esquina

Contra a vela elétrica

Criador da crítica litúrgica sai em defesa da missa em latim

Cíntia Bertolino
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2012

Em um sábado frio de novembro, às 11h45 em ponto, Camillo Langone saltou lépido da bicicleta em frente à Igreja Santa Maria della Steccata, na cidade de Parma, norte da Itália. Desculpou-se pelo atraso de cinco minutos e passou apressado para o interior do templo, erguido no século XVI. Falando rápido, chamou a atenção para o altar barroco e os dois órgãos antiquíssimos, ambos em atividade. Ao baixar o olhar, apontou desgostoso para as cadeiras desprovidas de genuflexório. “Um desastre”, sentenciou.

Católico fervoroso, Langone inventou há cinco anos a crítica litúrgica. Investido pela autoridade de quem desde sempre esteve às voltas com turíbulos, santos, órgãos e hóstias, pôs-se a observar atentamente tudo o que faria de uma igreja “cinco velas”, e de uma missa, “cinco missários”, a cotação máxima de sua crítica.

As velas avaliam os elementos devocionais ou puramente decorativos no interior da nave. Flores, iluminação, púlpito e vestimenta do padre recebem cotações de 1 a 5. Os missários (livros litúrgicos com os quais os fiéis seguem a celebração) julgam a missa propriamente dita: a retórica do padre, a forma como o ritual é conduzido, a música e o sermão. O momento da eucaristia merece atenção especial: se o padre deposita a hóstia nas mãos dos fiéis, e não na boca, ele perde pontos.

Sua crítica é dirigida sobretudo aos aspectos formais. Sobre o conteúdo do sermão, Langone dá de ombros. “Não me interesso muito pela parte humana da missa. Em Bolonha, um frade dominicano, do qual não me recordo o nome, disse que o sermão deveria ser como a minissaia: curto, aderente e aberto ao mistério.”

Em um país apinhado de igrejas, catedrais e basílicas, invariavelmente acompanhadas de uma ampla gama de adjetivos, o crítico começou por aquelas que já conhecia. Depois visitou igrejas por toda a Itália, em metrópoles e vilarejos escondidos. Por cerca de dois anos, as resenhas foram publicadas no diário conservador Il Foglio. Em 2009, lançou o Guida alle Messe, com uma seleção de 232 críticas litúrgicas.

Dentre as missas favoritas, ele destaca a de Sant’Antimo, em Montalcino, na Toscana. Sete frades vestidos de branco oficializam em latim “uma maravilhosa liturgia, em uma abadia maravilhosa”. A missa dominical de Sant’Antimo recebeu quatro velas e quatro missários. A cotação máxima jamais foi alcançada porque, segundo o crítico, a “perfeição não é terrena, pertence a Deus”.

Dentre as piores, Langone aponta a de Maiori, na Costa Amalfitana. Para um tradicionalista como ele, causou consternação o tom festivo da celebração dominical, embalada por música estridente, guitarras, tamborins e um coro repleto de crianças. Como se não bastasse, a imagem de Nossa Senhora, circundada por velas elétricas, era saudada na missa por cantos ritmados com palmas. “Parecia a Era de Aquário daquele musical, Hair”, escreveu o crítico. “Durante o sermão, o padre se transformou em James Brown, com o microfone em punho correndo de um lado a outro do presbitério.”

Langone retornou da viagem ao âmago do catolicismo italiano com renovado ódio às velas elétricas e a sensação pouco satisfatória de que seu trabalho para eliminar de vez baterias e tambores das igrejas provincianas fora em vão. “Não adiantou de nada. A Igreja é uma anarquia geral. Cada padre faz o que quer”, disse. “Só um pároco de uma cidade pequena na Sicília me escreveu para dizer que, depois de ler meu livro, jogou as velas elétricas no lixo.”

 

Nascido em Parma, Langone descreveu a si mesmo como um esteta ritualista, lambrusquista, amante da simplicidade e antiexótico por excelência. Não revelou a idade nem o estado civil. A essas perguntas, respondeu com um teatral: “Esse mistério se encerra em mim.”

De estatura média, aparentando estar próximo dos 50 anos, cabelos grisalhos cada vez mais ralos, nariz adunco e um pescoço pouco favorecido pela gola rulê da malha negra, ele lamentou que não estivesse frio o suficiente para envergar seu tradicional tabarro. Pouquíssimas pessoas na Itália ainda usam essa capa de lã pesadíssima, esclareceu. Talvez seja por isso que, toda vez que a veste, é apontado por turistas como se fosse uma avis rara, saída diretamente de um vilarejo obscurantista para a cidade grande. “Não me importo em posar para fotos. É um dos poucos momentos em que pareço exótico.”

Há alguns anos, desiludido com a crítica litúrgica, Langone deixou de espinafrar párocos para atacar assuntos do cotidiano na pequena e polêmica coluna Preghiera (“Prece”), no mesmo Il Foglio, pertencente à família do ex-premiê italiano Silvio Berlusconi. A coluna expõe as opiniões de Langone sobre divórcio (“Deveria ser proibido para casais com filhos”), imigração (“O horror, o horror”), islamismo (“Outro planeta”) e a ascensão dos evangélicos (“Um tumor benigno que incomoda, mas que não matará a Igreja Católica”).

Em um artigo especialmente polêmico, aconselhou os homens a não irem para a cama com quem não gostariam de serem vistos durante o dia, como prostitutas, negras e travestis. “Essa é uma bela regra, não é? As negras, por exemplo, podem ser belíssimas, mas eu não gostaria de ser visto com uma delas em meu restaurante favorito”, declarou. Como a perfeição é exclusividade divina, ele admitiu alguma margem de manobra para suas opiniões. “Talvez um dia eu mude de ideia.”

Não é muito provável que isso aconteça, de qualquer forma. Langone nunca visitou outro continente e raramente sai da Itália. Tampouco vê incompatibilidade entre o principal pilar do cristianismo e o racismo, a xenofobia, a islamofobia e a homofobia declaradas. “É, talvez eu simplesmente não ame o próximo o bastante.”

Cíntia Bertolino

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