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Classificados das arábias

Ferraris e outras pechinchas num tabloide de Abu Dhabi

Laís Coelho 
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL

Dizer que em Abu Dhabi, a pujante capital dos Emirados Árabes Unidos, há mais Ferraris do que grãos de areia pode parecer um pouco exagerado. Mas só um pouco. Numa manhã de março, a quarta de uma sufocante tempestade de areia, um casal ocidental que passeava pelo Oriente Médio passou a mão no Gulf News e ocupou uma mesa ao ar livre. O tabloide escrito em inglês é o que mais vende no país (108 mil exemplares por dia).

José Vicente, um senhor grisalho e de barba por fazer, começou a leitura pela seção de esportes. A temporada de Fórmula 1 havia começado na véspera, na Austrália, e o inglês Jenson Button vencera a corrida. “Por pouco não foi uma dobradinha da McLaren, você viu? O Vettel ficou em segundo, e o Hamilton, em terceiro”, comentou, animado, em busca de alguma reação da mulher, absorta no noticiário internacional.

Sem resposta, mergulhou na seção de classificados, um caderno de 36 páginas todo impresso em cores. “Há doze Ferraris à venda só hoje”, berrou Vicente, avermelhado, ao chegar à página 21, onde estavam os anúncios de veículos. Em letras miúdas, comparáveis às usadas no Brasil para comunicar a venda de bicicletas, sofás ou fogões velhos, os anúncios modestos tinham menos de 2 centímetros quadrados e ofereciam Ferraris seminovas em busca de novos donos. Coisa de fino trato.

“Ferrari 458 Itália – 4.5L V8, 2012, 3 anos de garantia. Couro bege, sistema de navegação, sensor de estacionamento. AED 999 mil”, anunciava o texto em inglês, sob a foto minúscula de um carro prateado. “Peraí”, exclamou Vicente, “um milhão de dirhams são… 540 mil reais”, concluiu, sacudindo o tabloide no ar. Logo abaixo, encontrou uma opção mais em conta: “Ferrari 599 GTB – 6.0L V12 – 620 BHP, modelo 2009, 11 500 km, couro vermelho. AED 620 mil.” “São 340 mil reais, querida!”



Diante da excitação de Vicente, a mulher finalmente se sensibilizou. Ao pegar o jornal para conferir as ofertas, ela entendeu por que os classificados tinham tirado o marido do sério. Entre as páginas 24 e 26, o Gulf News oferecia naquela manhã cinco Lamborghinis, sete Maseratis, quinze Porches e cinco Rolls-Royces. Mais adiante, havia ainda um Aston Martin e alguns Bentleys.

A cereja do bolo eram dois anúncios de fazer inveja a Thor Batista: carros exclusivíssimos lançados havia menos de um ano, inteiramente feitos com peças fabricadas na mais famosa escuderia britânica de F1. “McLaren MPC-12C – 3.8L. 2012. Nova. Couro preto. Carroceria em fibra de carbono. Display touch screen com 7 polegadas. Preço sob consulta”, leu a mulher, para pasmo de Vicente.

Os Emirados Árabes Unidos não existiam cinquenta anos atrás. Seu território quente, seco e arenoso, apesar de banhado pelas águas azul-turquesa do Golfo Pérsico, se dividia entre sete famílias de comerciantes e era governado de forma hereditária por sete xeques – ou emires, mais precisamente. O maior passatempo de sua população era até alguns anos atrás confeccionar e colecionar falcões empalhados, além de pajear animais no deserto (Abu Dhabi significa “pai do veado”). A comunidade subsistia da coleta de pérolas e do pequeno comércio que ela gerava até 1958, quando, animados com as descobertas feitas em outros países da região, decidiram abrir um buraco no chão e deram de cara com a sexta maior reserva de petróleo do mundo.

O óleo que jorrou das profundezas fez com que os sete emires se reunissem num todo-poderoso Conselho Supremo, vigente até hoje – trata-se de um sistema de governo único no mundo, diferente da monarquia constitucional e da república. Um dos emires foi eleito para presidir o conselho, e uma Constituição foi redigida. O ano era 1971, e os Emirados Árabes Unidos ganharam corpo.

Seus governantes perceberam que o petróleo, além de comprar o respeito de todo o mundo, tinha o poder de levar prosperidade à nação. Em menos de duas décadas, à custa da mão de obra barata de imigrantes do Sudeste Asiático, rodovias com até seis pistas em cada sentido pipocaram pelo país. Ilhas artificiais que hoje podem ser vistas do espaço brotaram do mar para abrigar gigantescos palacetes dourados, e o maior edifício do mundo – o ofuscante Burj Khalifa – saiu do chão para cutucar as poucas nuvens que se aglomeram a 828 metros de altura.

Em 2009, Abu Dhabi inaugurou com uma corrida de 55 voltas seu novíssimo circuito de Fórmula 1 – sem champanhe, já que os muçulmanos não bebem álcool. Um ano depois, com a presença dos xeques mais poderosos do Oriente Médio, foi aberto o badalado Abu Dhabi Ferrari World, o único parque temático do mundo dedicado à escuderia italiana. Não tardou até que carrões circulando pelas ruas dos Emirados se tornassem uma visão relativamente corriqueira.

Naquela edição de março, o Gulf News anunciava dois sites de revenda de carros. O Exotic Cars tem como logotipo a bandeira quadriculada das corridas de automóveis. No fim de junho, oferecia em sua página seis BMWs, três Aston Martins, quatro Bentleys, dois Porsches, dois Maseratis e dois Lamborghinis. A McLaren anunciada dois meses antes já não estava disponível (os donos do empreendimento não revelam detalhes sobre o negócio). O outro site, Deal on Wheels, também comemorava com discrição a venda de uma McLaren. A Ferrari prateada que chamara a atenção de José Vicente ainda aguardava um comprador – junto com outras onze.

A edição do tabloide naquele dia foi deixada pelo casal em cima da mesa, ao lado da xícara de chá vazia. Dentre as 86 ofertas de emprego publicadas nos classificados, alguma poderia interessar às funcionárias da cafeteria. O salário médio oferecido às mulheres filipinas, indianas, bengalesas, nepalesas ou paquistanesas que se dispusessem a trabalhar de domésticas em casas árabes rondava os 1 500 dirhams, pouco mais de 800 reais.

Laís Coelho 

Laís Coelho é jornalista no Rio de Janeiro.

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