esquina

“Código 13… vários!”

Mortos-vivos invadem supermercado à cata de miolos!

Daniel Galera
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL

No fim da tarde de 9 de dezembro, o vão da Casa de Cultura Mario Quintana, no Centro de Porto Alegre, foi tomado por uma multidão de mortos-vivos. Alguns já chegavam produzidos de casa, enquanto outros se maquiavam na rua mesmo. Pouco antes das 18 horas, a legião de zumbis tinha entre 350 e 400 cabeças, todas em busca da mesma coisa: miolos. 

A primeira zombie walk de que se tem notícia aconteceu em outubro de 2003, em Toronto, com apenas seis participantes. A partir de então, as marchas de zumbis foram se alastrando pelo Canadá e Estados Unidos. O primeiro evento em grande escala foi realizado em agosto de 2005, em Vancouver, com cerca de quatrocentas pessoas. No último Dia de Finados, houve uma caminhada em São Paulo. Há zombie walks em preparação no Rio de Janeiro e em Florianópolis. A idéia é simples: divulgar na maciota, pela internet e no boca-a-boca, um encontro de entusiastas fantasiados e, dali, sair zanzando pela cidade ao longo de um trajeto predefinido. Regra essencial para participar: agir como morto-vivo. A marcha deve preferencialmente terminar num cemitério. A única licença poética é fazer uma festa depois da andança.


Foi através da internet que Thiago Cezimbra e Josué Fiuza, dois jovens colegas de trabalho e fãs de filmes de terror, ouviram falar em zombie walk e souberam da marcha planejada para São Paulo. Decidiram organizar uma edição porto-alegrense do evento. Escolheram data, local e rota e começaram a divulgar entre os amigos, por meio do Orkut e de uma página na web. “Sou fanático pela Volta dos Mortos-Vivos desde os 6 anos”, diz Thiago. O cinema foi o principal responsável por transformar o zumbi – um morto reanimado por expedientes sobrenaturais – em estrela da cultura pop. Os fãs recorrem aos filmes clássicos de Dan O’Bannon, e principalmente aos de George Romero, para determinar o comportamento de um zumbi ISO-9000. Como em tudo, o segredo está nos detalhes: zumbi só deve andar vagarosamente e em linha reta, por exemplo. Os puristas farão questão de salientar que somente em A Volta dos Mortos-Vivos o acepipe predileto desses cadáveres ambulantes são os miolos frescos. Nos filmes de Romero, eles não fazem distinção: comem todos os pedaços do corpo.

Em Porto Alegre, o empenho na caracterização foi muito além de pasta branca no rosto e sombra nos olhos. A quantidade de sangue falso que ensopava as pessoas e pingava pelo chão lembrava cenas do melhor gore cinematográfico. Além de sangue falso profissional, usaram-se receitas caseiras que circularam pela internet. Por exemplo: experimente dissolver um pacotinho de gelatina incolor em dois copos de água fervente, adicionar três potes de corante alimentício (um vermelho e dois bordô), juntar uma xícara de açúcar e mexer até pegar consistência – pronto, você terá em mãos um sangue mais do que aceitável.

Um sujeito especialmente exaltado se deu ao trabalho de ocultar o braço e amarrar um osso de boi no ombro, obtendo a impressão assustadora de um membro superior arrancado. Uma noiva ostentava o pescoço degolado sob o véu respingado de sangue. O campeão do quesito fantasia cobriu o rosto com uma máscara de látex e se fez passar por morto-vivo. Era um cadáver ambulante, sem tirar nem pôr. Parecia ter saído da terra fresca há minutos.

 

A marcha partiu pontualmente às 18 horas. Teve início na Rua dos Andradas, a mais tradicional do Centro de Porto Alegre. Desde o princípio, a velocidade da caminhada pareceu mais rapidinha do que se esperaria de autênticos zumbis, mas não há dúvida: muitos se esforçavam ao máximo para garantir o molejo corporal adequado. Cambalearam bem, acharam um jeito muito verdadeiro de estender os braços na direção dos transeuntes e trombar em carros e postes. Alguns chegaram a cair no chão e se arrastar pelo asfalto. Berros guturais misturavam-se ao grito de guerra “Miolos!”. Os mais tradicionalistas preferiam não se desviar das referências originais, e berravam “Give me your flesh!“.

A população não foi informada de nada. Na própria Rua dos Andradas, três comerciantes fecharam suas lojas ao perceber a movimentação. Nas janelas dos prédios, uns riam e atiçavam os zumbis, outros faziam a expressão de tédio de quem já viu de tudo. Os zumbis não perderam a chance de atacar ônibus, lotações e mesmo um caminhão de cerveja, dando murros nas janelas e cuspindo sangue com gosto. Um deles apontou para um idoso e gritou: “Sua hora está chegando!”. Um taxista, perplexo, perguntava aos passantes: “Mas o que é isso…?”. Recebeu urros do além como resposta.

Meia hora de caminhada depois, na altura da Ponte dos Açorianos, o imprevisto: os zumbis começaram a se cansar. Andar por aí feito zumbi exige treino, e nem todos estavam com a ginástica em dia. A maioria passou a se comportar como ser humano mesmo. Se bem que um certo ânimo empurrou o bando até o fim. No Parque Farroupilha, lotado na tarde quente de sábado, os mortos-vivos se misturaram aos casais de namorados e pais com filho pequeno. Houve espanto e comoção. No final do percurso, na Rua Lima e Silva, resolveram entrar no supermercado Zaffari, talvez inspirados nas cenas de Despertar dos Mortos em que seus pares invadem um shopping. Enquanto os consumidores faziam compras no embalo da musak, os zumbis foram se infiltrando pelos corredores, com os braços à frente e as mãos estendidas. “Miolos! Miolos!”, repetiam. Tenso, o segurança da entrada alertou pelo rádio: “Código 13, código 13. Vários!”. A moça que acompanhava uma senhora em cadeira de rodas tapou os olhos da velhinha.

Daniel Galera

Daniel Galera é escritor e vive em Porto Alegre. Seu romance mais recente é Barba Ensopada de Sangue, da Companhia das Letras.

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