qualquer acordo específico quanto às relações futuras entre as duas partes, e que, portanto, elas passem a ser comandadas pelas regras básicas da Organização Mundial do Comércio. Isso de certa maneira daria forma final ao golpe nativista, nostálgico dos dias heroicos do Império Britânico, que para a extrema direita o Brexit sempre significou: a retirada viria acompanhada de um festival de medidas de desregulamentação econômica e de cortes de gastos, com ataques aos direitos de trabalhadores e imigrantes. A libra esterlina se desvalorizaria, o custo de vida iria disparar, e o choque inicial levaria no mínimo a uma escassez de alimentos, remédios e até – preveem alguns especialistas – de papel higiênico (pode ser que a saída da União Europeia finalmente obrigue a Grã-Bretanha a adotar o mais europeu dos equipamentos: o bidê). Uma fronteira física seria instalada, separando os seis condados da Irlanda do Norte da República da Irlanda, ao sul, e ameaçando de morte o Acordo de Belfast.[1]

Esforços têm sido feitos no Parlamento britânico para impedir esse cenário de retirada sem acordo, chamado de No Deal. Há clara maioria contrária a esse tipo de saída na Câmara dos Comuns, mas grande parte das medidas aprovadas por ela até aqui parecem preocupantemente incapazes de descartar de maneira definitiva o No Deal. A maneira mais óbvia de realmente impedir a retirada sem acordo seria a ratificação dos entendimentos negociados por Theresa May com a UE, mas os membros do Parlamento têm evitado essa alternativa – e por bons motivos. Os termos propostos por May garantem muito pouca coisa. De um lado, o Brexit sonhado pela extrema direita continuaria politicamente possível. De outro, se os problemas ligados à manutenção da fronteira aberta com a Irlanda não forem solucionados (e quem tem algum motivo para achar que serão?), o Reino Unido, com o tempo, poderá recair numa espécie de união aduaneira precária e semipermanente; a fim de manter a fronteira aberta, a Grã-Bretanha precisaria assinar um acordo de livre-comércio com a União Europeia. Nesse caso, o Reino Unido ficaria independente da UE, na medida em que abdicaria dos direitos associados à condição de membro, mas os termos propostos por Theresa May equivaleriam a continuar conferindo à UE o poder de determinar o futuro da Grã-Bretanha.

Em janeiro, esses termos propostos por May foram rejeitados pela Câmara dos Comuns, com a maior margem de votos de toda a história política britânica; apesar das objeções do speaker, o presidente da Câmara (que invocou precedentes parlamentares numa tentativa de bloquear votações repetidas sobre o mesmo tema), a primeira-ministra voltou a submeter, outras duas vezes, a questão ao Parlamento. A cada votação, a margem de votos que a derrotou foi menor, mas ela nunca chegou a dar a impressão de que poderia ganhar o escrutínio.

 

18 de abril 2017
Dez meses depois do referendo do Brexit

Animada por um triunfalismo neoimperialista, lisonjeada pela primeira página que estampava um desenho seu de pé nos penhascos de Dover e a definia como uma “nova Dama de Ferro”, pronta a conduzir a Grã-Bretanha para uma idade de ouro pós-Brexit, e com os conservadores bem posicionados nas pesquisas, Theresa May compareceu à porta da residência em Downing Street para anunciar uma eleição geral, a ser realizada ainda em junho daquele ano.

No dia seguinte, o Daily Mail, um tabloide de direita, publicou na primeira página uma foto em close-up do rosto de May e a manchete “ESMAGUE OS SABOTADORES”. O resultado das eleições parecia líquido e certo: cinco anos a mais de hegemonia do Partido Conservador. Sem conseguirem definir nenhuma política clara quanto ao Brexit, até mesmo os próprios deputados do Partido Trabalhista começaram a tratar abertamente da possível derrota de sua legenda. Como poderiam recuperar-se daquela situação? Com esse cenário ao fundo, o que aconteceu em seguida foi fora do comum. O Partido Trabalhista de Jeremy Corbyn disputou uma campanha eleitoral brilhante, desviando o foco do Brexit e concentrando-se nas políticas fracassadas dos conservadores no front doméstico; ao mesmo tempo, May – até então aparentemente próxima de se tornar objeto de um verdadeiro culto à personalidade – perdeu terreno ao se ver submetida a essa exposição adicional, enquanto se recusava a tratar diretamente das diretrizes políticas de seu partido em debates pela tevê.

