esquina

Cordialmente, Carlos

25 anos de cartas e desencontros com Drummond de Andrade

Emiliano Urbim
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2008

Sentada na poltrona da sala de sua casa modesta, livro aberto no colo, Helena Maria Vicari, 68 anos, declama: Eis meu pobre elefante/ pronto para sair/ à procura de amigos. A leitura é ritmada e tensa. Vai meu elefante/ pela rua povoada,/ mas não o querem ver/ nem mesmo para rir. Helena faz uma pausa, ajeita os óculos e passa a mão pelos cabelos tingidos de loiro claro. Mostra com elegância/ sua mínima vida,/ e não há na cidade/ alma que se disponha/ a recolher em si/ desse corpo sensível/ a fugitiva imagem… Emocionada, ela pára no qüinquagésimo sexto dos cem versos de O Elefante. Sem tirar olhos nem dedos das páginas, comenta: “Esse é o meu favorito. Me arrependo de nunca ter dito a ele”.

“Ele” é Carlos Drummond de Andrade. Nos últimos 26 de seus 84 anos, Drummond trocou cartas com a professora Helena, de Guaporé, cidade de 20 mil habitantes encravada numa parte menos badalada da serra gaúcha. Ela guarda numa pasta preta, abrigadas em plástico, cerca de sessenta cartas, cartões-postais e bilhetes que o poeta lhe enviou; da correspondência dela para ele, não existe cópia. Há mensagens de Drummond datilografadas, escritas à mão, ilustradas, enfeitadas com rabiscos de canetinhas hidrocor. Ao longo das linhas e dos anos, algumas palavras se repetem: “carinho”, “amizade”, “gratidão”, “paz”, “respeitosos abraços”. Mas essa relação de dezoito anos – que começou com “Desejando-lhe também um feliz Ano-Novo, com êxito nos estudos, envio-lhe o autógrafo pedido” e terminou com “Uma das alegrias da minha vida é contar com amizades fiéis como a de você, que venceu o tempo e a distância” – nunca foi além do papel. Helena e Drummond nunca se encontraram. “Pedras no meio do caminho”, ela diz, sem sorrir com o trocadilho.

Helena conheceu os versos de Drummond por intermédio de Lara de Lemos, poeta e cronista do Correio do Povo, o maior jornal do Rio Grande do Sul, a quem enviava cartas e poemas na esperança de uma palavra de incentivo. Para retribuir o esforço da jovem de 20 anos, Lara se encontrou com ela em 1960 e lhe apresentou a obra de Drummond. Helena ficou deslumbrada.

Um ano depois, cursando magistério num colégio católico, Helena ouviu de uma das freiras que Cecília Meireles seria eterna e que Drummond, moderno, cairia no esquecimento. Foi o pretexto para escrever ao herói – achou o endereço num almanaque de poesia brasileira, numa seção intitulada “Corresponda-se com os seus poetas”. Nessa primeira carta, fez pouco da freira futuróloga: “Minha professora de literatura não gosta do senhor, mas eu o acho o maior do Brasil”. Recebeu uma polida resposta datilografada e um cartão com autógrafo.



Helena passou a escrever sempre. Duas datas eram sagradas: a Páscoa e o aniversário do poeta, em 31 de outubro. Em 1962, ela recortou a assinatura de Drummond de uma carta para dar de presente a uma das religiosas. No ano seguinte, Drummond já se permitia algumas confissões: “Continuo sendo homem de Itabira mergulhado na confusão da Guanabara”. No mesmo ano, ela viajou à tal Guanabara, com as colegas do curso de magistério. Viu o mar pela primeira vez. “Pensei em visitar o Drummond, mas ninguém quis me acompanhar e também não deixaram que eu fosse sozinha.” Em uma carta, Drummond lamentou o desencontro.

