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    CRÉDITO: ANDRÉS SANDOVAL_2023

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Clube antiesquerda

O MBL expõe no Rio de Janeiro sua crise de identidade

Lara Machado | Edição 206, Novembro 2023

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No dia 7 de outubro, sábado, o Club Municipal, no bairro da Tijuca, no Rio de Janeiro, vivia uma tarde agitadíssima. Por volta de 13h30, no segundo andar do prédio, que é propriedade da Associação dos Servidores Públicos, mulheres enchiam balões brancos e cor-de-­rosa para um concurso de dança de salão. No terceiro, acontecia uma sessão de fotos de formandos de direito. No quarto andar, cerca de duzentas pessoas esperavam o início do primeiro congresso do Movimento Brasil Livre (MBL) no Rio.

O congresso é parte de uma mobilização do MBL, que nasceu em São Paulo, para conquistar adeptos em outras regiões do país. A estratégia é preparar o solo para as eleições municipais do ano que vem.

O grupo também sonha com a criação de seu próprio partido político. Mas, por ora, seus poucos candidatos contentam-se em se lançar por legendas como União Brasil, Podemos e o Novo. Folhetos que apresentavam os feitos e os planos de Pedro Duarte (Novo-RJ), o único vereador ligado ao MBL no Rio, estavam depositados nas poltronas para a plateia muito variada, em termos de gênero, raça e idade.

Nas manifestações de rua pelo impeachment de Dilma Rousseff, em 2015, Kim Kataguiri e Fernando Holiday (que deixou o grupo em 2021) eram os astros dos caminhões de som. Seis anos depois, o MBL convocou uma manifestação pelo impeachment de Jair Bolsonaro em São Paulo – e a adesão foi pífia. Os resultados eleitorais do grupo em 2022 também foram fracos, com apenas dois representantes eleitos em todo o país: Kataguiri conseguiu se reeleger deputado federal pelo União Brasil de São Paulo, e Guto Zacarias entrou na Assembleia Legislativa paulista pelo mesmo partido.

No Rio, enquanto o congresso não começava, organizadores resolveram instalar ventiladores de pé pelo auditório, porque fazia muito calor. Nas caixas de som, soou a canção Que dure para sempre, de Peninha e Aroldo Alves Sobrinho, nas vozes de João Paulo e Daniel: Nós dois não temos rabo preso/Você não me cobra nada/E eu não cobro você.

 

O paulista Higor Borges dos Santos, assessor do vereador Pedro Duarte, foi o primeiro a subir ao púlpito, que ele chamou de “barril do Chaves”, em alusão ao programa infantil mexicano. “Queria que levantasse a mão quem já sabia da existência de um núcleo do MBL no Rio”, disse, tentando aquecer o público. Quando a maioria das pessoas levantou a mão, ele se declarou surpreso, embora fosse uma pergunta meio óbvia para a plateia que havia pagado entre 50 e 80 reais para participar do evento. Borges dos Santos aproveitou para pedir que todos contribuíssem com o grupo, ressalvando que pedia apenas valores pequenos: “O MBL não é deslumbrado, é feito de gente como a gente.”

“Os planos do MBL para o Rio de Janeiro” foi o tema da primeira mesa do encontro. Mas pouco se falou disso. O paulista Renan Santos, um dos fundadores do movimento, rejeitou o púlpito para discursar andando pelo palco. Não chegou a apresentar planos para o Rio, mas falou da violência, da estagnação do turismo e da falta de empregos que leva os cariocas a pegarem “praia na Faria Lima”. “Tudo isso é sintoma de que a gente ficou preso nos sonhos e nos paradigmas de uma geração boomer, dos anos 60 e 70. Agora precisamos instigar novos sonhos e criar novos líderes”, disse.

Coordenadora nacional do MBL , Amanda Vettorazzo foi a única mulher a falar no congresso. Defendeu a necessidade de levar o MBL para mais municípios do interior, mas o tema não interessou muito seus colegas de mesa, que cochichavam entre si e checavam o celular enquanto ela falava.