No fim das contas, o Partido Trabalhista não chegou a vencer, mas os tories, como são conhecidos os conservadores, perderam a maioria de que dispunham, o que obrigou May a fazer um acordo com o Partido Unionista Democrático da Irlanda do Norte, marcadamente de direita. Depois de passar toda a campanha eleitoral tentando minar as propostas dos trabalhistas contra suas medidas de austeridade, afirmando não existir “uma árvore mágica que dá dinheiro” para resolver todos os problemas do reino, os entendimentos com o partido norte-irlandês foram selados com uma propina de 1 bilhão de libras, na forma de um “acordo de investimento”. Embora tenham proporcionado a extensão do governo de Theresa May, seus novos aliados nunca deram seus votos em apoio aos termos que a primeira-ministra propunha para o Brexit.

 

A maneira mais óbvia de sair do impasse parlamentar em torno do Brexit seria May promover um entendimento com a oposição trabalhista (com o voto de cujos deputados poderia passar a contar) em torno de uma saída política da UE que previsse uma união aduaneira permanente – termos que a UE já indicou que tenderia a aprovar. Uma solução desse tipo teria a vantagem de tornar efetivo o resultado do referendo de 2016, botar em prática o Brexit, ao mesmo tempo que manteria um razoável grau de segurança quanto ao futuro, tanto para o Reino Unido quanto para a Irlanda: no fim das contas, talvez fosse a solução que produziria menos discórdia e prejuízos.

No momento em que escrevo este artigo, ainda se registram discussões entre os dois partidos, que inicialmente pareciam ter como objetivo alcançar um acordo mais ou menos nesses termos. Mas não parece provável que superem um dos obstáculos fundamentais à possibilidade de uma união aduaneira: qualquer acordo desse tipo significaria que o Reino Unido, embora não mais sujeito às leis da UE, perderia o poder de controlar a imigração originária do resto da Europa – questão que os dois lados consideram, com ou sem razão, o fator decisivo para o resultado do referendo de 2016. Permanecer numa união aduaneira também acarretaria, para o Reino Unido, a impossibilidade de negociar acordos comerciais próprios com parceiros externos – coisa que os defensores do livre-comércio do lado conservador fazem questão de manter. Os tories, em particular, se mostram preocupados com a possibilidade de uma reação adversa de sua base de apoio.

Outra solução seria o Reino Unido promover um segundo referendo – por exemplo, um plebiscito que escolhesse entre ratificar os termos propostos por May ou simplesmente cancelar todo o Brexit. Essa é há muito a opção favorita dos políticos de centro, que jamais se conformaram com o resultado de 2016. Para todo o resto dos britânicos, porém, um segundo referendo só seria concebível como último recurso. É óbvio que a direita não quer outra eleição: “o povo” já lhe disse aquilo que desejava, ao votar pelo Brexit. A esquerda, por sua vez, preferiria uma eleição geral – a escolha de um novo Parlamento, que talvez pudesse propiciar a formação de um governo trabalhista comandado pelo líder supostamente mais à esquerda de toda a história do partido. Um novo pleito, no entanto, é muitíssimo improvável, uma vez que a Lei dos Parlamentos com Mandato Fixo, de 2011, um mecanismo constitucional bizarro que nem recebeu o devido escrutínio quando estava em processo de aprovação, prevê que uma próxima eleição só poderá acontecer antes de 2022 se ela for aprovada por dois terços dos membros da Câmara dos Comuns. E os conservadores jamais contribuiriam para isso: a seu ver, um governo chefiado por Jeremy Corbyn seria um desastre tão grande quanto, na opinião da esquerda, o No Deal, uma retirada sem acordo da União Europeia.

Por último, Theresa May poderia decidir, unilateralmente, cancelar ela própria todo o processo, lançando mão de seus poderes executivos para revogar o artigo 50. Mas isso não irá acontecer nem em um milhão de anos: se a simples perspectiva de manutenção do Reino Unido numa união aduaneira poderia desencadear uma reação na base conservadora, a permanência total na UE seria vista como uma traição flagrante. O partido de May já tem muito poucos eleitores com menos de 50 anos; se o Brexit não acontecer, é improvável que sobreviva sequer às próximas duas décadas (como alguém de esquerda, é claro que a princípio considero a destruição do Partido Conservador um evento bastante auspicioso – não fosse pelo perigo de que os tories venham a ser substituídos por coisa pior.)

 

Em várias ocasiões entre o final de 2018 e o início de 2019
Mais ou menos dois anos e meio depois do referendo sobre o Brexit

P ode ser que Theresa May tenha acabado de convocar uma votação parlamentar sobre sua proposta de acordo para o Brexit. Pode ser que tenha sobrevivido a um voto de confiança para permanecer na liderança do Partido Conservador – ou talvez o voto de confiança tenha sido, dessa vez, no seu governo. Seja como for, em algum momento dessa noite – às oito, ou às dez da noite – Theresa May irá fazer um pronunciamento à nação. As câmeras se aglomeram ao redor de Downing Street. Todos os canais de notícias mantêm repórteres a postos em frente à porta fechada da primeira-ministra. O que ela irá dizer? Circulam tuítes eletrizantes – por exemplo: “Cancelem seus planos para o jantar.” O tempo passa. Ela se atrasa. Finalmente emerge da residência, às 22h45. “Em junho de 2016”, diz, “o povo britânico votou a favor do Brexit. E minha intenção é cumprir essa vontade. Nada mudou.”

