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Cores nas aulas

Projeto didático explica o passado e o presente dos pretos

Marcos Amorozo
CREDITO: ANDRÉS SANDOVAL_2021

Anaya e Kayodê Adichie são dois adolescentes pretos que precisam fazer um trabalho escolar sobre o Dia Nacional de Zumbi e da Consciência Negra (celebrado em 20 de novembro) e estão cheios de dúvidas sobre o tema. Eles pedem ajuda aos seus pais, que, por sua vez, recorrem a dois amigos, Ana Flávia e Flávio Gomes, ambos professores de história. A jovem Anaya, de 16 anos, e o menino Kayodê, de 11, fazem a eles uma série de perguntas. Como surgiram e funcionavam os quilombos? Os escravizados fugiam por que eram preguiçosos? Quem foram e o que fizeram os abolicionistas? Zumbi dos Palmares e Ganga Zumba eram rivais?

É assim a história em quadrinhos Tem Cor no Ensino, criada para explicar aos alunos do ensino fundamental ao médio as principais questões relacionadas aos pretos no Brasil. A revista digital começou a ser enviada por e-mail em novembro do ano passado para 295 escolas públicas e privadas de 24 estados e do Distrito Federal, alcançando 32 mil estudantes. A HQ é parte de um projeto que  inclui ainda a distribuição de uma cartilha sobre a história da escravidão e da abolição no Brasil, um guia pedagógico de atividades e nove vídeos – tudo feito para ajudar os professores nas lições sobre a história dos pretos, desde a diáspora africana até hoje, sua cultura, religiosidade e as lutas mais recentes por direitos.

As inquietações e o entusiasmo da professora de história Keilla Vila Flor Santos, de 25 anos, estão na origem do projeto. Preocupada em aproximar os alunos em geral das questões que afetam os pretos, ela teve a ideia de produzir o material didático extra. Em maio de 2020, convidou para ajudar na produção os amigos Nonny Gomes, 31 anos, bacharel em direito, Vinícius Machado, 24 anos, geógrafo e educador, e Jonas Silva, 25 anos, cinegrafista e diretor. Os historiadores Flávio dos Santos Gomes, 56 anos, e Ana Flávia Magalhães Pinto, 40 anos, juntaram-se logo em seguida à equipe para revisar o conteúdo.

O roteiro da HQ foi feito por Vila Flor Santos. As ilustrações coloridas ficaram a cargo dos irmãos Rafael Henrique Carvalho, de 13 anos, e Caio Henrique Carvalho, de 15, que são alunos dela e haviam chamado sua atenção pelos desenhos que faziam nos trabalhos escolares. “Meu maior desafio foi me organizar para cumprir os prazos e fazer tudo certinho”, contou Caio. “Eu tinha que dar apoio para meu irmão e ele me ajudava para que o resultado fosse bom. Foi uma ótima oportunidade de desenvolver meu talento para o desenho e o meu conhecimento das nossas origens negras.”

A cartilha e o guia pedagógico foram elaborados por todos os participantes do projeto. Os vídeos reúnem depoimentos de pesquisadores a respeito de educação, política, mídias e saúde. “Como professora, eu sentia falta de materiais didáticos que tratassem do assunto com profundidade e clareza. Apesar de haver leis que obriguem as escolas a ensinar história e cultura afro-brasileira e indígena, muitas vezes esses conteúdos se restringem a pequenos capítulos ou verbetes dos livros. É muito pouco”, disse Vila Flor Santos, que leciona em duas escolas particulares de Brasília.

Em outubro, o material estava pronto, todo ele feito remotamente, de maneira voluntária, sem apoio de governos ou patrocínios de qualquer tipo. “Graças ao empenho de todos, trabalhamos rápido”, contou a professora. A divulgação foi feita pelas redes sociais, e o interesse de colégios e professores em dispor do material superou as expectativas do grupo. Começou, então, a distribuição gratuita pelas escolas do país, com a única exigência de que os educadores assinassem um termo de uso de proteção de propriedade intelectual. “Imaginávamos atingir uns trezentos alunos, mas nunca 295 escolas. Ainda mais por ter sido uma adesão espontânea, apenas com a nossa divulgação pelas redes. Foi uma surpresa muito boa.”

 

Keilla Vila Flor Santos é também colunista do portal Ativismo Negro e uma debatedora assídua nas redes sociais. É baiana de Alagoinhas e mora no Distrito Federal, onde se formou em história pela Universidade de Brasília (UnB). Apaixonada pelo ensino, começou a dar aulas sem sequer ter terminado a faculdade. “Uma semana antes de começar o meu primeiro semestre, já tinha entrado num projeto de extensão do curso de história da UnB que oferecia aulas numa escola pública para gente até mais velha que eu. Sempre estive certa da minha profissão”, disse.

Manter a atenção de turmas com dezenas de alunos nunca foi tarefa fácil e, com a pandemia e as aulas a distância, os desafios ficaram ainda maiores. “A gente precisou pensar em dinâmicas e atividades diversas que prendessem a atenção dos estudantes e pudessem ser feitas por todos, independentemente das condições materiais.” Foi levando em conta essa situação que ela e os amigos incorporaram algumas novidades no projeto da HQ e da cartilha. “As propostas foram pensadas para que pudessem ser feitas totalmente online, desde a construção de um quilombo no jogo Minecraft até a criação de um jornal abolicionista com base nos autores do século XIX”, explicou Vila Flor Santos.

A equipe já colocou em andamento o próximo Tem Cor no Ensino, com um material didático parecido a respeito dos índios brasileiros. “Estamos conversando com pessoas indígenas para a produção desse novo projeto, com o objetivo de desconstruir os estereótipos.” A ideia é terminar tudo a tempo de ser distribuído no mês que vem, quando se comemora o Dia do Índio (19 de abril). “Mas precisamos achar pessoas que topem fazer o trabalho voluntariamente, como foi feito antes”, ela disse. “O Tem Cor no Ensino não é só para pessoas negras. Toda a população não branca vai ser trazida ao debate.”



Marcos Amorozo

Estagiário de jornalismo na piauí, é estudante da Universidade de Brasília (UnB)

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