esquina

Cinefilia idiossincrática

Se você não fez parte da geração Polytheama, agora é tarde

Gustavo Gadelha
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2007

Véspera da inauguração da mostra de Ingmar Bergman, no Centro Cultural do Banco do Brasil no Rio: 27 filmes, além de três documentários sobre o atormentado diretor sueco. A curadoria é de Julio Cesar Miranda, proprietário de cerca de 10 mil títulos, entre DVDs e VHS. Em sua casa, no bairro da Tijuca, ele e a mulher, Lúcia, acertam os últimos detalhes. O folheto com a programação veio com algumas datas erradas, o jeito é colar erratas no verso. “Mas não é possível!”, ele exclama, levando as mãos à cabeça. É quando toca o interfone: “Quem é? Hein? Quem?!”

De quinze em quinze dias, sempre às quintas-feiras, um ritual se repete: ao ouvir o interfone, que não funciona lá muito bem – “Hein? Quem?!” –, Julio desce os oito andares até o térreo e vai receber os convidados do seu cineclube. A cinefilia do Rio de Janeiro seria menos intensa sem esse engenheiro rodoviário de 65 anos. Óculos fundos e cabeleira encaracolada, jeans escuro, camisa pólo azul e tênis preto de enfiar, sem cadarço – é quase um uniforme –, ele formou gerações de críticos e cineastas, bons e maus. Durante dezessete anos, esteve à frente da Polytheama, uma espécie de tesouro cinematográfico franqueado a eleitos. A rigor, tratava-se de uma locadora, mas franqueada a poucos. Tal como os soberanos ungem os seus nobres, cabia a Julio, e somente a ele, decidir a quem honrar com o título de sócio. Aceitar qualquer um? Só porque o sujeito vinha dizer que adorava cinema e tinha ouvido falar da fabulosa coleção da Polytheama? Necas. Jamais. Não com o peculiar regime de unção monárquica em vigor. O sistema tinha suas falhas – os amigos não hesitam em apontar a origem de todas elas: o rico repertório de idiossincrasias de Julio –, e há dois anos deixou de funcionar.

A Polytheama chegou a operar com 6 mil clientes, numa loja da Djalma Ulrich, em Copacabana. Só que funcionava por telentrega e quem se encarregava do serviço era o próprio casal. Paradoxalmente, o engenheiro de trânsito Julio nunca soube dirigir. A motorista era sua mulher. “Imagina só, eu dirigindo, o Julio correndo feito um louco com as sacolas de filmes pra lá e pra cá. Era horrível, a gente ficava umas oito horas na rua. E pra fazer xixi? Fiquei amiga dos porteiros dos prédios. Já estamos velhos”, desabafa a sexagenária Lúcia. Toda segunda, bem cedo, tinha início a maratona para atender os pedidos que podiam chegar até sexta, por telefone ou e-mail.

A abertura do cineclube coincidiu com o encerramento das atividades da locadora: “Operacionalmente estava ficando muito trabalhoso, tá certo?”, lamenta-se o proprietário. “Prefiro fazer mostras e escolher um conjunto de filmes pras pessoas verem, me agrada mais, tá certo? Meus sócios agora são meus amigos, são só uns 25, tá certo?” Certo. Os encontros se dão em rodízio, cada vez na casa de um membro. Há gente variada – psicanalistas, escritores, dentistas, engenheiros, cineastas.

A campainha toca de novo. “Hein?! Quem?!” A audição de Julio, assim como o interfone, não está em ponto de bala. É uma debutante da soirée, Renata Franceschi. Nihil obstat, dirá Julio. Afinal, Renata foi colaboradora direta de Visconti e Antonioni, continuísta de longa estrada no cinema italiano e, como faz questão de ressaltar, “amiga de Luchino”. Simpática, ela não demora a se sentir à vontade em meio a seus novos amigos de infância. Conta curiosidades da sua carreira. Renata deve a aposentadoria ao amigo Visconti: “O sistema na Itália exigiu que eu provasse que tinha mesmo trabalhado nesses filmes. Acontece que continuísta não aparece. O que me salvou foi que eu dancei no baile do Leopardo, quando era bem mocinha”, diz ela, referindo-se à célebre seqüência de quase uma hora do filme de Visconti. “Foi o suficiente para me garantirem aposentadoria”, sorri. Renata conheceu Julio numa sessão do Instituto Italiano de Cultura, onde foi exibido o documentário A Sicília do Leopardo, de Ugo Gregoretti. Quanto a Antonioni, com quem ela fez só um filme, Identificação de uma mulher, Renata deixa escapar: “Aquilo lá é a vida dele e da mulher dele”.