Como sempre, ela reafirma a mesma coisa: a vontade do povo britânico. Que pretende honrar. Nada mudou (expressão que se converteu em seu bordão constante: antes, era “Brexit quer dizer Brexit”. Hoje, é “Nada mudou”). Nenhum reconhecimento de que alguma coisa pode ter acontecido (o que quer que esteja acontecendo). Não importa se foi derrotada no Parlamento, ou se deixará de liderar o Partido Conservador, ou se a maioria esmagadora da Câmara dos Comuns irá decidir enfiá-la num canhão imenso e dispará-la em direção à Lua – ela vai levar o Brexit adiante, que ninguém se iluda ou se preocupe com isso. Depois de mais ou menos cinco minutos de platitudes dessa ordem, May para de falar. E dá meia-volta, como um robô: primeiro se desloca noventa graus, faz uma pausa, depois percorre os noventa restantes. E volta, arrastando os pés, para dentro da residência de Downing Street. As imagens são prontamente transformadas em gifs. E pronto. No dia seguinte, as manchetes serão: “May se mantém desafiante blablablá.” É como se houvesse uma conspiração para que todos se recusassem a tomar conhecimento da incompetência da primeira-ministra.

 

No momento em que escrevo, o cenário mais provável que me ocorre é que May irá continuar a pedir adiamentos curtos à UE para cumprir o artigo 50, mesmo depois de 31 de outubro de 2019, e que a União Europeia continuará a concedê-los, visto que qualquer alternativa será provavelmente mais desastrosa para a República da Irlanda, com a qual a UE tem obrigações, por se tratar de um Estado-membro. Até que ponto irão esses adiamentos, não sei dizer. Antes de concordar com a protelação mais recente, a maioria dos Estados-membros da UE dava a impressão de se dar por satisfeita com o adiamento da saída da Grã-Bretanha até 2020: a única objeção substancial foi feita pela França. No momento atual, a data de abril de 2020 parece um bom palpite quanto ao limite da paciência da UE – no entanto, seja qual for esse limite, o mais provável é que May venha a tentar testá-lo e ultrapassá-lo.

Claramente, Theresa May espera que a Câmara dos Comuns acabe ratificando os termos que propõe para o Brexit, devido a alguma combinação de tédio e desespero: essa sua convicção reflete uma teimosia que – visto parecer ter resultado na transformação dessa mulher nada brilhante ou carismática na comandante daquela que de algum modo continua a ser a quinta maior economia do mundo – até hoje lhe tem prestado muito bons serviços. A intransigência de Theresa May tem algo de quase sobrenatural: se a estreiteza mental fosse um talento, ela estaria no mesmo nível de genialidade de um Roger Federer, por exemplo. Mas, diante da teimosia de um Parlamento irremediavelmente dividido, May parece ter finalmente encontrado um rival à altura.

 

14 de março de 2019
Dois anos e nove meses depois do referendo do Brexit

H ilary Benn, membro importante da bancada trabalhista, apresenta moção no sentido de transferir o controle da agenda parlamentar para os próprios integrantes do Parlamento a partir da semana seguinte, propiciando mais uma rodada de “sufrágios indicativos” sobre questões ligadas ao Brexit. Duas rodadas prévias de sufrágios indicativos, propostos como forma de superar o impasse criado pelas sucessivas rejeições aos termos propostos por May para o Brexit, resultaram em um sonoro “Não” para todas as opções, inclusive para o No Deal, a retirada sem acordo da UE, ou para o cancelamento puro e simples do Brexit. A emenda Benn recebe 310 votos a favor e 310 contra – e então, com base nas regras, o presidente da Câmara dos Comuns, John Bercow, usa seu voto de Minerva para rejeitar a proposta. Quando fico sabendo dessa notícia, não consigo deixar de rir. Chegamos a um novo nadir político, uma espécie de recorde: agora, a Câmara dos Comuns não consegue sequer tomar a decisão de tentar tomar uma decisão quanto ao Brexit.

 

Em meio a todo esse caos, duas coisas parecem bem claras. A primeira é que o Brexit não vai mais deixar de existir. O Brexit vai prosseguir no Reino Unido. Seja qual for o resultado final do processo, o país continuará sob seus efeitos. “O Brexit”, repisa sempre a primeira-ministra, “significa a saída da União Europeia.” Mas isso, vamos admitir, sempre foi uma mentira. Na verdade, o Brexit significa quase tudo, menos uma simples retirada.

