esquina

Confessionário digital

Conselhos de um vlogueiro em crise

Bolívar Torres
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2016

O escritor e vlogueiro Enrique Coimbra vinha tentando, já havia alguns dias, gravar um novo vídeo para o seu canal no YouTube, mas esbarrava em constantes cortes de energia e problemas de conexão na casa dos pais, onde vive e trabalha. Erguida de forma irregular no bairro de Sepetiba, na Zona Oeste do Rio de Janeiro, a construção de dois quartos fica numa rua que não aparece no Google Maps, tampouco possui postes oficiais da companhia de energia elétrica da cidade. A internet chegou lá, é verdade, mas chegou mal, e há um limite para a quantidade de eletrodomésticos que podem ser acionados ao mesmo tempo no domicílio. Os dilemas do rapaz de 23 anos são diários: ligar o ar-condicionado ou o computador? Lavar roupa na máquina ou tomar banho?

Não surpreende, portanto, que às vezes Coimbra cogite abandonar o canal, o trabalho, a carreira. Aquela era uma dessas manhãs de crise – além de tudo chuvosa. Mas, seguindo um conselho da terapeuta que o acompanha há dois anos, o youtuber achou por bem se refugiar de suas angústias em atividades rotineiras. Durante mais de uma hora, capinou o terreno de casa, trocando as preocupações recorrentes pelo manejo da enxada.

A estratégia funcionou. Horas mais tarde, já estava pronto para cumprir um dos seus mais importantes deveres de ofício: a interação com fãs por e-mail, tarefa que consome boa parte do seu dia. Com cerca de 82 mil assinantes, o canal Enrique sem H aborda questões gays em tom didático e confessional. Jovem de físico frágil e angelical – cabelos louros ondulados, nariz comprido, olhos azuis e cílios longos –, Coimbra dá conselhos existenciais nos vídeos. Como superar julgamentos? Quais as implicações de ter casos com héteros? Sair com homem bonito ou interessante? O vlogueiro não se restringe, contudo, ao universo LGBT e também reflete sobre os enfrentamentos básicos de toda a gente: a necessidade de ser carismático, o medo de não ser um profissional bem-sucedido ou, simplesmente, a dificuldade de lidar com problemas. Um monte de problemas.

O canal soma pouco mais de 2,9 milhões de visualizações – número modesto se comparado ao das grandes estrelas do YouTube, mas suficiente para manter uma audiência fiel. Nos dias em que posta novos vídeos, Coimbra recebe por e-mail uma enxurrada de desabafos, questionamentos, cantadas e pedidos de ajuda, alguns desesperados. “Tem coisas tensas”, revelou. “Pessoas com problemas sérios, que preciso auxiliar. Eu poderia ignorar, mas não consigo.”

 

Fruto de um caso fortuito entre um executivo alemão radicado no Rio e uma acompanhante de luxo angolana que também vivia na cidade, o rapaz foi adotado pelo taxista que socorreu sua mãe biológica na rua e a transportou até o hospital, no dia do parto. Desamparada quando o progenitor decidiu voltar para a Europa sem assumir suas responsabilidades, a garota de programa criou laços com o motorista e sua esposa. Acabou deixando o bebê com os dois.

Em casa, Coimbra e seus pais mantêm as portas dos cômodos sempre abertas. Quando os visitei, perto da hora do almoço, o som de um programa de tevê evangélico escapava do quarto do pai, Aldovano Jorge, que às vezes se levantava para cuidar da comida, na cozinha. Preparava um estrogonofe (o filho havia pedido expressamente que ele caprichasse no creme de leite). A mãe adotiva, Noely Macedo, uma dona de casa de 58 anos, permanecia encostada na parede do quarto de Coimbra, em pé, ouvindo o youtuber falar sobre suas preferências por homens gordos e preliminares infinitas.

Não há assunto tabu na família. A mãe nunca teve problemas com a orientação sexual do jovem ou o consumo de maconha. Em compensação, penou para aprender a lidar com a instabilidade emocional do vlogueiro. Uma dessas crises o levou a misturar vinte comprimidos de barbitúrico com uma garrafa de Campari. A experiência inspirou o seu último romance – ele já escreveu três –, Um Gay Suicida em Shangri-la, de 2014.

A depressão e as tendências autodestrutivas acompanham Coimbra desde a puberdade e são um assunto aberto, recorrente, em sua casa e no canal de vídeos. O humor oscilante piorou quando o pai teve um AVC, e a família se viu obrigada a mudar para Sepetiba. Apesar dos apelos contrários da mãe, o jovem abandonou duas faculdades caras, cursadas com bolsa do ProUni, para tentar viver de literatura. Em 2013, teve a ideia de criar um canal para compartilhar suas experiências. “Estou aprendendo a ser o mais transparente que posso. Ainda que não tenha milhões de assinantes, o meu poder pela internet afeta vidas”, explicou, colocando grande ênfase na palavra “vidas”.

Aproveitando uma conexão surpreendentemente veloz naquela manhã, Coimbra respondia à correspondência de alguns “confidentes” – ele não gosta da palavra “fã”, nem “amigo”. Um desses interlocutores regulares é um pai de família brasileiro, bem mais velho que o rapaz, que mora no exterior. Com dificuldade para assumir sua bissexualidade, ele pediu ajuda ao youtuber. Depois de sair do armário e abandonar esposa e filho, prometeu compor uma música para Coimbra.

Com uma xícara de café na mão, e ainda de pijama, o vlogueiro definiu como “terrível” a responsabilidade que tem sobre parte de seu público. “Faço questão de dizer que sou um mortal com tantos problemas quanto eles. Se recebo e-mail de um cara que está dizendo que pensa em se matar, que ninguém o compreende, ofereço as soluções que funcionaram para mim. Tento ser justo e usar o meu poder.”

O almoço estava pronto. Coimbra se levantou da frente do computador e foi até a cozinha. Encheu o prato com o estrogonofe e voltou para o quarto. “Pode escrever que esse garoto não come”, disse a mãe, preocupada com a magreza do filho. De modo geral, sua vida tem se acertado, com a ajuda da terapia e dos remédios. “Comecei a ganhar algum dinheiro com o canal de vídeos”, contou o jovem, que faz planos para o futuro. Quer viajar pela primeira vez. Quer promover ações sociais para melhorar o bairro. Em seguida, com o prato no colo, comeu o estrogonofe: todo ele, as garfadas lentas, uma depois da outra.

Bolívar Torres

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