Em 1964, depois de um namoro de oito anos, Helena se casou com Jurandir João Vicari, que no começo desconfiou das intenções do poeta: “Ele tinha aquela amante de muitos anos, a Lygia Fernandes. Achei que pudesse estar tentando alguma coisa com a Helena”. Com o passar do tempo, o marido se acalmou: “A verdade é que as cartas sempre foram respeitosas”.

 

O tema principal da correspondência costumava ser a própria família Vicari. O primeiro filho de Helena e Jurandir, Bagder, nasceu no mesmo dia do aniversário do poeta. Mereceu de Drummond uma quadrinha: Badger, meu pequenino companheiro/ de signo, sê feliz em teu destino / Amar, servir, cantar é o verdadeiro/ Bem de existir, sob o clarão divino. Os outros filhos, Romaine, Rayane e Glauber (por causa do cineasta baiano), e a afilhada Gisele também tiveram direito a versos drummondianos. Em abril de 1966, um poema para a cidade dos Vicari: Guaporé fica longe do Rio de Janeiro?/ Não./ Guaporé fica perto/ se na Páscoa, fagueiro,/ recebo o voto certo/ e amigo – já adivinho/ da família Vicari/ que me chega pelo ar e me envolve de carinho.

Drummond parecia satisfeito com a relação que haviam construído. Em 1970, escreveu: “Não nos conhecemos pessoalmente, e entretanto nossa amizade perdura, como uma planta viçosa, que vai se tornando árvore de boa sombra”. Mas, para Helena, essa proximidade virtual não era suficiente. No ano seguinte, voltou ao Rio, dessa vez com o marido. Foram até o apartamento do poeta, em Copacabana, para uma visita surpresa. Ao chegar, descobriram que a família Drummond havia saído minutos antes, rumo a Petrópolis. O porteiro permitiu que Helena subisse até o hall do apartamento, onde ela deixou um bilhete e o presente que levara: uma espátula de prata com motivos gaúchos.

Se ela insistia em encontrá-lo, era, sim, por amizade, mas Helena tinha também uma vaidade artística e queria vê-la reconhecida. Enquanto o poeta lhe mandava quadrinhas singelas que em nada lembram o Poema de Sete Faces ou A Máquina do Mundo, Helena retribuía com versos de sua própria lavra. Drummond era econômico nos elogios. “Acho você melhor nos poemas curtos, que, aliás, são mais difíceis de fazer.” “Ele elogiava, mas não deu um empurrãozinho, então eu fiquei me achando menos”, conta ela, que chegou a ter um programa numa rádio local chamado Sempre é Tempo de Poesia, em que lia poemas dos outros, nunca os seus.

Passados dezessete anos desde a carta inicial, Helena venceu a vergonha e telefonou pela primeira vez para Drummond, para lhe dar os parabéns pelo aniversário de 76 anos. Nervosa, mostrou-se bem menos prolixa e mais formal do que nas cartas. “Minha filha, trate-me sem tanta cerimônia”, ele disse. “Afinal, nossa amizade é antiga e o tratamento ‘senhor’ me faz sentir um centenário.” Não se deve à memória o fato de Helena se lembrar detalhadamente do que Drummond lhe disse: assim que desligou o telefone, ela pegou um papel e canetinhas hidrográficas e registrou toda a conversa.

Enquanto seus sonhos de ser poeta não decolavam, Helena dava aulas no colégio onde estudara e criava os quatro filhos. Nem no trabalho, nem em casa falava muito das cartas. “Eu nunca tinha visto essa pasta da mãe”, comenta Rayane, hoje com 34 anos. E folheia as cartas de décadas protegidas em plástico.

Quando Drummond perdeu a filha, Maria Julieta, em 5 de agosto de 1987, Helena relutou em lhe escrever. “Preferi esperar um momento em que ele não estivesse tão abalado.” O poeta morreu doze dias depois. Ela se arrepende: “Talvez uma carta pudesse ter dado um alento a ele. Talvez tivesse feito alguma diferença”.

Emiliano Urbim

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