Na superfície, de fato, o referendo e todo o processo que se seguiu a ele dizia respeito à saída da União Europeia (ou à permanência nela). Mas a maioria da população britânica não tinha – nem tem – uma compreensão precisa das implicações concretas de pertencer (ou não pertencer) à União Europeia. E como poderia ter? Na melhor das hipóteses, a União Europeia é uma instituição um bocado obscura – e a imprensa britânica nunca pareceu minimamente equipada para cobrir seu funcionamento de um modo informativo ou responsável (Boris Johnson, o último secretário de Estado das Relações Exteriores, um dos rostos mais conhecidos da campanha em favor da retirada da UE, fez seu nome como jornalista publicando matérias espúrias sobre como são ridículas as leis da União Europeia).

O Brexit, na verdade, tem a forma que tem porque foi essa questão – logo essa, a de permanecer ou não na União Europeia, entre tantas possibilidades – que se determinou submeter à decisão do eleitorado britânico, por meio de um referendo. É inegável que muita gente votou pela saída da UE porque não acha que a Grã-Bretanha deva fazer parte da Europa, ou porque se julgava cercada de um excesso de imigrantes. Mas outros votaram da mesma forma apenas por ser evidente que era assim que o governo de David Cameron não queria que votassem: sentiram-se atraídos pela emoção provocada por essa pequena rebelião, uma revolta em pequena escala; queriam poder “dar uma sacudida” nas coisas.

E vamos admitir: eles tinham bons motivos para se rebelar. A Grã-Bretanha vai mal das pernas: o governo de Cameron submeteu a nação a anos de austeridade que dizimaram os serviços públicos; no mesmo período, os salários pararam de acompanhar o aumento do custo de vida. O desemprego voltou a níveis relativamente baixos – mas cada vez menos gente tem o tipo de emprego estável, de tempo integral, que lhes permite pagar as contas e ainda guardar alguma sobra. Muitos dos problemas britânicos variam conforme a geração afetada: os cidadãos mais jovens enfrentam a desvantagem adicional dos preços inflados dos imóveis, o que, diante da maneira como a questão habitacional é equacionada no Reino Unido, torna muito difícil estabelecerem-se em qualquer lugar a longo prazo e com alguma segurança. Mas a alienação não afeta apenas uma determinada geração – e é verdade que a tendência a aprovar o Brexit se mostrou sem dúvida mais forte entre os britânicos mais velhos que entre os jovens (tendo sido a idade o único indicador claro do apoio à permanência ou à retirada; os jovens viam – e ainda veem – como representantes ideais de seus desejos de transformação política um Partido Trabalhista mais à esquerda do que nunca).

Sempre foi justa a vontade de dar um bom pontapé no meio da cara do governo Cameron: mas a questão é que o Brexit irá no mínimo agravar todos os problemas que a gestão conservadora já vinha causando. São muitos os motivos que fazem da UE uma organização muito imperfeita: mas não é ela que vem transformando a Grã-Bretanha num lugar cada vez mais difícil de se viver – acima de tudo, os responsáveis por esse estado de coisas são os tories. A origem de muitos problemas da Grã-Bretanha pode ser encontrada, claro, em problemas globais mais amplos, fora do controle do governo nacional: em cada um desses pontos, porém, a resposta dos tories aos desafios econômicos tem sido transferir o ônus de sofrimento para os mais pobres e vulneráveis.

O Brexit, para a maioria de seus apoiadores, significa uma forma de escapar das coisas como elas são, da realidade em que são obrigados a viver. Mas ele não modifica as bases reais desses problemas. (Os favoráveis mais radicais à permanência na ue, por sua vez, defendem atrasar o relógio de volta aos “bons tempos” anteriores ao referendo – para eles, a fonte de todo o mal é o próprio Brexit, não a imigração ou a austeridade. Entre as faixas ostentadas na marcha Stop Brexit, que reuniu 1 milhão de pessoas em Londres em março passado, havia os seguintes tipos de mensagem: “Mantenham o preço do nosso chablis” e “Diga a ele que não poderá ir esquiar neste verão, Theresa” – a última exibida por uma mulher com um cachorro no colo.)

 

8 de novembro de 2018
Dois anos e quatro meses depois do referendo sobre o Brexit

D ominic Raab (político conservador que atuou como secretário especial do governo britânico para a saída da União Europeia, ou “secretário do Brexit”), foi criticado por admitir, num congresso de tecnologia, que “não tinha entendido bem” o quanto a Grã-Bretanha dependia do comércio pela via marítima Dover-Calais: na prática, revelava que não tinha se dado conta de que o Reino Unido, em sua maior parte situado numa única ilha, era cercado de água por todos os lados. Uma semana mais tarde, Raab pediria demissão do governo, opondo-se ao acordo de retirada que ele próprio havia negociado com a UE.

