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    ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2009

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Compreendemos a sua indignação

Pior do que Galisteu viajar com dinheiro do erário, só microondas subversivo

Andrea Jubé | Edição 32, Maio 2009

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Cidadão Indignado e Furioso: “Se vocês aprovarem essa Proposta de Emenda Constitucional, saibam que ganharão de graça muitos pesadelos e dores de cabeça. Nós não vamos ficar quietos. Preparem seus carros! Tranquem suas casas! E, se saírem, levem guarda-costas! Cada um que for a favor dessa palhaçada vai pagar caro por isso!”

Ouvidoria Parlamentar: “Comunicamos o recebimento de sua mensagem acerca da propalada efetivação, sem realização de concurso público, de 269 mil servidores, conforme dispõem as Propostas de Emenda à Constituição (PEC) nos 54/1999 e 2/2003. Compreendemos a sua indignação, a qual, aliás, é compartilhada por milhares de brasileiros.”

Cidadão Indignado, Porém Menos Furioso: “Tenho que registrar o meu agradecimento por esta resposta rápida. Fico alegre. Mas quando se fala de órgão público, parece que estamos enviando e-mails para fantasmas, que nunca respondem. Parabéns pela atenção e disponibilidade de nos atender.”

 

A reclamação de Cidadão Indignado foi apenas mais uma entre as 2 701, que, em 2007, bombardearam a Ouvidoria da Câmara dos Deputados para, furibundas, levantar armas contra a chamada “PEC do Trem da Alegria”. Do outro lado do bombardeio estavam Regina, Patrícia, Tatyana, Mara, Meg ou Vera, o time de atendentes da casa cujo trabalho é passar a vida ouvindo pitos cívicos. A cada mês, seja por telefone, e-mail ou carta, as moças se encarregam de responder a uma média de 600 mensagens de indignação, muitas delas carregadas de impropérios só publicáveis em revistas que frequentam bancas de baixo calão. De forma bissexta – e ponha bissexta nisto – chegam elogios ao labor parlamentar, boa parte escrita por mães, tios, primos ou aparentados do deputado ou senador. No rol quase infinito dos desaforos, destacam-se críticas às propostas sazonais de aumento de salário (o deles, claro), bem como ao peculiar regime de trabalho, que se estende por exaustivos três dias: terça quarta e, sim, quinta também. Em 2001 foram 500 ocasiões para levar bronca. Em 2008, mais de 6 mil.

Diante do turbilhão de insatisfações, foi necessário criar um protocolo de respostas. Perguntas indolores – “Já houve um deputado federal cujo nome completo fosse Orlando Alves Pimenta?” – esperam cerca de dois dias antes de receber resposta. Dúvidas mais complexas – “Existem quantas Propostas de Emenda à Constituição relativas a um terceiro mandato do presidente Lula?” – podem levar até um mês, em função da pesquisa necessária. Uma mensagem só é repassada a um deputado quando o remetente assim solicita.?Manifestações a favor ou contra determinados projetos são encaminhadas diretamente à presidência da Câmara. Em 2007, Cidadão Indignado & Companhia puderam cingir suas frontes com os louros da vitória: a PEC da farra de empregos soçobrou no mar de descomposturas.

 

“Você ou tem espírito cívico ou não se encaixa na equipe”, ensina Regina Fontes, uma baiana de 36 anos, acostumada a fubecadas epistolares como esta: “Eu gostaria de saber se existe algum deputado que tenha o nome limpo, sem processo. Porque eu, se estiver no SPC ou no Serasa, não consigo emprego. Já parlamentares mais sujos que pau de galinheiro conseguem tudo que querem, inclusive aumentar os seus próprios salários.”

 

Em abril passado, o grosso da correspondência foi especialmente, bem… grossa. A farra de viagens regionais, nacionais, continentais e intercontinentais – com ou sem Adriane Galisteu a tiracolo – foi um dedo no olho do missivista-cidadão. “Gostaria de expressar minha indignação com o deputado Fábio Farias do PMN, por ter usado dinheiro público para pagar passagens de atores?globais”, exclamou um. “Espero que a Câmara casse o mandato do deputado Fábio Faria (ex de Galisteu) e o mande brincar em outro lugar”, gritou outro. As manifestações receberam resposta polida na qual se assegurava que a Mesa Diretora seria informada do reclamo em tela.

Nos períodos em que parlamentares conseguem superar a si mesmos – como em 2005, quando Severino Cavalcanti tentou aumentar o salário da classe em 91% – chovem mensagens exigindo a volta da ditadura. Regina responde sacando do chapéu lições de moral e cívica. “Explico ao remetente que não estaríamos travando este diálogo se vivêssemos naquele período. Para início de conversa, a pessoa seria presa pelo simples fato de enviar uma carta nestes termos.”

Teses conspiratórias também recebem resposta. É o caso do cidadão que alimentava certa desconfiança em relação ao seu forno de microondas: “A radiação de microondas está sendo utilizada pelo crime organizado para diversos fins. Esta arma de raios de microondas era de uso exclusivo da Central de Inteligência dos Estados Unidos. Hoje, entretanto, já está disponível e pode ser utilizada, por exemplo, para obrigar o proprietário a desistir de morar no seu imóvel.”

 

Sem hesitar, Regina respondeu: “Gostaríamos de parabenizá-lo pela iniciativa, prova do seu engajamento com questões relevantes para o país, constituindo-se em verdadeiro ato de cidadania, sem o qual não será alcançado o tão almejado fortalecimento da nossa democracia.” Até aí foi bem. O difícil era saber como prosseguir. Pensou um pouco, e concluiu: “Sugerimos que escreva ao Ministério de Ciência e Tecnologia, por meio do endereço www.mct.gov.br.”

Andrea Jubé

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