O carioca Gabriel Costenaro, youtuber que ambiciona concorrer a vereador, adotou a retórica incendiária que fez a fama do MBL. “Vocês têm que ter nojo do Rio de Janeiro”, disparou. Então voltou o lança-chamas para a Barra da Tijuca, bairro que qualificou como “o antro do que há de mais podre” na cidade. “Todo mundo que quer viver uma vida de burguês vai pra lá: jogador de futebol, traficante, miliciano”, disse. Uma pessoa na plateia gritou: “E Bolsonaro.” Costenaro concordou. Pedro Duarte amenizou o tom da mesa, com um apanhado histórico da política fluminense.

 

A segunda mesa intitulava-se “Cultura woke versus cultura brasileira”. Woke é o termo em inglês para designar quem está alerta para injustiças sociais e raciais. Um dos palestrantes foi Arthur do Val, ex-deputado estadual do União Brasil por São Paulo, cassado por unanimidade em 2022 por quebra de decoro parlamentar, ao dizer que as refugiadas da guerra da Ucrânia eram pobres e, portanto, “fáceis”.

Do Val lamentou que o brasileiro não valorize a própria cultura, ficando vulnerável a uma “cultura da lacração”. E lançou uma provocação: “Para combater a cultura woke tem que bater em trans? Como a gente pode combater isso sem ter o efeito colateral de ficar como um bando de reaça babaca?” O youtuber Matheus Faustino (conhecido nas redes sociais como FaustinoRN), que vestiu roupas femininas em um vídeo para criticar a militância trans, acrescentou: “A gente bate, mas no fundo é uma guerra perdida.” O influenciador Sérgio da Silva Júnior, mais conhecido como Jota Júnior, atacou a “cultura dos brancos culpados” e o “endeusamento de pessoas negras” (ele mesmo é negro).

Quando o público teve a oportunidade de fazer perguntas, ficou claro que Do Val havia tocado em uma questão sensível: como ser crítico da esquerda sem cair no reacionarismo? Pessoas que se identificaram como integrantes da comunidade LGBTQIA+ questionaram sobre o risco de a retórica agressiva do MBL flertar com o racismo e a transfobia. Renan Santos respondeu que o grupo vem evitando tratar desses temas para não “atrair maluco”. A essa altura, por volta das 16 horas, o chão começou a vibrar. O concurso de dança de salão havia começado.

 

A mesa seguinte abordou um tema adulto: “Os desafios da gestão pública”. Kataguiri discorreu sobre o déficit público, em termos técnicos. Zacarias preferiu atacar o “bando de vagabundos que é o MST”. Duarte, já de olho na campanha do ano que vem, falou sobre as políticas de incentivo à ocupação residencial do Centro do Rio.

Prestes a se encerrar, o congresso teve então seu momento de gincana. Kataguiri e um jovem – que em outra ocasião havia vencido um concurso de debates promovido pelo MBL no Rio de Janeiro – travaram uma batalha retórica, discutindo assuntos correntes da política. A plateia torceu pelo iniciante, mas o júri composto pelos demais conferencistas concedeu a vitória a Kataguiri. Para o derrotado, Zacarias deixou um conselho: “Tente ser mais combativo, você foi respeitoso demais.” E acrescentou, brincando: “Eu não sou um grande defensor do respeito.”

No encerramento, todos os convidados subiram ao palco para falar sobre o projeto O Livro Amarelo, que pretende formular “o norte ideológico” e “o horizonte intelectual” do MBL. Os princípios e orientações do Livro Amarelo não foram expostos.

À piauí, o youtuber Costenaro admitiu que o MBL carece de unidade ideológica: “Acho que o movimento nem é liberal. Já foi, mas hoje é uma comunidade para quem não é de esquerda.” O aspirante a vereador diz que falta discussão interna no grupo. Mas ele não se preocupa muito com isso. “A gente debate pouco, não é um movimento muito organizado, mas eu gosto.”