 

Por todas essas razões o Brexit tem assumido a feição menos de uma questão política do que de algo mais parecido com a rivalidade entre dois clubes de futebol. As pessoas torcem para que um dos lados “ganhe”: pelo menos até aqui, não porque isso possa lhes render algo de substantivo, mas porque, depois da longa duração imprevista de todo o processo, querem sentir a emoção de testemunhar uma vitória do seu time. Esse estado de coisas ao menos ajuda a explicar por que algum tipo de acordo parece impossível: uma união aduaneira permanente não satisfaria a todo mundo, mas seria pelo menos um resultado decente que ainda levaria em conta, como deve levar, o resultado do referendo. Mas não é essa, na verdade, a questão que envolve o Brexit. Como eu disse acima, ele não representa a retirada da União Europeia – representa, isso sim, um fim peremptório e definitivo para os muitos ressentimentos acumulados tanto de um lado quanto do outro; um fim que a própria saída da União Europeia jamais poderá propiciar. O Brexit tornou-se impossível – porque nos acostumamos a esperar o impossível dessa retirada britânica da UE.

Seja qual for o resultado concreto do Brexit, tudo que acontece de ruim em nosso país será atribuído, de algum modo e por alguém, a esse processo. Mesmo que o país saia da UE (se houver uma retirada), os partidários do Brexit irão correr os olhos por esta maltratada ilha e concluir que o motivo de tudo estar na merda em que está decorre do fato de não termos conseguido promover o Brexit “correto”. Os partidários da permanência na ue, por sua vez, irão acompanhar cada um dos desdobramentos e concluir que todos eles se devem, unicamente, a termos deixado de ser membros da União Europeia, e não, quem sabe, ao fato de o país estar vivendo há tanto tempo sob péssimos governos.

Além disso: o único motivo para a convocação de um referendo, para começo de conversa, foi o incômodo constante da facção dominante do Partido Conservador com seus correligionários mais à direita, que vinham mantendo uma postura antieuropeia mais agressiva desde a entrada do Reino Unido na ue, no início dos anos 90. Pouco depois das eleições gerais de 2015, alguns membros conservadores do Parlamento bandearam-se para o Ukip (United Kingdom Independence Party, o Partido da Independência do Reino Unido), cujos seguidores só fizeram multiplicar-se ao longo dos anos do governo de coalizão (2010-15, período em que David Cameron governou com o apoio dos liberais-democratas de centro). Em 2014, Cameron havia “resolvido” o problema da independência da Escócia permitindo que o SNP (Scottish National Party, Partido Nacional Escocês) promovesse um referendo local, vencido facilmente pelos eleitores favoráveis à união. “Por que não resolver aquele problema de várias décadas no Partido Conservador convocando um referendo acerca do Brexit?”, pensou o primeiro-ministro. “O que poderia dar errado?”

E é essa, mais que qualquer outra, a explicação das reações altamente incoerentes da esquerda e do centro à vitória do Brexit. Como é que se pode esperar que os trabalhistas assumam uma posição coerente quanto a uma questão que, afinal, só surgiu em resposta a um feroz conflito interno do Partido Conservador? Pode ser que, em retrospecto, o melhor a fazer tivesse sido recusar-se a aceitar, pura e simplesmente, a legitimidade do próprio referendo: recusar-se a aceitar a maneira como toda a discussão sobre a União Europeia acabou enquadrada, e estimular os eleitores trabalhistas a anular seus votos.

 

30 de março de 2019
Dois anos e nove meses depois do referendo do Brexit

N o dia seguinte àquele em que a Grã-Bretanha deveria originalmente ter se retirado da União Europeia, um homem interrompe a circulação de todos os trens que chegam e partem de Londres através do túnel sob o Canal da Mancha escalando o teto acima dos trilhos da estação de Saint Pancras e abanando uma bandeira da cruz de São Jorge. Depois de sua prisão, ao final de doze horas de impasse com a polícia, o homem declarou aos policiais que o detiveram que estava furioso com os políticos, pois estes “tinham fodido com todo o Brexit”.

 

Se a esquerda errou em relação ao Brexit, foi porque jamais conseguiu resistir à maneira como o Partido Conservador – e os meios de comunicação – queriam que o Brexit fosse concebido. Algo parecido aconteceu no caso da dificuldade do Partido Trabalhista em defender efetivamente o princípio da liberdade de ir e vir, ou da liberdade de movimentação de pessoas. Seria um absurdo sugerir que a UE tem uma atitude elogiável quanto à imigração (basta ver o que seus membros vêm fazendo no Mediterrâneo), mas o princípio da liberdade de ir e vir dentro das fronteiras da UE é, ainda assim, bem mais progressista do que o patriotismo nacionalista extremado associado ao Brexit.

