esquina

Chega de palhaçada

Arruda e companhia enxovalham uma profissão honrada

Andrea Jubé

José Carlos Santos Silva, o palhaço Plim Plim, enumera as semelhanças entre ele e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Ambos são pernambucanos: ele de Carpina, na Zona da Mata; Lula, de Garanhuns. Assinam o mesmo sobrenome: Silva. Os dois têm apenas quatro dedos na mão esquerda. O episódio do torno mecânico é conhecido. José Carlos perdeu o dedo médio numa de suas primeiras incursões ao circo. Curioso, resolveu acariciar o macaco, que não gostou. Tascou-lhe uma mordida que lhe custou o pai de todos.

Se pudesse, José Carlos pediria a Deus que lhe concedesse mais uma das características do presidente, a saber: o gene político. Não que deseje o poder máximo da República. Suas pretensões são bem mais modestas, nem com cargo eletivo ele sonha. Desejaria apenas que o direito dos palhaços fosse reconhecido em lei, causa a que vem dedicando anos de luta e engajamento.

Vestindo a fantasia de seu alter ego Plim Plim, José Carlos pretende dedicar todo o ano de 2010 a uma nova etapa de sua missão: percorrerá todos os estados brasileiros para cadastrar o maior número possível de colegas em atividade. Entre outros benefícios, o recenseamento ajudará a distinguir os “palhaços de picadeiro” dos “palhaços picaretas”.

Plim Plim contesta os dados do Ministério do Trabalho, segundo os quais haveria apenas 128 palhaços com registro profissional no país. Seu objetivo é retornar a Brasília em 2011 com números muito mais portentosos, o que lhe parece essencial para provar aos legisladores que a categoria merece mais respeito. Inscrita sob o código 3762-45 na Classificação Brasileira de Ocupações, a profissão aceita denominações variadas: palhaço, clown, cômico de circo, excêntrico e mesmo a estranhíssima “Tony de soirée“. (Até onde foi possível apurar, não existem registros de alguém que recentemente tenha contratado um “Tony de soirée“.)

Para Plim Plim, pouco importa ser chamado de palhaço, clown ou excêntrico. A sua birra é com o desvirtuamento da profissão. Basta um escândalo de corrupção – e eles não faltam – para que milhares de brasileiros coloquem um nariz vermelho e saiam às ruas para protestar. “Esse nariz representa uma profissão digna!”, reclama Plim Plim. O escândalo protagonizado pelo governador do Distrito Federal, José Roberto Arruda, não é uma palhaçada. “O nome daquilo é fuleiragem!” Ou, em bom português, coisa de bandido, não de palhaço.

 

Trata-se de um ponto de vista novo e absolutamente legítimo: a classe política brasileira está desmoralizando os palhaços. Tanta esculhambação vem impedindo que sejam levados a sério. “O Ministério do Trabalho reconhece a profissão, mas não garante a aposentadoria. O Carequinha morreu sem poder se aposentar”, lamenta. É preciso uma política direcionada para os artistas de circo, que preveja aposentadoria específica, e é preciso também assegurar o cumprimento da Lei 6.533/78, que garante vaga nas escolas públicas para os filhos desses profissionais.

Plim Plim conta que sua filha, Carla Vitória, de 7 anos, passou dois anos na capital federal sem ir à escola. Como ele dorme num ônibus, não podia matriculá-la por falta de endereço fixo. Cansada da vida mambembe, a mãe de Carla, Lucicleide, abandonou o companheiro, mudou-se com a filha para a cidade-satélite de São Sebastião e alugou um apartamento. Só então a menina pôde frequentar a escola pública. “A família se desfez por causa do meu sonho”, diz o palhaço.

 

Plim Plim deixou Pernambuco em 2003 e se transferiu para Brasília imbuído de espírito militante. Foi um dos articuladores da Frente Parlamentar em Defesa do Circo Brasileiro e conseguiu apoio para realizar o 1º Seminário Nacional de Palhaços na Câmara Federal.

Pelo ineditismo, o evento foi uma proeza, mas o baixo comparecimento é prova eloquente de que a causa ainda não ganhou as ruas. O seminário aconteceu em dezembro, no menor auditório da Câmara. Pouco mais de vinte gatos pingados ocuparam os cem lugares da plateia. Nenhum parlamentar.

Dos quatro deputados que assinaram o requerimento para a realização do evento, apenas um compareceu ou, de outro ponto de vista, deu uma passadinha. Paulo Rubem Santiago (PDT-PE), conterrâneo de Plim Plim, só pôde ficar para a abertura; precisava por força pegar um voo para Recife. Os outros subscritores – João Matos (PMDB-SC), Antônio Carlos Biffi (PT-MS) e Edigar Mão Branca (PV-BA) – mandaram funcionários para representá-los. João Matos destacou o próprio chefe de gabinete, que em seu discurso expôs uma tese sociológica extraordinária, síntese prodigiosa de preconceito e asneira: “Assim como negros não gostam de ser chamados de negros, por que os artistas circenses precisam ser chamados de palhaços?” Ninguém respondeu.

Na falta de debatedores, os outros dois palhaços presentes – Zocrinha e o Homem de Lata – foram chamados a compor a mesa. Para desânimo geral, Zocrinha abriu sua fala confessando-se um “ex-palhaço”, o que imediatamente reduziu em um terço a representação da categoria no recinto. Zocrinha abandonou a profissão por falta de perspectivas e agora vende pipoca em sinal de trânsito.

Uma certa melancolia instalou-se na plateia. Na tentativa de quebrar o gelo, o Homem de Lata resolveu contar uma piada: “Qual é a menina mais calorosa que existe?” Ninguém respondeu. “É a Caloraine!” Diante da timidez da plateia, o Homem de Lata resolveu ele mesmo rir. Seu sorriso banguela disse tudo que precisava ser dito sobre a penúria da profissão.

No dia seguinte, acompanhado de Lata, Plim Plim partiu para a aventura do censo a bordo do seu ônibus-casa, modelo anos 70. Adaptado às necessidades da itinerância, o veículo, que não tem documentação, serve de moradia e local de trabalho. Tem cama, televisão, fogão, exaustor, 40 cadeiras de alumínio, uma arquibancada e um picadeiro. É o Pano de Roda, “o circo mais famoso dos rincões nordestinos!”, diz Plim Plim.

Carpina, a cidade natal, será o primeiro destino. Ele estava esperançoso: “Pelo menos no sertão o palhaço ainda é querido.” Ajuda o fato de o sertão ser longe daqueles picadeiros onde gente inescrupulosa tem prestado um grande desserviço à honrada profissão de Plim Plim.

Andrea Jubé

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