esquina

Chega de Dom Pedro!

Doctor Rey e a autoestima nacional

Carol Pires
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2014

De terno preto Dolce&Gabbana, gravata e lenço amarelos da Versace e sapatos de couro de crocodilo da mesma grife, Dr. Rey chegou de carro blindado à 25 de Março, a rua comercial mais popular de São Paulo. Reconhecido de imediato pelo cabelo com mechas loiras, nariz afilado e dentes branquíssimos, foi logo entregando um santinho a uma mulher eufórica: “Vota em mim, belinha. Vamos levar o Brasil para o Primeiro Mundo.”

Robert Miguel Rey Júnior – o Doctor Rey – fez carreira como cirurgião plástico de celebridades (dos tipos célebre e sub) na Califórnia, mas quer trocar Beverly Hills por Brasília depois das eleições de outubro, quando disputará uma vaga de deputado federal. Há oito anos no ar na Rede TV! com o reality show Dr. Hollywood (originalmente exibido no canal americano E! como Dr. 90210), ele pretende usar sua fama para granjear pelo menos 1 milhão de votos – o suficiente para elegê-lo e, pelas leis eleitorais, alçar à Câmara dos Deputados pelo menos outros dois correligionários do Partido Social Cristão.

A agenda dele, num sábado recente, havia começado na Vila Olímpia, bairro rico de São Paulo, onde tem um flat pequeno. “Ferrari e mansão só em Beverly Hills”, disse o médico, que estima ter faturado 100 milhões de dólares no ano passado com cirurgias, venda de produtos licenciados com seu nome e 200 clínicas de estética que mantém em São Paulo em sociedade com o também político e entertainer Celso Russomanno. Se eleito, porém, pretende manter uma rotina módica: promete ir trabalhar de ônibus e não faltar um só dia de sessão plenária – “Vou ser melhor que o Tiririca”.

 

Aos 52 anos, é a primeira vez que Doctor Rey mora no Brasil desde que deixou o país, aos 12 anos, entregue pelo pai, um americano, e a mãe, gaúcha, aos cuidados de uma comunidade religiosa em Boston. “Eu fui embora do Brasil em 1974, no meio da revolução. Era outro Brasil, um país caiçara, preguiçoso. Hoje, o Brasil é uma potência. Fazemos aviões, inventamos o concreto armado”, listou, com um sotaque gringo que afeta mais o ritmo da sua fala do que a pronúncia.

“Sabe por que o Brasil tem complexo de vira-lata? Porque tivemos um imperador covarde. Dom Pedro veio fugido com a família, morto de medo das tropas de Napoleão. Eu agora vou mudar a autoestima da nação”, proclamou, pontuando a frase com um beijo no dedo anelar direito, decorado com um anel de formatura da Universidade Harvard, onde se especializou em cirurgia estética e reconstrutiva e concluiu mestrado em políticas públicas.

No caminho do flat para o primeiro compromisso de campanha, Rey fez uma parada para buscar Maria Melilo, vencedora da 11ª edição do Big Brother Brasil e candidata a deputada estadual pelo PSC, o mesmo partido do deputado federal Marco Feliciano e do candidato a presidente Pastor Everaldo. “Depois dos protestos do ano passado, passei a receber convites de vários partidos, que procuravam por sangue novo na política”, disse Rey, sem revelar as legendas interessadas. “Escolhi o PSC porque era o mais jovem, o mais sexy, e também conservador.”

Partidário dos republicanos nos Estados Unidos, ele quer emular no Brasil a política de “tolerância zero” do ex-prefeito de Nova York Rudolph Giuliani e também dar mais ênfase à Lei Maria da Penha. “Eu cansei de jogar água na cara da minha mãe para acordá-la depois das surras que meu pai, que era um americano louco, dava nela. Por isso eu sou muito pró-mulher. Tive quarenta bichinhos resgatados na minha casa, todas fêmeas. Escolhi uma profissão em que estou rodeado de mulher. Nunca operei uma salsicha.”

 

No Centro de São Paulo, o “médico celebridade” e a ex-BBB causaram polvorosa. Maria Melilo acaba de se recuperar de um câncer no fígado e suas propostas são para aprimorar o sistema público de saúde. “Vote na Maria e no Rey para melhorar o SUS”, diziam entre um selfie e outro com os eleitores. “Quando eu morava na Alemanha, fui a Dachau, o primeiro campo de concentração nazista. Depois, visitei um SUS aqui no Brasil – não vou dizer onde, para não ofender ninguém – e era pior que o campo de concentração”, havia dito Rey antes de começar a caminhada.

As propostas para o Sistema Único de Saúde, porém, não despertaram tanto interesse público quanto outras habilidades do candidato. “Doctor Rey, arruma meu nariz”, gritou um homem de 52 anos, que contou ter deformado o rosto em uma disputa de bola na infância. Uma vendedora ambulante o reconheceu e gritou: “Caraca! É o Doutor Hollywood! Vamos votar nele que vai ter silicone pra geral!”

Outra piada recorrente entre os curiosos era chamá-lo de “Dr. Gay”. Antes de sair do escritório, ele alertara os sete seguranças e assessores: “Se aparecer algum bêbado me chamando de Doctor Gay, vocês afastam ou eu vou colocá-lo pra dormir. Todo mundo dorme, mas esse vai dormir mais cedo.” Logo, desbloqueou seu iPhone e mostrou um vídeo no qual aparece, sem camisa, dando um golpe aéreo de tae kwon do.

Rey atribui à sua indumentária o fato de pensarem que é homossexual. “Aprendi em Harvard: estilo é carisma e carisma é liderança. Olha o Kennedy, olha o Napoleão…”, disse, antes de se levantar e puxar parte da cueca amarela para fora da calça. “O Kennedy sempre tinha uma mulher pelada na piscina, você sabia? Já o Doctor Rey só usa cueca do Brasil.” Um dos seus assessores, bispo da igreja mórmon que ele frequenta, disse: “Quando comentam que o Rey é metro[ssexual], eu digo: metro, não. Ele é quilômetro.”

Doctor Rey contou que, para desfazer o mal-entendido, passou a beijar modelos no seu reality show e dar belisquinhos nas apresentadoras de tevê que o recebem no palco. “Aqui é um país muito machista, conservador”, disse, antes de me dar um beijo úmido na bochecha, o oitavo apenas na primeira hora de entrevista. A tentativa de se adequar aos padrões brasileiros, segundo ele, tem objetivos de largo alcance. Se for eleito deputado federal, faz planos de disputar a Presidência da República. “Vamos ver se o Brasil me aceita. Como dizia o Walt Disney, eu gosto do impossível porque lá a concorrência é menor.”

Carol Pires

É jornalista, roteirista, colaboradora do New York Times e colunista da Época online. Foi repórter da piauí de 2012 a 2016

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