Outra maneira de encarar o voto separatista britânico, claro, seria como uma resposta preventiva às calamidades da mudança climática e à “necessidade” de reforçar as fronteiras do Ocidente contra ondas migratórias vindas de um hemisfério Sul cada vez mais inabitável em todo o planeta. Essa resposta direitista à mudança do clima – equivalente, na prática, a um genocídio – precisa ser combatida sem tréguas. O Partido Trabalhista foi de uma ingenuidade profunda ao não dar a devida atenção ao problema da liberdade de deslocamento.

Outra certeza quanto ao Brexit é a de que ele tem prejudicado o próprio tecido da democracia no Reino Unido. Ali pelo final de março, Donald Trump Jr. (logo quem!) afirmou, num texto para o jornal britânico Telegraph, que o impasse diante do Brexit demonstrava que a democracia no Reino Unido estava “muito longe da morte”. Acusava também Theresa May de ter “ignorado os conselhos” de seu pai, Trump – mas eram muitos os pontos em que as ideias do filho do presidente americano ecoavam a retórica da primeira-ministra. Em vários momentos do processo do Brexit, May insistiu que seus termos para o acordo precisavam ser aprovados, pois qualquer outra hipótese poderia “representar uma quebra catastrófica e imperdoável da confiança em nossa democracia”.

Mas a verdade é que Theresa May está longe de ser, ela própria, uma grande amiga da democracia. O resultado de 2016 pode ter representado a “vontade do povo” – mas sua validade vem sendo amplamente questionada desde que se constatou que a campanha pela saída da UE havia infringido regras da Comissão Eleitoral Britânica. Ainda que o resultado do referendo não deva ser questionado (pois as supostas fraudes não foram do tipo ou do nível que pudesse produzir uma diferença importante no resultado final), cabe perguntar: por que se deve respeitar justamente essa votação específica acima de todas, e não qualquer outra expressão futura – ou prévia, no caso – da “vontade popular”? E a eleição geral de 2017, em que na prática o partido de Theresa May foi derrotado? Ou o referendo de 1997 ratificando o Acordo de Belfast, cujo cumprimento fica ameaçado dependendo do modo como o Brexit de fato venha a acontecer?

Theresa May também dá mostras de desrespeito sistemático pelas instituições democráticas, especialmente o Parlamento. Foi necessária uma medida judicial para obrigá-la a submeter os termos da retirada que propunha ao sufrágio da Câmara dos Comuns, e ela deu sinais de pouca ou nenhuma disposição para negociar com o Parlamento qualquer dos pontos principais do Brexit. Num discurso feito logo depois de concordar em postergar a saída da UE para depois de 29 de março último, a primeira-ministra acusou o Parlamento de perder-se em “disputas internas e jogadas políticas”, tentando afirmar-se, ao que tudo indica, como a única verdadeira protetora da vontade de um povo “exaurido”, que só deseja ver o Brexit “concluído de uma vez por todas”.

Poucos dias depois, a opinião anônima de um membro de seu ministério podia ser lida nos jornais: “Ninguém faz a mais puta ideia” do que estaria acontecendo com o Brexit, declarou o ministro. “E eu nem estou mais ligando. Viramos um bando de mortos-vivos.” Disse ainda: “O que nos trouxe até esse ponto foi a incapacidade, demonstrada pela primeira-ministra, de manter as interações humanas mais elementares.” E prosseguiu: “O gabinete está totalmente emperrado. Cada ministro diz o que pensa, mas ela não cede em nada. Um lado acha que o que deve acontecer é X, um outro defende Y, e a primeira-ministra decide que vai ser Z.”

As atitudes antidemocráticas, porém, ocorrem em todos os lados. O centro, como já mencionei, insiste num segundo referendo – o que até pode soar democrático à primeira vista. Mas alguns dos principais defensores dessa ideia formam o pequeno grupo de deputados hoje conhecido como “Change UK” (“Muda, Reino Unido”), produzido por uma cisão trabalhista ocorrida em fevereiro quanto à questão do Brexit. Apesar de, na prática, terem obrigado seus eleitores a aceitar sua conversão em representantes de um partido diferente daquele em que votaram, os partidários do Change UK recusam-se a admitir a realização de eleições complementares.[2] Isso indica que, na verdade, não são movidos pelo respeito à “vontade popular”: a exemplo da própria Theresa May, só se interessam em recorrer à vontade popular quando julgam que o eleitorado irá escolher o resultado que consideram “certo”. E será possível que a ideia de permanecer na UE seja vista como uma postura democrática, a essa altura dos acontecimentos? A própria ue, afinal, está longe de ser o melhor exemplo de uma democracia aberta e plenamente funcional – bons tecnocratas até o fim, todas as autoridades da UE demonstram geralmente uma clara tendência a encarar o sentimento popular como uma espécie de obstáculo a ser contornado.