Primeiro o dever, depois o prazer. Todos comentam a obra que será exibida à noite, Marat/Sade, do inglês Peter Brook, lançado em 1967. Alguns já tinham assistido, o que deixa Julio um tanto desapontado. “Mas faz mais de vinte anos!”, tenta amenizar prontamente um dos cê-dê-efes. Abortada a quase-crise, trata-se agora de saber se o experimentalismo de Brook é “teatro filmado” ou “cinema de verdade”. Gasta-se algum tempo com a questão espinhosa.

A escritora Marici Passini, até então quieta no seu canto, conta que soube da existência da Polytheama quando freqüentava as aulas do professor de filosofia Cláudio Piano, da Universidade Federal Fluminense, todas ilustradas com a ajuda do acervo de Julio. As “imagens-movimento” e “imagens-tempo” de Gilles Deleuze davam as caras (obscuras) em películas de Resnais, Godard, Buñuel, Glauber, Orson Welles e outros da mesma estirpe. Virou sócia por indicação de Sílvia, viúva do professor, lá se vai uma década: “Eu era uma simples sócia, o Julio não me dava bola, não. Mas depois que escrevi o meu primeiro livro, sobre Hamlet, aí ficamos amigos. É uma amizade que passa pelo cinema. Sem o cinema, o Julio é meio frio”. Marici acabava de ver O Homem-Aranha 3, mas não fazia questão de comentar com a turma, principalmente porque tinha se divertido um bocado.

 

Outro antigo habitué da Polytheama é Nelson Pereira dos Santos: “Estou fazendo um filme sobre o Tom Jobim e a relação dele com o Rio, então tenho que assistir filmes sobre cidades. O do Murnau, Aurora, eu tinha visto no século passado, precisava rever. Mostra a cidade como vício, com triângulos amorosos”, explica, praticamente lambendo os beiços de prazer. Mas por que a Polytheama, se em outras locadoras de bom gosto mínimo ele também poderia alugar Aurora? “Ah, é que eu já conheço o Julio. O cara é uma antologia de cinema! Ele ajuda a lembrar os filmes.” Nelson Pereira acha que conhece Julio há pelo menos vinte anos, “deve ter sido na UFF, não tenho certeza”. Como Julio, ele também tem o seu cineclube, um grupo de amigos. “De cineasta, só eu.” O mote são as “atualidades do cotidiano”, temas que saltam das manchetes dos jornais: “Do mensalão, nós pegamos Le Mani Sulla Città, do Francesco Rosi”. Pegaram com Julio, naturalmente.

Do acervo de Julio fazem parte os mais de cem curtas-metragens de Griffith. É de fazer inveja até a Gilberto Santeiro, curador da Cinemateca do Museu de Arte Moderna do Rio. “Desses curtas, nós temos aqui uns vinte, é covardia”, suspira. “O Julio tem coisa do Griffith pré-Hollywood, quando ele filmava em Nova York.” O bom cinema os uniu: “Fui na casa dele atrás de um filme do Murnau, Tabu“. E apareceu lá sem indicação? A seco? “Mas claro! Sou o curador da Cinemateca do MAM, pombas.” Santeiro e Julio dividem uma outra mania: nas salas de cinema, escolhem sempre, no máximo, a terceira fileira. É um “imperativo godardiano”, explica Santeiro. “Godard dizia que um verdadeiro cinéfilo só pode sentar nas três primeiras filas, pra não sentir a presença do espectador e poder se entregar à obra.” Julio confirma a inevitabilidade do gargarejo: “É pra ver melhor os detalhes, tá certo?” Tá, tá.

Gustavo Gadelha

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