esquina

Corujas sem fronteiras

Um suíço e a paz no Oriente Médio

Bernardo Esteves
ILUSTRAÇÃO: Andrés Sandoval_2019

A sala onde o pesquisador Alexandre Roulin dá aula na Universidade de Lausanne, na Suíça, é decorada de alto a baixo com fotos de corujas e espécimes empalhados. Algumas estão penduradas no teto em posição de ataque, com as asas abertas e as garras prestes a capturar uma presa. “Para os roedores, é uma máquina de matar, mas se trata de um animal muito pacífico”, disse o ornitólogo suíço numa entrevista recente à piauí.

Estudioso dessas aves de rapina há mais de vinte anos, Roulin se especializou numa espécie que faz ninhos em estruturas construídas pelos humanos e é chamada de coruja-das-torres, mas também de coruja-da-igreja ou coruja-de-celeiro. Originária da Ásia, ela se espalhou por todos os continentes, com exceção da Antártida. “As corujas são um animal ambíguo, que as pessoas temem e admiram”, afirmou o ornitólogo. “Ninguém fica indiferente diante de uma ave assim.”

A cor da coruja-das-torres pode variar de tons escuros de vermelho ao extremo branco. Roulin achava paradoxal o sucesso evolutivo dos animais claros: que vantagem teria um predador noturno tão visível? A questão começou a ser respondida num estudo que seu grupo publicou em setembro. Simulando a luz da lua cheia em laboratório, os cientistas observaram que a visão de corujas brancas paralisava os roedores, como se eles tivessem se deparado com um fantasma.

Estudos conduzidos pelo ornitólogo mostraram também que, enquanto os pais saem em busca de comida, os filhotes deliberam no ninho, com uma série de vocalizações, para definir a ordem em que serão alimentados. “Eles têm comportamentos muito elaborados, negociam, cedem, são um modelo de temperança”, continuou o pesquisador. É difícil achar bicho tão diplomático no reino animal. “E além de tudo é uma ave bonita, que se veste bem, como um embaixador.”

A espécie era, portanto, candidata ideal para estimular a colaboração entre povos que vivem em zonas de conflito. Depois que se juntou a um projeto que usava a ave como estratégia para a conservação da biodiversidade em Israel, o suíço passou a promover a coruja como embaixadora da paz. A primeira missão diplomática seria num dos mais espinhosos conflitos do planeta, aquele que opõe israelenses a palestinos e outros povos árabes no Oriente Médio.

 

O Vale do Jordão, cujo rio marca a fronteira entre a Jordânia, ao Leste, e Israel e a Cisjordânia, a Oeste, concentra as terras mais férteis da região. Situado na confluência da África, Ásia e Europa, o vale é também ponto de passagem das rotas migratórias de várias espécies de aves, que com isso ficam expostas aos agrotóxicos usados nas lavouras. A ideia de usar corujas-das-torres surgiu justamente para substituir parte dos pesticidas por um agente biológico de controle das pragas. Essa ave pode comer três pequenos mamíferos por dia. Um único casal de corujas com seus filhotes preda até 6 mil roedores num ano.

O projeto teve início nos anos 1980, quando o ornitólogo israelense Yossi Leshem instalou num kibutz quinze corujas que tinha recebido como doação de um zoológico. Com o tempo, Leshem espalhou pelas lavouras pequenas caixas de madeira instaladas no topo de mastros, adotadas de bom grado pelas corujas, que passaram a fazer ali seus ninhos. As aves circulavam por toda a região, alheias à geografia do conflito. “Os problemas ecológicos não conhecem fronteiras, e para resolvê-los é preciso soluções não só de alcance nacional, mas regional”, explicou Alexandre Roulin, que se juntou ao projeto em 2009, depois de conhecer Leshem num congresso. “Para isso era preciso trazer os palestinos e os jordanianos, o que não era fácil.”

Vindo de um país conhecido por sua tradição de neutralidade, Roulin ajudou a articular a aliança. “Notei que todos tinham confiança em mim por ser suíço.” O ornitólogo mobilizou o presidente da Suíça e se aproximou de Mansour Abu Rashid, colaborador de Leshem que foi uma peça-chave para viabilizar o projeto. General reformado do Exército da Jordânia, Rashid foi um dos artífices do tratado de paz que seu país assinou com Israel em 1994. Em 2008, ele ajudou a conseguir dinheiro europeu e norte-americano para estender o projeto a áreas na Palestina e na Jordânia. Hoje há mais de 4 mil casas de coruja espalhadas por um território de 16 mil hectares – sendo mais de 3,5 mil em Israel, 250 na Jordânia e outras tantas no território palestino.

As corujas são monitoradas com anéis de identificação e um dispositivo de localização que carregam nas costas, como uma pequena mochila. O gps confirmou que elas ignoram as fronteiras da política humana. Como numa versão alada de Romeu e Julieta, pares se formaram entre aves nascidas em Israel e na Jordânia. Outro casal construiu seu ninho em Israel, mas vai caçar na Palestina. “Esse projeto ajuda as pessoas a refletirem sobre o conceito de fronteira”, contou Roulin.

 

A última investida do suíço na diplomacia ornitológica foi apresentar as corujas da paz ao papa Francisco, que tem feito da defesa do meio ambiente um pilar do seu pontificado. Mandou-lhe uma carta entregue em mãos pelo bispo de Lausanne, Genebra e Friburgo, e nove meses depois foi recebido numa audiência com meia hora de duração prevista – “a mesma dos chefes de Estado” – da qual participaram também Yossi Leshem, Mansour Abu Rashid e um representante palestino que não pode ter o nome divulgado. Realizada em maio no Vaticano, a audiência foi “amigável e não muito protocolar” e acabou se estendendo por quarenta minutos. O papa recomendou ao cientista que não esquecesse a fraternidade, e Roulin lhe mostrou um vídeo de filhotes de coruja se alimentando uns aos outros.

No fim de setembro, o suíço voltou a Israel com a agenda cheia de reuniões para planejar o futuro do projeto, que ele gostaria de implantar em outras regiões do mundo. Indagado sobre se as corujas poderiam ajudar a apaziguar um país polarizado como o Brasil, Roulin refletiu e disse que era preciso tocar o coração do público. “As pessoas têm que se conectar com o meio ambiente, e as corujas podem ter um papel nisso.” Projetos de conservação da natureza têm a capacidade de unir as pessoas mesmo em casos de diferenças profundas como no conflito entre Israel e Palestina. “A Amazônia é o patrimônio do Brasil, e é preciso protegê-la”, afirmou. “Se seu presidente nos convidar, vamos lá falar com ele.”

Bernardo Esteves

Repórter da piauí desde 2010, é autor do livro Domingo é dia de ciência, da Azougue Editorial

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