E a simpatia pelo fascismo mais notório também vem aumentando. No dia 3 de abril, vazou um vídeo que mostrava membros das Forças Armadas britânicas usando um cartaz de Jeremy Corbyn como alvo, num treinamento de tiro. Na mídia, mais de um jornalista já pediu – alguns de brincadeira, outros nem tanto – que a rainha intervenha pessoalmente nesse imbróglio, usando seus poderes executivos para “dar um jeito” no Brexit (embora o significado desse “jeito” varie muito, dependendo de quem fala). Quanto mais o Brexit se arrasta, mais esses ressentimentos de fundo autoritário podem chegar ao ponto de ebulição: estará o Parlamento condicionando a população britânica a pensar que a política do Reino Unido precisa da vontade forte de um único indivíduo, ao qual possamos delegar, felizes da vida, todas as decisões que precisem ser tomadas?

 

16 de junho de 2016
Uma semana antes do referendo do Brexit

o Cox, a representante dos distritos de Batley e Spen na Câmara dos Comuns, levou vários tiros e facadas a caminho de um encontro com os eleitores de Birstall, em Yorkshire. Seu assassino é um homem de 52 anos com um longo histórico de envolvimento em organizações de extrema direita. Durante o ataque a Cox, várias testemunhas ouviram o matador exclamar: “Isso é pela Grã-Bretanha!” e “A Grã-Bretanha tem de permanecer independente!” Mais tarde, quando lhe pediram para confirmar seu nome no tribunal, ele respondeu: “Meu nome é morte aos traidores e liberdade para a Grã-Bretanha.” A maioria dos meios de comunicação britânicos atribuiu a morte de Cox ao ato de um psicopata demente e solitário: ainda hoje, se alguém sugerir em público que o assassinato de Cox pode ter tido alguma motivação política, os comentaristas de direita respondem em tom áspero por meio de todas as redes sociais. Ainda se mostram totalmente avessos à disposição emocional de admitir a possibilidade de que tenham sido, de certa forma, cúmplices do atentado.

 

Mas, afinal, o que ocorrerá no Reino Unido? O Brexit pôs totalmente a nu o egoísmo e a incompetência da classe governante britânica: gente que não tem nenhum interesse genuíno pelo bem-estar dos seus cidadãos – apesar de todas as platitudes que cada um deles emite, marcadas por um nacionalismo contrito e o mais absoluto populismo. Mas também tornou fútil qualquer possibilidade de resistência ao establishment político. O resultado do Brexit, a favor da retirada da UE, foi de muitas maneiras um gesto de resistência em massa: mas também foi, paradoxalmente, produzido pelo poder do Estado (respondendo a um conflito cruento, no fim das contas, interno apenas ao Partido Conservador).

O processo do Brexit expôs o quanto é precário o funcionamento do Estado; mas também foi usado, e continuará a sê-lo no futuro, como trincheira para os interesses dos ocupantes do poder. O processo de retirada (ou de tentar sair) da UE deixou muito claro que a Grã-Bretanha necessita de uma reforma constitucional drástica e abrangente. No entanto, tendo em vista nossa experiência com o Brexit, quem consideraria o Parlamento capaz de pôr em prática as reformas necessárias? E, mesmo que fosse capaz, quem, em seu perfeito juízo, pode apostar que essas reformas se dariam no sentido certo?

Num ensaio publicado em 2013, “Sinking giggling into the sea” [Afundando aos risinhos no mar], o escritor Jonathan Coe afirmou que a visão predominante da política entre a população britânica tinha, nos últimos anos, passado a ser de um cinismo que não para de rir dissimuladamente, em que todo político é visto como um palhaço corrupto, incompetente e dedicado apenas a seus interesses pessoais. Entretanto, em vez de fomentar uma atitude crítica entre os eleitores, esse cinismo limita-se a reforçar a ordem atual das coisas: a “política” em si é vista como algo estúpido e nefasto demais para sequer ser levado em consideração, um mar infinitamente pardacento que não admite possibilidade alguma de mudança.

“Hoje em dia”, afirma Coe, “todo político é motivo de galhofa, e o riso que poderia ocasionalmente iluminar os cantos escuros do mundo político com raios inesperados e surpreendentes de hilaridade transformou-se num reflexo automático da nossa parte, uma reação pavloviana de exaustão ante situações difíceis ou deprimentes demais para permitir que pensemos claramente.” Num ensaio em que cita o texto de Coe, “The strange death of British satire” [A estranha morte da sátira britânica], o filósofo e crítico cultural Mark Fisher afirma que essa atitude não aparece apenas entre os eleitores, mas em todas as esferas institucionais da política: os meios de comunicação, assim como os políticos, acabaram condicionados a tratar a política como um jogo raso e em última análise fútil, no qual as pessoas só entram por interesse próprio e a vitória premia sempre os maus. O Brexit foi o resultado desse tipo de cinismo – e, por sua vez, só fez produzir mais cinismo em seu rastro.

