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Como na Idade Média

Cuteleiros cobram caro pelas facas que fabricam com martelo e bigorna

Clara Becker
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL

Algumas clareiras glabras nos braços peludos de Milton Hoffmann saltam aos olhos, assim como a mancha perene de sujeira na calça jeans, na altura da coxa. Cuteleiro, ele testa o gume de suas facas na própria carne. Se estiverem afiadas no ponto, são capazes de depilar os braços como gilete. Depois de amolar uma lâmina, Hoffmann costuma limpá-la na calça, para desgosto de sua mulher.

Ele é alto, tem cabelos grisalhos e fala suave. Há dez anos é cuteleiro, o ofício de fabricar instrumentos de corte, sejam punhais, espadas, adagas, cimitarras, gládios, canivetes ou tesouras. A vocação se manifestou cedo. Quando saía para pescar com o avô, deixava escapar os peixes, distraído que estava com as facas. Aos 8 anos, se apoderou do tubo de alumínio da antena de uma velha televisão, achatou-o a marteladas e transformou-o em lâmina. Com um cabo improvisado com papel higiênico e farinha de trigo, estava pronto o seu primeiro objeto cortante.

Hoffmann é um senhor respeitável que se formou em engenharia florestal e trabalha no Superior Tribunal de Justiça. Mas a queda para o corte não arrefeceu. Ele fez da cutelaria um hobby– ou um segundo emprego, como prefere –, ao qual dedica mais de duas horas por dia. Montou no quintal de sua casa,  em Brasília, uma oficina para fazer lâminas. Ali, fabrica doze facas por ano, cuja venda lhe garante uma renda adicional de 15 mil reais.

Seu equipamento se resume a uma bigorna amarrada a um toco de madeira, uma fornalha e um martelete. Não fosse pelo botijão de gás que alimenta o forno, seriam os mesmos meios de que dispunham os ferreiros da Idade Média. Para os fãs da cutelaria do século XXI, a graça consiste em fabricar lâminas seguindo técnicas seculares.

Hoffmann também é presidente da Sociedade Brasileira dos Cuteleiros, da qual foi um dos fundadores, há dez anos. Apesar de seu esforço para divulgar o artesanato e reunir apreciadores, a entidade não conseguiu amealhar mais que uma centena de associados.

Esqueça a postura ereta, o polegar opositor e a linguagem articulada. Para o cuteleiro, a descoberta da faca é o que distingue os humanos dos macacos. “A faca está no nosso sangue, é o instrumento mais antigo que o homem conhece”, disse. “Sem ela, o Homo habilis do Paleolítico Inferior não conseguiria separar a pele do animal da carne para se alimentar de proteína, e tampouco se vestiria de couro para sobreviver ao frio. Imagina se não houvesse a faca para cortar e dividir a comida?”

Segundo ele, os povos com a metalurgia mais desenvolvida se sobrepuseram aos demais. O fracasso das Cruzadas se deveu, justificou, às arcaicas armas de ferro usadas pelos europeus, enquanto os árabes já usavam espadas feitas em aço de carbono. “As facas dos cruzados quebravam com facilidade e eram tão pesadas que precisavam ser levantadas com duas mãos”, disse. “Já os árabes seguravam as suas com uma só mão, de cima dos cavalos.”

A cutelaria, que gozava de prestígio na sociedade medieval, entrou em decadência a partir da Revolução Industrial. Com a fabricação em série de facas e afins, a produção manual aos poucos se relegou a um nicho. “Mas hoje o cuteleiro renasce como artista”, disse Hoffmann.

Para perpetuar as técnicas tradicionais, ele chegou a dar aulas particulares em sua oficina doméstica nos fins de semana. Com o aumento da demanda – e das reclamações da família –, procurou a Universidade de Brasília para montar um curso de extensão que atendesse a vários alunos de uma só vez. Graças à iniciativa, a UnB é hoje a única universidade latino-americana que capacita interessados na fabricação de lâminas como no medievo. Em uma semana, cada aluno sai de lá com uma faca de 25 centímetros produzida por ele mesmo.

“A estatística é cruel, boa parte de vocês vai desistir”, alertou Hoffmann. Ainda na primeira das 42 horas de aula, os seis alunos do 16° Curso de Cutelaria Artesanal não se deixaram abalar. “São necessárias trinta, quarenta facas até conseguir fazer uma mais ou menos reta. Um milímetro errado é suficiente para pôr tudo a perder.”

Para estimular a turma, Hoffmann disse que a cutelaria pode até se tornar uma profissão. “Você começa dando uma faca para a mãe, para um amigo e logo pessoas desconhecidas estarão atrás de você”, disse. “Diferente do que acontece nas artes plásticas, não é preciso ter nome no mercado, é muito fácil vender facas.”

O professor citou o exemplo de Luis Freddo e Gustavo Vilar, dois ex-alunos do curso da UnB que são motivo de orgulho para a cutelaria nacional. “Freddo chega a vender facas para o exterior por até 6 mil dólares”, contou. “Há uma fila de dois anos para ter uma dele.” Já Vilar é uma espécie de Hattori Hanz, o mestre fabricante de espadas de Kill Bill, de Quentin Tarantino: seu passe foi comprado por um xeque árabe, mudou-se para Abu Dhabi e ganha um salário de 30 mil dólares para fabricar facas que o chefe oferece como regalo a seus convidados.

Concluída a parte expositiva, os alunos tiveram seu primeiro contato com a prática. Sacaram de suas mochilas avental e sapatos de couro, camisa de manga comprida, óculos e protetores auriculares. “Tem que tomar cuidado para não deixar a fagulha grudar na pele, isso dói”, ensinou Hoffmann.

A primeira tarefa parecia simples: fazer uma barra de aço cilíndrico ficar quadrada. No entanto, só pôde ser levada a cabo com a ajuda de instrutores que corrigiam o movimento desengonçado dos iniciantes. Hoffmann circulava entre os aprendizes, num ambiente marcado pelo calor das três forjas ligadas a mais de mil graus e pelo barulho infernal das marteladas. Para se fazer ouvir, ele precisava gritar. “Sabia que a maioria dos ferreiros de antigamente ficava surda?”

Clara Becker

Clara Becker é jornalista e vive no Irã. É coautora dos livros The Football Crónicas e Los Malos

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