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Chato, não

Dessaune só quer ser bem atendido

Bruno Moreschi | Edição 36, Setembro 2009

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Marcos Dessaune tinha 8 anos quando começou a estudar piano. No decênio que se seguiria, sua vida parecia harmonicamente planejada para que se tornasse concertista. Aos 18 anos, as seis horas diárias de estudo o levaram de Vitória, sua cidade natal, para o curso de música na Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro. Subitamente, percebeu: “Seguia apenas um sonho de família.” No quarto semestre de curso, cansado de repetir os prelúdios de Bach e Chopin, largou o estudo.

Decidiu refrescar a cabeça na casa de um amigo, em Londres. De lá, partiu para Viena, no intuito de conhecer a fábrica do piano Bösendorfer, tão admirado no mundo da música clássica quanto um legítimo Steinway. De volta ao Brasil, Dessaune se tornou o representante da marca no país. Tinha então 21 anos.

Ele não só vendia o instrumento, como também o alugava. Tom Jobim era seu garoto-propaganda – gostava de se apresentar com o “Bösendorfer do Dessaune”, como o chamava. Em 1993, o piano foi alugado para um comercial da Brahma em que Tom tocava ao lado de Vinicius, numa montagem bastante realista. (Sim, já houve reclames de cerveja sem loura, churrasco e pagode.) Tudo parecia tranquilo para Dessaune.

 

Rio de Janeiro, março de 2000, nova temporada de música clássica. Dessaune contava 35 anos. Sua filha Luisa tinha quatro meses – segundo ele, idade mais que suficiente para apresentá-la ao repertório erudito. Num sábado ensolarado, decidiu carregá-la consigo à Sala Cecília Meireles, para ouvirem Mozart. O programa teria funcionado, não fosse pelo segurança, que impediu a criança de entrar. O motivo estava pregado em uma plaquinha na parede: menores de 5 anos eram proibidos no recinto. Dessaune lembrou-se de que o pediatra, semanas antes, havia liberado a menina para frequentar locais públicos. Protestou: “Baseado em qual lei o senhor impede minha filha de entrar? Uma placa definitivamente não tem valor jurídico!”

Parecia sensato. O segurança entrou na sala do diretor para lhe relatar a situação. Em minutos saiu com a resposta: o choro do bebê poderia desconcentrar músicos e platéia. “Como assim?”, pensou Dessaune. Somado aos nove meses de gestação, em que sua filha ouvia Rachmaninoff na barriga da mãe, a criança já acumulava mais que um ano de cultura musical. Chamou a polícia.

Avisados de que a confusão envolvia uma criança, os policiais vieram em três viaturas. Um oficial da PM tentou amainar a decisão do diretor da sala, que se manteve irredutível. Sugeriu, então, que Dessaune fosse à delegacia mais próxima registrar um boletim de ocorrência.

 

A delegada considerou a reclamação de uma irrelevância descomunal. Já o juiz de plantão disse não poder enquadrar o episódio em nenhum tipo de crime. Cabisbaixo, Dessaune deixou o local carregando a filha que, durante todo o tempo, não ameaçara chorar, quanto mais atrapalhar uma orquestra inteira. Na segunda-feira de manhã, ele encaminhou uma petição ao Ministério Público Federal. Baseava-se no artigo 71 do Estatuto da Criança e do Adolescente, que reserva a qualquer criança “o direito a informação, cultura, lazer, esportes, diversões, espetáculos”. Não deu em nada. Apelou, então à imprensa. O Fantástico e a revista IstoÉ veicularam a história, que acabou não repercutindo. Pelos anos seguintes, a pequena Luisa teve que se contentar com música clássica em casa e no carro. Em termos gastronômicos, seria como se alimentar de enlatados, sem jamais sentir o gosto dos ingredientes frescos.

Para Dessaune, o episódio foi marcante. Percebeu que poderia fazer mais do que alugar pianos Bösendorfer. “Antes de amante de música, sou um cidadão”, esbraveja hoje com a fleuma típica de quem descobriu sua verdadeira vocação. Naquele mesmo ano, despediu-se do Rio, regressando a Vitória. Seguindo os passos do avô Jair Dessaune, respeitável advogado da cidade, resolveu cursar direito. Elegeu o Código de Defesa do Consumidor como livro de cabeceira. Os artigos que mais lhe agradam são o 39 e o 51, ambos sobre práticas e cláusulas abusivas.

 

Após estagiar em ouvidorias públicas em Bruxelas e Lisboa, Dessaune resolveu criar um site, o www.superconsumidor.com, endereço eletrônico que reúne um mundaréu de informações para o consumidor injustiçado. Nele, ensina o cidadão a trocar uma mercadoria com defeito de fabricação, reclamar de uma compra que não chegou dentro do prazo estipulado e botar a boca no trombone contra as empresas de água, gás e televisão a cabo, dentre tantos outros algozes do cotidiano.

 

A empresa de telefonia custa a lhe enviar uma segunda via da conta? O restaurante japonês insiste em cobrar multa pelo sushi deixado no prato? Descarregue a raiva clicando na opção “Quero mandar um Hooo!! para o atendimento que recebi”. Para os raros casos louváveis de atendimento, o visitante pode enviar um “Óóóoo!!” de parabéns. Basta preencher um formulário eletrônico, detalhando o problema e a razão social da empresa. A bronca segue direto para a ouvidoria de quem lhe faltou com o respeito.

Em março deste ano, Dessaune lançou o livro Histórias de um Superconsumidor, uma compilação de casos de clientes prejudicados. Toda vez que seu nome aparece na imprensa, a quantidade de e-mails recebidos passa dos 100. Grande parte vem de pessoas em busca de uma consultoria particular – serviço que Dessaune não presta. Quando recebe uma mensagem assim, ele responde com um texto padrão, sugerindo que a pessoa procure um advogado ou o Procon. E emenda, à moda de pito: “Como cidadão, VOCÊ pode e deve lutar pelos seus direitos!”

A quem se insatisfizer com sua insatisfação, Dessaune avisa: “Não vou desistir.” Enquanto houver descaso, gerúndio e música irritante à espera do atendimento, ele continuará protestando com todo seu fôlego.

Bruno Moreschi

Bruno Moreschi, jornalista e artista plástico, é coautor de 501 Grandes Artistas, da Sextante.

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