esquina

Consciência do traço

Uma escola paulistana de caligrafia

Ana Lima Cecilio
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2016

O paulista Marcelo Eduardo Junqueira terminou o exercício que estava fazendo e levantou-se para mostrá-lo ao professor, que aguardava de plantão em sua escrivaninha. Era um dos oito alunos reunidos naquela tarde na sala de estudos da centenária Escola de Caligrafia De Franco, na Zona Oeste da capital paulista. Funcionário do metrô, Junqueira é um moreno musculoso de 42 anos, que usa camiseta justa e unhas pintadas de “nude chocolate”. É também aprendiz de tatuador no Senac, e matriculou-se no curso de caligrafia por exigência do ofício pretendido. “Hoje as meninas gostam muito de tatuar frases”, explicou. Queria ter mais firmeza na letra, mas ainda titubeava na escrita “com mais firulas”.

Esferográfica vermelha em punho, o professor Flávio José De Franco Júnior passou os olhos com rapidez pela folha algo rasurada em que o aluno copiara várias vezes as letras do alfabeto em letra inglesa manuscrita. De Franco deteve-se sobre as letras escritas de forma mais apressada e com a inclinação imperfeita. Sem desviar a atenção do papel pautado, caprichando no volteio das maiúsculas, o professor levantou os olhos e observou: “Para fazer caligrafia é preciso ter muita concentração, deixar a ansiedade lá fora.” Junqueira acusou o golpe: “Essa foi pra mim”, disse, antes de voltar para a sala de exercícios para refazer a lição.

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Ana Lima Cecilio

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