E, assim, o Reino Unido depois do Brexit (seja qual for o significado de “depois” nessa frase) pode tomar um de dois caminhos. Primeiro (e mais provavelmente): essa atitude cínica pode se ver reforçada e se tornar generalizada. O Brexit, para muitos, representou a última possibilidade modesta de resistência – a reafirmação de alguma ordem “decente” e “britânica” contra a ordem corrupta que governa todas as coisas. Mas a esta altura isso já passou: não há mais a menor possibilidade de que o Brexit produza algum “bom resultado” – não da maneira esperada por seus defensores.

O Brexit ainda pode vir a ocorrer, no final das contas, mas não “da melhor maneira”. O que, portanto, só pode servir para confirmar a impressão de que nada de bom é possível – confirmando assim a visão cínica que predomina no país. No fim das contas, isso equivaleria à vitória dos velhos sobre os jovens: o futuro da nação continuará obstruído pelo ressentimento e o desleixo de uma massa cada vez mais idosa de proprietários de imóveis, contemplando um mundo que só vivenciam através dos jornais, resmungando, enquanto, mais do que nunca, não conseguem se identificar com nada que nele existe – muito embora seja possível constatar que esse mundo foi moldado, quase que perfeitamente, à imagem desses velhos eleitores.

Isso, como já afirmei, pode levar, mais adiante, à chegada do fascismo – pela porta dos fundos, por assim dizer. A população pode ser doutrinada no sentido de admitir um líder autoritário por não conseguir enxergar a possibilidade de obter mais nada por outros meios, em tempo algum. Com efeito, um novo partido foi formado pelo antigo líder do Ukip (logo, um dos principais líderes da campanha pela saída da UE) Nigel Paul Farage, sob o nome de “Brexit”. Essa nova legenda participará das eleições para o Parlamento Europeu em 23 de maio, um pleito que o adiamento do processo recolocou na agenda britânica. Parece o último suspiro de um monstro que se recusa a morrer – ou o sinal de que esse monstro se prepara para mudar de forma. No momento em que escrevo, uma pesquisa de intenção de votos para a eleição europeia confere ao partido Brexit 27% das intenções de voto – uma pequena liderança sobre os demais.

Mas existe uma segunda possibilidade. As gerações mais novas dos súditos britânicos, em sua maioria, não querem o Brexit; não desejam que haja menos imigrantes, não compartilham os delírios de grandeza imperial dos partidários do Brexit. O que os jovens britânicos querem, em sua maioria, é o fim da austeridade; empregos mais seguros; a possibilidade de uma casa própria. Em última análise, os jovens aspiram a uma social-democracia – e nem mesmo por idealismo ou altruísmo, mas por razões egoístas; querem um governo cujas medidas possam ser benéficas a eles. E isso se reflete na escolha dos seus representantes: um mapa eleitoral, que há pouco viralizou no Twitter, mostra que se os eleitores fossem apenas os jovens entre 18 e 24 anos, os conservadores só ocupariam três cadeiras da Câmara dos Comuns; as demais 541 caberiam aos trabalhistas (e a decisão em favor da retirada da UE, claro, jamais teria vencido). O Brexit invalidou a antiga ordem. E, se essa invalidação acabasse por ter o efeito certo, malgrado as leis bizarras que regem a política britânica? E se ela acelerasse o colapso da ordem atual, em vez de servir para sustentá-la?

No fim das contas, o futuro da Grã-Bretanha depende de quanto tempo irá tardar a concretização dos desejos e expectativas dos seus jovens. Minha maior esperança, no caso do Brexit, é que possamos constatar, em algum momento no futuro, que tudo não passou de uma distração lateral, associada ao processo de guinada de toda uma geração para longe da direita – rumo a um mundo melhor e mais justo.

[1] Conhecido em inglês como Good Friday Agreement (literalmente, “Acordo da Sexta-Feira Santa”), o Acordo de Belfast foi assinado em 1998 pelos governos britânico e irlandês com o objetivo de acabar com os conflitos em torno da união da Irlanda do Norte e da República da Irlanda – a primeira ainda parte do Reino Unido; a segunda, uma república independente desde 1922.

 

[2] Pela lei do Reino Unido, eleições complementares (by-elections) podem ser convocadas para preencher cadeiras vagas na Câmara dos Comuns e costumam servir de teste para a popularidade dos partidos em intervalos das eleições gerais.

 

Tom Whyman

É professor-assistente na Universidade de Essex, onde também fez seu doutorado em filosofia. É autor do blog Infinitely Full of Hope

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