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Cinco malas e um desejo

Dar à luz em Miami

Daniel Lisboa
IMAGEM: ANDRÉS SANDOVAL

Em julho deste ano, Dilceu Dal’Bosco e Aline Villa desembarcaram no aeroporto de Guarulhos, em São Paulo, vindos da Flórida. Antes de pegar a conexão para Mato Grosso, onde moram, tiveram que pagar 1 200 reais na alfândega por terem excedido o limite de compras no exterior. Em compensação, traziam nas cinco malas abarrotadas boa parte do enxoval para o filho que esperam para dezembro.

Em novembro, o casal embarca novamente para os Estados Unidos. Desta vez, pretendem voltar com algo além de roupinhas e acessórios de bebê. Se tudo der certo, chegarão ao Brasil trazendo a tiracolo um pequeno cidadão americano, pois decidiram que Villa dará à luz em Miami.

A ideia surgiu durante a viagem de julho. Impressionado com a organização, a segurança e a infraestrutura dos Estados Unidos, o casal começou a pensar em como seria bom para o futuro filho viver ali. Até que, singrando as estradas da Flórida a bordo de uma minivan alugada, veio a epifania: Por que não?

“Meu filho mais velho, que é bacharel em direito e nos acompanhava na viagem, avisou: diferentemente de outros países, nos Estados Unidos é possível conseguir a dupla cidadania. É o que chamam, no direito, de jus soli, ou seja, se nasceu no país, é um cidadão de lá”, contou Dal’Bosco. “Essa informação acabou com qualquer dúvida.”



O casal, porém, não tinha muita ideia de como colocar o plano em prática. Até que, numa consulta à internet, Villa caiu no site da Ser Mamãe em Miami, uma agência de serviços obstétricos e pediátricos voltada para estrangeiros, principalmente brasileiros. A iniciativa oferece médicos especializados e hospitais de alto nível aos clientes que se dispuserem a pagar de 10 mil a 18 mil dólares – o preço varia de acordo com o tipo de parto e o hospital escolhido.

O valor, contudo, representa apenas uma fração do que o casal terá que desembolsar. Os pacotes da cooperativa incluem o atendimento médico pré e pós-parto, além do procedimento propriamente dito. Os demais gastos durante a estadia de três a quatro meses nos Estados Unidos ficam por conta dos pais – Dal’Bosco e Villa vão alugar um apartamento na cidade de Sunny Isles Beach por 2 800 dólares mensais. “Pelo que outras mães nos contaram, imaginamos um gasto total de pelo menos 100 mil reais”, estimou Villa. O casal não fixou um teto para o orçamento. “Se temos esse sonho, não adianta economizar.”

 

O criador da iniciativa é Wladimir Lorentz, um pediatra brasileiro de 48 anos que mora nos Estados Unidos há 33. Sua equipe inclui quatro obstetras e um especialista em fertilização in vitro. Em dois anos, o serviço viabilizou o parto de cerca de 200 brasileiras, incluindo o da atriz Karina Bacchi, em agosto.

“Pacientes vindos de fora precisam de apoio especial porque, muitas vezes, não têm família nos Estados Unidos e não conhecem como funciona o sistema médico local”, disse Lorentz. “No Brasil, o pediatra passa muito tempo com a família. Nos Estados Unidos, é um choque. O médico quase não atende o telefone e fica cinco minutos no quarto. Por isso oferecemos esse serviço personalizado.”

Em setembro último, Lorentz comandou um evento de dois dias em São Paulo no qual apresentou a 170 casais os serviços prestados por sua agência. Na sala de convenções de um hotel, dois cartazes mostravam uma mulher loura de perfil com as mãos sobre a barriga de gestante. O texto dizia: “Um momento inesquecível… Com atenção incomparável. Isto é Ser Mamãe em Miami.”

De semblante sério e visual impecável, o criador da cooperativa comandou várias rodadas de apresentações ao lado do obstetra Francisco Cruz, um equatoriano bronzeado de expressão permanentemente risonha. “Antes de qualquer coisa, que fique claro: não é ilegal ir aos Estados Unidos apenas para ter um filho”, explicou Lorentz. “Contanto que você tenha os recursos para arcar com todo o processo. O que eles não querem é gente abusando do sistema de saúde.”

Os médicos explicaram que o processo para conseguir a cidadania é rápido e simples. A certidão de nascimento americana sai ainda no hospital. Com o documento em mãos, o passaporte do recém-nascido costuma ficar pronto três dias após a requisição. Lorentz citou o exemplo do cliente que levou apenas oito minutos para tirar um documento americano para o filho. Da plateia, Dilceu Dal’Bosco – empresário exasperado com a burocracia nacional – comentou, com ar satisfeito: “Bem diferente do Brasil, né?”

 

Aos 52 anos, Dal’Bosco é um homem de compleição robusta, cabelos grisalhos e olhos claros que faz o estilo galã de meia-idade. Em 2010, conheceu a advogada Aline Villa, uma mulher loura de sorriso marcante e jeito despojado, que está com 33 anos. Ela trabalhava para o futuro companheiro em seu escritório regional, na cidade de Sinop, onde moram, quando ele era deputado estadual pelo DEM. Dal’Bosco é presidente do Sinop Futebol Clube e dono de uma loteadora de terras e incorporadora. Tem três filhos de outros três relacionamentos diferentes.

Dilceu Dal’Bosco Filho – ou Dilceuzinho, como Villa já o apelidou – será o primeiro filho da advogada. O casal havia preparado tudo meticulosamente para que o rebento nascesse em Sinop. “Já tínhamos escolhido o quarto do hospital, a decoração e o bolo”, contou Villa. “Encomendei cinquenta docinhos ‘bem-nascido’ e garrafinhas de espumante com o nome e a data de nascimento do Dilceuzinho estampados no rótulo, além de um ursinho pendurado em cada uma.” Que não seja por isso – o casal decidiu distribuir as lembranças do parto num jantar de boas-vindas quando voltarem ao Brasil.

Para Dal’Bosco, a cidadania americana dará ao filho inúmeras possibilidades profissionais e de estudo no exterior. O empresário – um entusiasta da candidatura de João Doria à Presidência – disse amar o Brasil, mas admitiu que a decisão é também um protesto contra a situação do país. “Nosso filho pode até dar sorte e pegar um Brasil diferente, mas a legislação aqui é feita para a minoria”, reclamou. “Quem faz as coisas de um jeito honesto – a grande maioria – paga pelos malandros.”

Daniel Lisboa

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